A Aldeia Surucuá, no território Tupinambá do Baixo Tapajós, viveu um momento histórico nesta terça-feira (30). A liderança indígena Raquel Tupinambá tornou-se a primeira indígena Tupinambá do Baixo Tapajós a conquistar o título de Doutora em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB). Mais do que uma conquista acadêmica, a defesa marcou a primeira vez que uma tese de doutorado da instituição foi realizada dentro do território indígena, reunindo banca, comunidade e lideranças na própria aldeia.
A tese, intitulada “Arikatu, Arikatu: uma viagem pelos caminhos antigos para trilhar os caminhos do hoje, povo Tupinambá do Tapajós e o futuro ancestral”, parte das memórias, da territorialidade, da espiritualidade e das formas de organização do povo Tupinambá para refletir sobre a construção de um “futuro ancestral”. O trabalho reúne narrativas de anciãos, lideranças, mulheres, homens e jovens das 28 aldeias do território e propõe um diálogo entre ciência indígena e ciência acadêmica.
Segundo a banca examinadora, a pesquisa foi aprovada com excelência e possui potencial para contribuir como subsídio ao processo de demarcação da Terra Indígena Tupinambá. O estudo também registra lugares sagrados, modos de vida, manifestações culturais, práticas de manejo da floresta e da água, além de analisar as estratégias do povo para enfrentar processos históricos de colonização e as pressões atuais do avanço do capitalismo sobre a Amazônia.
“Esse título não é só meu. É também do meu povo, que esteve comigo em toda minha caminhada acadêmica, que sempre andou com o movimento social e indígena. Sem a ancestralidade, meus parentes e apoio dos meus amigos e familiares, isso não seria possível. Esse trabalho é resultado da coletividade e meu desejo é inspirar outros indígenas, tanto do meu território quanto de outros. Nosso lugar é no território, na universidade, nos ministérios e onde mais quisermos”, afirma Raquel Tupinambá.
Para a pesquisadora, realizar a defesa na própria aldeia simboliza um movimento de retorno do conhecimento à comunidade que tornou a pesquisa possível. Em vez de retirar informações do território, a universidade foi até ele para reconhecer uma produção construída coletivamente com o povo Tupinambá.
“Hoje celebramos a conquista de uma doutora e o reconhecimento da sabedoria do nosso povo. Ver uma filha Tupinambá defender sua tese dentro do nosso território mostra que nossos conhecimentos têm valor, têm ciência e têm futuro. É um momento que fortalece nossa luta pela terra, pela cultura e pelas próximas gerações”, disse Pajé Nato, liderança Tupinambá.
Ao longo da tese, Raquel argumenta que enfrentar a crise climática e os conflitos territoriais na Amazônia exige reconhecer os conhecimentos produzidos pelos povos indígenas ao longo de gerações. A pesquisa também analisa as ameaças representadas por grandes empreendimentos, como hidrovias e outros projetos de infraestrutura planejados para o Tapajós, defendendo que o futuro da região depende do fortalecimento das cosmovisões indígenas e da proteção dos territórios tradicionais.
Fonte: g1 e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 01/07/2026/07:59:42
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