Canetas emagrecedoras já rendem mais ao crime organizado do que o contrabando de cigarros
O contrabando de canetas emagrecedoras movimenta R$ 10 bilhões no Brasil em seis meses. A Receita Federal e a Polícia Federal intensificam o combate a esse mercado ilegal, que representa grave risco à saúde pública.
Durante décadas, o contrabando de cigarros dominou as fronteiras brasileiras. Hoje, porém, um novo produto passou a ocupar esse espaço: as chamadas canetas emagrecedoras. Impulsionado pela promessa de perda rápida de peso e pela enorme procura nas redes sociais, o mercado ilegal dessas substâncias já movimenta cerca de R$ 10 bilhões em apenas seis meses no Brasil e transformou-se em um dos negócios mais lucrativos para organizações criminosas.
O avanço impressiona as autoridades sanitárias e policiais. Na região da Ponte da Amizade, entre Brasil e Paraguai, os medicamentos clandestinos para emagrecimento já ultrapassaram o cigarro como um dos principais produtos apreendidos pela Receita Federal. O crescimento também aparece nas estatísticas: enquanto, nos primeiros meses de 2025, foram apreendidas cerca de 7,4 mil unidades, em 2026 esse número ultrapassou 115 mil canetas, um aumento superior a 1.400%.
A escalada culminou, em julho deste ano, na maior apreensão já registrada no país. A Polícia Rodoviária Federal encontrou mais de 30 mil canetas emagrecedoras escondidas em um caminhão que saiu do Paraná com destino ao estado de São Paulo.
Para investigadores, os números revelam uma mudança importante no perfil do crime organizado. O foco deixou de ser apenas drogas ilícitas ou cigarros contrabandeados. Medicamentos de alto valor agregado passaram a oferecer lucro elevado, menor volume para transporte e enorme demanda entre consumidores dispostos a comprar produtos sem qualquer garantia de origem.Como as canetas ilegais chegam ao Brasil
As investigações mostram que o contrabando utiliza duas grandes rotas. A primeira é a terrestre. As canetas entram principalmente pelo Paraguai, atravessam os estados do Paraná e do Mato Grosso do Sul e seguem para centros de distribuição clandestinos espalhados pelo país.
Produtos manipulados em baldes: investigação revela bastidores do mercado ilegal de canetas emagrecedoras
A segunda rota vem diretamente da Ásia. A Receita Federal identificou um intenso fluxo de remessas provenientes da China contendo tanto canetas prontas quanto ingredientes farmacêuticos destinados à fabricação clandestina. Apenas em três meses, cerca de uma tonelada desses produtos foi apreendida no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP).
Parte do material abastece laboratórios clandestinos instalados no Brasil. Outra parcela segue por voos domésticos, encomendas postais e transportadoras privadas para diferentes regiões brasileiras.O Pará também integra essa cadeia
Embora os maiores carregamentos sejam interceptados nas fronteiras do Sul, o Pará passou a integrar a logística nacional do comércio clandestino. Segundo as investigações, depois de ingressarem no país, as canetas são redistribuídas por transportadoras, serviços postais e empresas de encomendas para diversas capitais brasileiras, incluindo Belém.
As redes sociais também desempenham papel decisivo. Perfis em aplicativos de mensagens e plataformas digitais oferecem entrega rápida, muitas vezes sem qualquer exigência de receita médica, utilizando remetentes diferentes para dificultar a identificação pelas autoridades.
O perigo das canetas emagrecedoras ilegais
O mercado ilegal também mudou de perfil. Antes, predominava a falsificação de medicamentos conhecidos, como Ozempic e Mounjaro. Agora, o principal produto procurado pelos contrabandistas é a retatrutida, uma molécula considerada promissora no tratamento da obesidade. O problema é que ela ainda está em fase 3 de testes clínicos e não possui registro sanitário em nenhum país.
Mesmo assim, versões clandestinas já são comercializadas em forma de canetas, ampolas e pó para reconstituição, produzidas principalmente por fabricantes ilegais instalados no Paraguai e na China, sem qualquer fiscalização sobre composição, esterilidade ou dosagem. Especialistas alertam que ninguém sabe exatamente o que existe dentro dessas embalagens.Falsificações cada vez mais sofisticadas
Além das substâncias experimentais, continuam sendo encontrados medicamentos falsificados que imitam marcas conhecidas.A Anvisa identificou lotes de Ozempic e Mounjaro com diversos sinais de fraude, entre eles: erros de grafia nas embalagens; números de série incompatíveis com os lotes oficiais; códigos QR que direcionam o consumidor para páginas falsas de autenticação; e embalagens praticamente idênticas às originais.
Em muitos casos, o usuário acredita estar adquirindo um medicamento legítimo quando, na realidade, aplica uma substância de origem completamente desconhecida.Produtos manipulados em baldes
Combate ao contrabando e riscos à saúde
A resposta das autoridades brasileiras ganhou intensidade neste mês. A Polícia Federal, em conjunto com a Anvisa, deflagrou a Operação Heavy Pen, considerada uma das maiores ações já realizadas contra esse mercado ilegal.
Foram cumpridos 45 mandados de busca e apreensão em 12 estados, atingindo toda a cadeia criminosa, desde importadores de insumos químicos até distribuidores e fabricantes clandestinos. Durante a operação, também foram fechados laboratórios ilegais no Rio de Janeiro, São Paulo, Maceió e Espírito Santo.
As investigações revelaram um cenário alarmante. Em alguns desses locais, substâncias sem identificação eram manipuladas em baldes, envasadas manualmente em seringas e posteriormente transferidas para canetas genéricas destinadas ao comércio clandestino.
Segundo os investigadores, os ambientes não apresentavam qualquer condição sanitária para produção de medicamentos.Crime pode resultar em até 15 anos de prisão
Ao contrário do que muitos consumidores imaginam, vender ou importar medicamentos clandestinos não configura apenas infração sanitária. A legislação brasileira enquadra essas condutas no Artigo 273 do Código Penal, que trata da falsificação, adulteração ou comercialização de produtos destinados a fins terapêuticos.
O delito é considerado crime hediondo e prevê pena de 10 a 15 anos de reclusão, além de multa. A punição figura entre as mais severas previstas na legislação penal brasileira para crimes relacionados à saúde pública.Risco muito além do emagrecimento
Médicos e autoridades sanitárias alertam que o maior perigo não está apenas na falsificação das embalagens. Sem controle de qualidade, essas canetas podem conter concentrações incorretas do princípio ativo, substâncias tóxicas, contaminantes microbiológicos ou simplesmente não conter o medicamento anunciado. As consequências podem incluir reações alérgicas graves, infecções, pancreatite, hipoglicemia severa, lesões permanentes e até morte.
O crescimento acelerado desse mercado demonstra que o combate ao contrabando deixou de ser apenas uma questão econômica. Tornou-se um problema de saúde pública, alimentado pela busca do emagrecimento rápido e explorado por organizações criminosas que transformaram a promessa de perda de peso em um negócio bilionário, colocando milhares de brasileiros diante de um risco invisível a cada aplicação.
Como identificar canetas emagrecedoras falsas
Mercado ilegal de canetas para emagrecer movimenta R$ 10 bilhões e preocupa autoridades
Para identificar canetas emagrecedoras falsas, desconfie de preços muito abaixo da média de mercado, verifique se a caixa possui número de lote e lacre intacto, e consulte a autenticidade na Anvisa. Compre exclusivamente em redes de farmácias autorizadas, pois as cópias externas são praticamente idênticas aos produtos originais.Sinais de alerta
Preços muito baixos: Como as falsificações são visualmente muito parecidas com as originais, é preciso redobrar a atenção aos detalhes antes da aplicação: preços muito baixos são um alerta, já que ofertas têm valores muito inferiores à tabela do fabricante, sendo o principal indicativo de golpe ou contrabando.
Erros na embalagem: Desconfie de textos com erros de português, falta de informações obrigatórias (como o número de lote e validade), ou caixas com adesivos colados por cima.
Cor e aspecto do líquido: Cor e aspecto do líquido: O medicamento dentro do refil deve ser totalmente límpido e transparente. Se apresentar coloração turva, partículas em suspensão ou rótulos desgastados, descarte imediatamente.
Mecanismo da caneta: Falhas na hora de girar o seletor de doses ou a presença de marcas de uso (como arranhões) no aplicador são sinais de que o produto foi adulterado.
Como verificar a procedência: O método mais seguro para ter certeza da originalidade é checar os dados do lote.Guarde a Nota Fiscal: Ela é a sua garantia de que o produto saiu de um estabelecimento regularizado.
Consulte a embalagem e o lote: verifique o número de lote e a validade impressos na caixa da caneta. E para confirmar se o registro existe no Brasil, você pode utilizar o sistema de Consulta a Medicamentos no site oficial da Anvisa ou entrar em contato diretamente com o SAC do fabricante.
Fonte:DIARIO DO PARÁ e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 20/07/2026/16:45:33
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