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Como o PL virou a maior potência eleitoral do país

Partido escolhido pelos Bolsonaro assume hegemonia da direita, com domínio da Câmara dos Deputados e do Senado. Fundo eleitoral vultoso e discurso ideológico ajudam a explicar sucesso nas urnas

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O PL conquistou nas eleições de 2026 recordes de representantes nos estados, no Senado e na Câmara dos Deputados, onde formou a maior bancada de um partido desde a redemocratização.

Também integram a legenda, presidida por Valdemar Costa Neto, os dois candidatos a deputado federal mais votados do país: Nikolas Ferreira, reeleito por Minas Gerais, e Lucas Pavanato, eleito por São Paulo. Ambos superaram os 3 milhões de votos.

121

será o número de deputados federais do PL na Câmara, 23 a mais do que na eleição de 2022

28

será a bancada do PL no Senado em 2027, somando os 19 eleitos com outros nove nomes com mandato até 2031

A fundação e as mutações do PL

O Partido Liberal foi fundado em 1985 pelo então deputado Álvaro Valle, do Rio de Janeiro, no contexto da redemocratização brasileira, que restabeleceu o pluripartidarismo no país.

O deputado Álvaro Valle, fundador do PL em 1985

Desde o início, a legenda defende princípios liberais, como fortalecimento da iniciativa privada, redução do Estado na economia, defesa do direito de propriedade e reformas econômicas e sociais. O manifesto de fundação tratava ainda da redução da desigualdade social e da defesa dos direitos das minorias, “dentro da mais pura tradição do liberalismo”.

6

deputados foram eleitos pelo partido nas eleições de 1986

Na primeira disputa presidencial direta após a ditadura militar (1964-1985), em 1989, o PL lançou como candidato o então deputado Guilherme Afif Domingos, que terminou a corrida em sexto lugar.

O PL passou por diversas transformações institucionais ao longo das décadas. Nos anos 1990, atuou como um partido de centro-direita, com alianças e mudanças de posicionamento conforme a conjuntura eleitoral. Na disputa presidencial de 1994, o empresário Flávio Rocha, dono da rede Riachuelo, chegou a ser pré-candidato, mas desistiu da corrida por causa do apoio do partido a Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Em 2000, com a morte de Valle, o então deputado Valdemar Costa Neto assumiu a presidência da sigla. Em 2002, o partido integrou a chapa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que teve como vice o empresário José Alencar (1931-2011), filiado ao PL. A aproximação entre as legendas teve o objetivo de ampliar a coalizão eleitoral do PT, que buscava se aproximar de agentes econômicos até então resistentes à esquerda.

26

deputados federais foram eleitos pelo PL em 2002

No ano seguinte, em 2003, o PL integrou o PGT (Partido Geral dos Trabalhadores) e o PST (Partido Social Trabalhista), atualmente extintos. Em 2006, veio a fusão com o Prona, legenda fundada em 1989 por Enéas Carneiro (1938-2007), ex-deputado federal conhecido pelo discurso nacionalista inflamado, finalizado com o jargão “meu nome é Enéas!”, nas corridas presidenciais de 1989, 1994 e 1998.

A junção do PL e do Prona originou o PR (Partido da República). A partir desse período, os rumos do partido tiveram forte influência de Valdemar, que posicionou a sigla no campo do centrão.

A crise do mensalão

Valdemar Costa Neto acabou implicado no escândalo do mensalão, esquema de corrupção revelado em 2005 pelo então deputado Roberto Jefferson (PTB), acusando o governo Lula de compra de apoio parlamentar.

O presidente do PL renunciou ao cargo e conseguiu manter seus direitos políticos. Foi eleito novamente para a Câmara em 2006 e 2010. O partido, que então se chamava PR, seguiu em ascensão.

41

deputados federais foram eleitos pelo PL (que na época se chamava PR) em 2010

Em 2013, Valdemar foi um dos condenados no Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão. Ele começou a cumprir pena de sete anos por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Nesse período, mesmo sem mandato e sem cargo formal, continuou exercendo influência sobre os rumos do partido.

Em 2016, o Supremo extinguiu sua pena, após o tribunal deferir um indulto de Dilma Rousseff (PT). No mesmo ano, a então presidente sofreu processo de impeachment.

Em 2018, Jair Bolsonaro, então filiado ao PSL, foi eleito presidente da República. A chegada do político, até então um deputado de baixo clero, ao cargo mais importante do país foi resultado dos novos ventos políticos que começaram a virar no Brasil com as jornadas de junho de 2013.

Valdemar acompanhou essa mudança. Em 2019, o PR voltou a ser PL, e o político iniciou a aproximação com o bolsonarismo.

O PL com Bolsonaro

O crescimento do PL se relaciona diretamente com a figura de Jair Bolsonaro, que se filiou à agremiação em 2021, depois de passar por oito partidos.

FOTO: Beto Barata/PL 26.03.2025Jair Bolsonaro e Valdemar Costa Neto em reunião do PL

Jair Bolsonaro e Valdemar Costa Neto em reunião do PL

No pleito de 2022, a migração de políticos ligados ao então presidente fez com que o PL concentrasse parte expressiva das candidaturas bolsonaristas, de onde despontaram fenômenos eleitorais como Nikolas Ferreira. Na ocasião, o mineiro foi o deputado federal mais votado do Brasil, com 1,4 milhão de votos, e o partido conquistou a maioria partidária na Câmara.

98

deputados federais foram eleitos pelo PL em 2022

Derrotado por Lula, Bolsonaro perdeu a eleição por uma margem pequena de votos, e o PL participou da empreitada bolsonarista de questionamento ao sistema eleitoral brasileiro.

Para isso, contratou uma auditoria que colocou em xeque a confiabilidade das urnas e pediu ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que revisse a votação – mas apenas para os resultados do segundo turno. O pedido de verificação extraordinária rendeu ao partido uma multa de R$ 22 milhões.

Em 2023, Valdemar investiu na criação do PL Mulher, ao perceber que havia uma lacuna de participação feminina em seus quadros e uma desconfiança desse segmento em relação aos homens da família Bolsonaro. A presidência do grupo foi assumida por Michelle Bolsonaro, que passou a viajar pelo Brasil para aumentar o número de filiadas.

Michelle Bolsonaro em encontro do PL Mulher em Rio Branco (AC)

Os frutos foram colhidos no pleito municipal de 2024, com crescimento de 48% das candidatas eleitas pelo PL, segundo disse Michelle em vídeo que expôs desavenças com Flávio Bolsonaro (PL). Depois, os dois disseram que fizeram as pazes.

Ao longo do terceiro mandato de Lula, o PL se firmou como o principal partido de oposição. Mas, diante da inelegibilidade, da condenação e da prisão de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado em 2022, o partido perdeu seu principal nome para concorrer contra o PT em 2026.

Jair delegou ao filho primogênito a tarefa de substituí-lo, e houve uma transferência automática de votos. No domingo (4), Flávio chegou à frente de Lula no primeiro turno das eleições, com 47,03% dos votos válidos. O presidente teve 45,16%.

58 milhões

foram os votos em Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições 2022

56 milhões

foram os votos em Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições 2026

As conquistas de 2026

Além dos números obtidos por Flávio na disputa presidencial, o PL bateu recordes em relação a 2022 no pleito de 2026, com 121 deputados federais eleitos, 23 a mais do que na eleição passada.

Essa representação é inédita no período democrático brasileiro. Um feito semelhante pertencia ao MDB, que, em 1990, elegeu 108 deputados.

Os fenômenos do pleito passado cresceram ainda mais: Nikolas Ferreira foi reeleito com 3 milhões de votos, número semelhante ao do colega Lucas Pavanato (SP), eleito para o primeiro mandato de deputado federal. Dois nomes da família Bolsonaro também estarão na Câmara: Jair Renan Bolsonaro, que era vereador em Balneário Camboriú (SC), e Renato Bolsonaro, irmão de Jair, eleito por São Paulo.

Lucas Pavanato (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG), os deputados federais mais votados do país

Nas Assembleias Legislativas do Rio e de São Paulo, as duas deputadas estaduais mais votadas são do PL: Índia Armelau e Eduarda Campopiano. Ambas se apresentam como “inimigas das feministas” e investem contra pautas de gênero. Campopiano se coloca, por exemplo, contra o voto feminino e afirma que o feminicídio “não existe”.

Em relação aos executivos estaduais, o PL elegeu cinco governadores já no primeiro turno. São eles:

  • Marcos Rogério, em Rondônia, com 57% dos votos
  • Arthur Henrique, em Roraima, com 69% dos votos
  • Luciano Zucco, no Rio Grande do Sul, com 58% dos votos
  • Jorginho Mello, em Santa Catarina, com 69% dos votos
  • Sergio Moro, no Paraná, com 50% dos votos

O PL será a maior bancada do Senado, com 28 senadores, 19 eleitos em 2026 e outros nove com mandato até 2031. Da família Bolsonaro, foram eleitos Michelle Bolsonaro, pelo Distrito Federal, e Carlos Bolsonaro, por Santa Catarina.

O bolsonarismo investiu em ter a maior fatia da Casa há anos, principalmente para conseguir aprovar o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal — com destaque para Alexandre de Moraes, relator da ação penal que condenou Bolsonaro por tentativa de golpe e da que investigou os ataques aos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.

Manifestação em Brasília em defesa da anistia aos condenados nos atos golpistas de 8 de Janeiro

Em junho de 2025, antes de ser condenado pela trama golpista, Jair Bolsonaro disse em ato na avenida Paulista que a maioria eleitoral no Congresso permitiria “mudar o Brasil”.

No mesmo mês, antes de ser designado pelo pai como o nome do bolsonarismo ao Planalto, Flávio disse em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo que um presidenciável da direita precisaria brigar pelo perdão judicial ao pai e aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, além de impedir uma eventual derrubada da medida pelo Supremo — mesmo que fosse necessário o “uso da força”.

A ideia de Valdemar Costa Neto é eleger o senador Rogério Marinho (PL-RN), que coordena a campanha presidencial de Flávio, para a presidência do Senado em 2027. O presidente do Senado é responsável por aceitar ou não pedidos de impeachment contra ministros do Supremo e por controlar a pauta de votações como um todo.

O que explica o sucesso

Para a cientista política Talita Tanscheit, professora da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), o desempenho do PL nas urnas era esperado e é fruto da combinação de recursos organizacionais, ideológicos e financeiros.

R$ 881 milhões

foi o valor do fundo eleitoral do PL em 2026 para custear campanhas

“É um partido que tem se estruturado nos territórios, com diretórios nos estados e em municípios, comissões provisórias, vereadores, parlamentares federais e estaduais. Uma estrutura de partido político coesa, como só o PT tinha”, disse Tanscheit ao Nexo.

A antecedência das ações para eleger o maior número possível de deputados e senadores é outro elemento importante, afirmou ao Nexo o cientista político Aldo Fornazieri, coordenador da Pós-Graduação em Estratégia e Liderança Política da Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

“O objetivo de Bolsonaro era ter uma força de controle e de constrangimento do STF, incluindo a possibilidade de impeachment. Já o objetivo do PL é material: controle de poder, verbas, fundos partidário e eleitoral, emendas parlamentares. Tanto Bolsonaro como o partido foram bem-sucedidos nessa estratégia comum”, disse.

FOTO: Beto Barata/PLValdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal

Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal

Para Guilherme Carvalho, professor de ciências sociais da UFG (Universidade Federal de Goiás), o PL teve um plano de comunicação acertado em 2026, trabalhado ao longo dos últimos anos: o do inimigo em comum, personalizado na figura do STF.

“A direita bolsonarista conseguiu, com muita competência, eclipsar o escândalo de Flávio com o Banco Master [o senador é investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas por ter pedido R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para o filme ‘Dark Horse’] apontando esse inimigo em comum” afirmou Carvalho ao Nexo. “E eles dão a receita para derrotar esse inimigo: eleger uma grande bancada no Senado e na Câmara. Isso ativou o eleitorado.”

Junto a isso, pesou o voto econômico, segundo o cientista político.

Apesar dos indicadores econômicos positivos do governo Lula, o custo de vida segue alto, o que impacta a sensação de melhora de vida. Esse mal-estar tem afetado reeleição de incumbentes no mundo todo.

Segundo Carvalho, embora os preços, sobretudo dos alimentos, tenham aumentado mais no governo Bolsonaro, o eleitor não faz esse retrospecto: ele avalia o governo da vez. “Ele votou em Lula pela promessa de que ele daria um boom na economia, mas não viu isso. Ninguém come PIB [Produto Interno Bruto]. E, agora, ele decidiu votar no outro lado, que promete resolver”, afirmou.

A expansão dos diretórios estaduais e municipais e o número de eleitos faz do PL hoje – ainda que o PT tenha mais filiados – o maior partido do país, na visão de Fornazieri. “O PL é mais vigoroso em termos de novas lideranças”, disse.

1,7 milhão

é o número de filiados do PT

947 mil

é o número de filiados do PL

Para Tanscheit, esse crescimento do PL não afeta o avanço do PT ou de outros partidos de esquerda, mas do centrão.

“Quem está sendo castigado pelo crescimento do PL é o centrão. Esta é uma eleição fundamentalmente de derrota do centrão. Só máquina não vence mais eleições no Brasil. Só recurso financeiro não dá vitória. É preciso um programa político claro, conectado com o eleitorado”

Talita Tanscheit

professora de ciência política da PUC-Rio, em entrevista ao Nexo

Tanscheit também disse que a construção da marca partidária do PL representa um paradoxo.

“Teoricamente, é muito bom que partidos fortes existam, porque a democracia não sobrevive sem partidos políticos. Por outro lado: o que a gente faz quando o partido é de ultradireita e ameaça as próprias bases do sistema político democrático? A gente continua achando isso positivo? É paradoxal a encruzilhada que estamos vivendo”, afirmou a cientista política.

Fonte: NEXO e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 07/10/2026/14:10:19

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