Família de missionários é investigada por apoiar Comando Vermelho em presídios
Uma família de missionários religiosos está sob investigação da Polícia Civil de Mato Grosso por suspeita de usar o acesso a presídios para apoiar integrantes do Comando Vermelho, estabelecendo vínculos pessoais e financeiros com a facção.
Uma família de missionários religiosos entrou no centro de uma investigação da Polícia Civil de Mato Grosso por suspeita de utilizar o acesso autorizado a presídios para prestar apoio a integrantes do Comando Vermelho. Rhavenna Barcelos de Almeida e os pais, os pastores Nivaldo de Almeida e Orminda de Almeida, são apontados na apuração como integrantes de uma estrutura que teria extrapolado a assistência religiosa para estabelecer vínculos pessoais, financeiros e de comunicação com membros da organização criminosa.
O caso integra a Operação Fariseus, deflagrada pela Polícia Civil em julho deste ano. A investigação começou depois de uma denúncia sobre a suposta utilização de um projeto religioso para acessar a Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá. A família fazia parte de um grupo autorizado pelo governo estadual a prestar assistência religiosa aos detentos.
Segundo a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), porém, o livre trânsito proporcionado pela atividade missionária teria permitido uma aproximação com presos apontados como lideranças do Comando Vermelho. Os investigados teriam se colocado à disposição para transmitir recados e emprestar contas bancárias para movimentação e ocultação de dinheiro que, segundo a polícia, teria origem no tráfico de drogas.
Mensagens, armas e carros de luxo
Com autorização judicial, a Polícia Civil teve acesso a mensagens, fotografias, vídeos e áudios que passaram a integrar o conjunto de provas da investigação. Parte desse material, conforme os investigadores, mostra Rhavenna em situações de proximidade com integrantes da facção, além de registros envolvendo armas, dinheiro, joias e veículos de luxo.
A polícia também investiga a origem do patrimônio exibido pela missionária. Entre os bens citados está um Porsche avaliado em aproximadamente R$ 600 mil, que, segundo a apuração, pertenceria a Jonas Souza Gonçalves Júnior, conhecido como Batman e apontado pela Polícia Civil como uma liderança do Comando Vermelho em Mato Grosso.
Batman cumpria pena na mesma penitenciária frequentada pelos missionários. Em setembro de 2024, recebeu autorização para passar ao regime semiaberto, mas, de acordo com a investigação, rompeu a tornozeleira eletrônica poucos dias depois e fugiu para o Rio de Janeiro.
Rhavenna Barcelos de Almeida e os pais, Nivaldo e Orminda, tinham autorização para realizar assistência religiosa dentro de unidades prisionais.Polícia afirma que o acesso aos presídios teria sido utilizado para transmitir recados, movimentar dinheiro e estreitar relações com integrantes da facção.
Relação com liderança da facção
A investigação afirma que Rhavenna e Batman mantiveram um relacionamento amoroso. Mesmo depois da fuga do criminoso, os dois teriam continuado em contato frequente. Mensagens analisadas pela polícia indicariam compartilhamento de localização e conversas sobre operações policiais realizadas no Complexo do Alemão, no Rio.
Ainda segundo os investigadores, Rhavenna teria viajado ao Rio de Janeiro para encontrar Batman e participado de momentos de lazer supostamente financiados pela organização criminosa. A Polícia Civil também identificou uma relação da investigada com Renildo Silva Rios, apontado na investigação como um dos fundadores do Comando Vermelho em Mato Grosso e preso há mais de duas décadas.
A apuração alcançou ainda outras mulheres que tinham autorização para entrar nos presídios como integrantes de atividades religiosas. A polícia suspeita que algumas teriam mantido relacionamentos com traficantes e apresentado informações falsas durante depoimentos.
Operação Fariseus
A Operação Fariseus foi realizada em 16 de julho e teve como alvo a estrutura que, conforme a polícia, utilizava um projeto religioso para fornecer apoio logístico, financeiro e de comunicação à facção. Há também registros de videochamadas entre mulheres ligadas ao projeto e integrantes do grupo criminoso.
A investigação aponta ainda suspeitas de entrada de celulares, carregadores e outros objetos proibidos para presos instalados em área de segurança máxima. Em outro trecho da apuração, conversas teriam mencionado até a aplicação de um “salve”, expressão usada no universo das facções para designar punições determinadas pelo próprio grupo criminoso.
Rhavenna, Orminda e Nivaldo foram indiciados por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Posteriormente, o Ministério Público denunciou Rhavenna, Orminda e Renildo pelos mesmos crimes. A Justiça também determinou que os investigados e outras quatro pessoas citadas no inquérito fossem impedidos de participar de atividades de assistência religiosa dentro das unidades prisionais.
Nivaldo de Almeida morreu no último dia 5, em Cuiabá, após complicações decorrentes de um câncer. Ele havia sido alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Fariseus.
As acusações descritas fazem parte da investigação policial e do processo judicial e não representam condenação definitiva dos envolvidos. As responsabilidades individuais ainda dependem da análise das provas e do andamento da ação na Justiça.
Fonte: DIARIO DO PARÁ e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 14/09/2026/15:55:33
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