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Amazônia registra mais de 23 mil focos de calor desde junho; Pará e Amazonas lideram ocorrências

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Mais de 23 mil focos de calor foram registrados em nove estados da Amazônia desde junho de 2026, quando foram identificadas as condições que marcaram o início do atual episódio de El Niño no Brasil. O levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), disponibilizado no TerraBrasilis, reúne 23.303 registros entre junho e setembro e mostra que a maior parte ocorreu em áreas que já haviam passado por desmatamento.

Dos focos registrados, 11.654 ocorreram em áreas de desmatamento recente, o equivalente a 50,01% do total. Outros 8.429 foram identificados em áreas de desmatamento consolidado e 3.198 em áreas de vegetação nativa.

O número de ocorrências aumentou principalmente nos dois últimos meses. Foram 1.385 focos em junho, 1.356 em julho, 9.245 em agosto e 11.317 em setembro, até a atualização considerada no levantamento. Com isso, agosto e setembro somaram 20.562 dos 23.303 focos registrados desde junho, o equivalente a 88,2% do total.

Já entre os estados, o Pará lidera as análises com 9.445 focos, seguido pelo Amazonas, com 5.801, e Mato Grosso, com 4.293. Roraima aparece com 351 registros no período.

Reflexo das queimadas

No Amazonas, o avanço das queimadas também já tem reflexos na qualidade do ar. Segundo dados do Programa Queimadas do INPE, o estado registrou 3.240 focos entre 1º e 22 de setembro, contra 942 no mesmo período de 2025.

A fumaça chegou a deixar a qualidade do ar em Manaus em níveis considerados críticos. Na última quarta-feira (23), sensores da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) registraram concentração de até 291 microgramas de partículas finas (PM2,5) por metro cúbico. Em outro ponto monitorado, o índice chegou a 324,1 µg/m³.

O material particulado fino é um dos principais componentes da fumaça das queimadas e pode penetrar profundamente no sistema respiratório. A Fiocruz Amazônia também identificou níveis elevados de PM2,5 em Manaus durante o período.

A situação levou a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) a suspender as atividades presenciais em Manaus no dia 24 de setembro, mantendo as atividades de forma remota.

Efeito do El Niño?

O período recortado pela reportagem dentro dos dados do INPE coincide com o início do atual episódio de El Niño. Em junho, o padrão de temperaturas do Oceano Pacífico Equatorial já era compatível com o fenômeno, e as previsões indicavam temperaturas acima da média e possibilidade de chuvas abaixo da média no centro-norte do país, condições que podem favorecer o aumento do risco de incêndios florestais.

No entanto, os dados disponíveis não permitem afirmar que o El Niño seja responsável pelo aumento dos focos registrados neste ano. Em setembro, a pesquisadora Ana Paula Aguiar, do INPE, afirmou que os efeitos do fenômeno ainda não estavam claramente refletidos nos focos de calor, embora tenha sido observado um aumento nas últimas semanas. “Por ora, os efeitos do El Niño ainda não estão sendo sentidos, embora se perceba um incremento nas últimas semanas”, afirmou.

A preocupação também ocorre em um contexto de mudanças climáticas já identificadas na Amazônia. Um estudo internacional com participação de pesquisadores do INPE, publicado em setembro na revista Communications Earth & Environment, apontou aumento acelerado de temperaturas extremas e déficit hídrico, principalmente no centro-norte do bioma. A pesquisa analisou dados de 1981 a 2023 e identificou que cerca de 10% da Amazônia, área superior a 700 mil km², registrou aumento de pelo menos 0,75°C por década nas temperaturas extremas durante a estação seca.

O levantamento também mostrou que as temperaturas máximas extremas na estação seca aumentaram, em média, 0,49°C por década, ritmo superior ao crescimento da temperatura média anual da Amazônia, de 0,21°C por década. Para os pesquisadores, a intensificação desses extremos pode provocar impactos ambientais, sociais e econômicos e alterar os regimes de chuva.

Segundo Ana Paula Aguiar, que acompanha os focos de calor do Programa Queimadas e os alertas de degradação do TerraBrasilis, anos de seca extrema podem ampliar significativamente a área degradada na Amazônia e levar o problema para regiões mais remotas.

Fonte: Folha bv e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 29/09/2026/07:10:45

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