GERALPARÁ

Influencer toma banho com capivara no Pará e se expõe a doença fatal

Lia Mendonça compartilhou vídeo em que aparece interagindo de perto com o animal; contato com capivaras exige atenção para riscos ligados ao carrapato-estrela.

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A digital influencer paraense Lia Mendonça chamou a atenção nas redes sociais ao publicar um vídeo em que aparece interagindo de forma bastante próxima com uma capivara. Nas imagens, ela faz carinho no animal, entra em um lago ao lado do roedor, o abraça e quase chega a trocar um “selinho”. A cena, que pode parecer apenas curiosa e divertida, também serve de gancho para um alerta de saúde pública sobre os riscos da febre maculosa e de outras doenças associadas ao contato com animais silvestres.

A preocupação não está propriamente no carinho ou no contato físico com a capivara, já que a febre maculosa não é transmitida diretamente pelo animal para a pessoa. O risco está principalmente na possibilidade de exposição a carrapatos infectados, especialmente em ambientes onde há vegetação, água e presença desses animais. O Ministério da Saúde destaca que a transmissão ocorre quando um carrapato infectado permanece aderido à pele.

CAPIVARA NÃO É ANIMAL DOMÉSTICO

A capivara Filó ganhou fama nas redes sociais em 2023 ao lado de Agenor Tupinambá e se tornou um dos casos mais conhecidos de interação entre humanos e animais silvestres no Brasil.

A aparência dócil e o comportamento tranquilo das capivaras podem despertar a vontade de interagir com elas. Casos como o de Agenor Tupinambá e da capivara Filó também ajudaram a popularizar esse tipo de relação nas redes sociais.

No entanto, o professor e biólogo Charles Fontenele alerta que a apesar da aparência amigável, a capivara é um animal silvestre e possui necessidades muito diferentes das de um animal doméstico. “O contato com ambientes naturais, como áreas de mata, gramados e margens de rios e lagos, faz parte da vida desses mamíferos e também os coloca no ciclo de diferentes vetores”, esclarece.

Além disso, as capivaras são os maiores roedores do mundo e possuem dentes fortes. Embora normalmente não sejam agressivas, podem morder quando se sentem ameaçadas, assustadas ou acuadas.

“Outro ponto de atenção está nos parasitas que podem utilizar esses animais como hospedeiros. O Ministério da Saúde reconhece a importância das capivaras no ciclo da febre maculosa brasileira, especialmente em áreas onde há circulação do carrapato-estrela”, observa o professor.

CARRAPATO-ESTRELA É O PRINCIPAL ALERTA

Conhecido também como micuim em determinadas fases da vida, o carrapato-estrela pertence ao grupo dos carrapatos do gênero Amblyomma. Ele é diferente do carrapato-vermelho-do-cão, mais associado aos animais domésticos.

O carrapato-estrela pode parasitar animais de grande porte, como cavalos e bois, além de aves, gambás, coelhos e outros hospedeiros. As capivaras também têm papel importante nesse ciclo, especialmente em ambientes próximos a coleções de água e áreas de vegetação.

“Esses animais são aracnídeos ectoparasitas, ou seja, vivem na parte externa do hospedeiro. Eles se alimentam de sangue e utilizam o aparelho bucal para se fixar à pele”, destaca Charles Fontenele.

O ciclo do carrapato envolve três fases principais: larva, ninfa e adulto. Depois de se alimentar e completar determinadas etapas do desenvolvimento, o parasita pode retornar ao ambiente e procurar um novo hospedeiro. “Por isso, o problema não está em simplesmente observar uma capivara, mas na possibilidade de entrar em um ambiente onde existam carrapatos infectados”, alerta.

COMO OCORRE A FEBRE MACULOSA?

A febre maculosa brasileira é uma doença causada pela bactéria Rickettsia rickettsii e transmitida por carrapatos infectados. A pessoa não contrai a doença simplesmente por tocar, abraçar ou ficar próxima de uma capivara. É necessário que um carrapato infectado esteja aderido à pele.

O tempo necessário para a transmissão pode variar. Documentos do Ministério da Saúde apontam que, na febre maculosa brasileira, a transmissão geralmente ocorre após algumas horas de permanência do carrapato preso à pele. Por isso, identificar e retirar rapidamente o parasita é uma das principais formas de reduzir o risco.

Os primeiros sinais da doença podem incluir febre, dor de cabeça intensa, náuseas, vômitos, dores musculares e prostração. Com a evolução, podem surgir manchas avermelhadas pelo corpo, inclusive em regiões como pulsos, tornozelos, palmas das mãos e plantas dos pés.

A doença pode evoluir para quadros graves e até provocar a morte quando não há tratamento adequado e oportuno. Por isso, diante de sintomas compatíveis, é importante procurar atendimento médico e informar ao profissional de saúde se houve permanência recente em áreas de mata, trilhas, fazendas ou locais com possível presença de carrapatos.

OUTRAS DOENÇAS TAMBÉM EXIGEM ATENÇÃO

A preocupação com o contato próximo com animais silvestres não se limita à febre maculosa. A convivência inadequada com esses animais pode envolver diferentes riscos sanitários e ambientais.

Entre as doenças que podem estar relacionadas a mamíferos silvestres ou aos ambientes frequentados por eles estão raiva, leptospirose, leishmaniose, tripanossomíase, enterobacterioses e doenças fúngicas.

“Isso não significa que toda capivara esteja doente ou que o simples contato com uma delas provoque essas enfermidades. O alerta está relacionado à necessidade de respeitar os hábitos naturais dos animais e evitar situações de exposição desnecessária”, explica o especialista.

COMO SE PROTEGER EM ÁREAS DE RISCO

Quem frequenta áreas de mata, campos, margens de rios, lagos ou locais com presença de capivaras deve adotar medidas para reduzir a possibilidade de contato com carrapatos.
Entre as principais recomendações estão:

  • Usar roupas claras, que facilitam a identificação do carrapato;
  • Preferir calças, botas e blusas de mangas compridas em áreas de vegetação;
  • Evitar locais com grama ou vegetação alta;
  • Utilizar repelentes indicados para carrapatos;
  • Verificar o corpo e as roupas depois de permanecer em áreas de risco;
  • Conferir também se animais domésticos estão livres de carrapatos;
  • Caso encontre um carrapato preso à pele, removê-lo cuidadosamente com uma pinça, sem esmagá-lo;
  • Após a retirada, lavar o local com água e sabão ou álcool.

O Ministério da Saúde reforça que quanto mais rapidamente o carrapato for retirado, menor tende a ser o risco de transmissão.

ALERTA NÃO É O MOTIVO PARA AFASTAR CAPIVARAS

A cena publicada por Lia Mendonça pode até provocar curiosidade e render comentários nas redes sociais, mas o principal alerta é evitar transformar animais silvestres em bichos de estimação ou estimular interações que possam colocar pessoas e animais em risco.

“As capivaras fazem parte dos ecossistemas naturais e podem desempenhar papel importante no ciclo de transmissão de agentes infecciosos. O Ministério da Saúde, inclusive, possui diretrizes específicas para o manejo desses animais em áreas com ocorrência de febre maculosa”, explica Charles Fontenele.

Assim, mais do que demonizar a capivara, o cuidado é respeitar a distância, evitar o contato desnecessário e redobrar a atenção com carrapatos. Em caso de exposição e posterior aparecimento de sintomas, a orientação é buscar atendimento médico rapidamente, já que o tratamento precoce aumenta as chances de evitar complicações.

Fonte: DOL e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 06/10/2026/15:15:41

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