Carregada por milhares de mãos, a corda anuncia a aproximação da Berlinda com a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré. Antes de se tornar uma das principais expressões de fé do Círio, porém, ela surgiu como uma solução prática para retirar do atoleiro o carro que transportava a imagem, em 1855.
O episódio ocorreu após uma cheia no antigo Igarapé do Piri. Na época, cavalos puxavam o carro da Berlinda e não conseguiram fazê-lo avançar. Uma corda emprestada permitiu que os fiéis ajudassem a liberar o veículo. Somente 30 anos depois, em 1885, o elemento passou a integrar oficialmente a procissão.
Uma saída para o atoleiro
A escritora Mízar Klautau Bonna reconstitui o episódio no livro Meus 80 Círios.
“Um homem, pescador ou comerciante do local, trouxe uma corda para resolver o problema. Ela foi amarrada no meio da parelha de cavalos, naquela peça em madeira, onde os cavalos são atados para controlar seus galopes, puxaram a corda e os animais e a Berlinda saíram do atoleiro”, registra a publicação.
O incidente também determinou uma mudança no horário do Círio. A procissão, antes realizada à tarde, período em que se concentra a ocorrência de chuvas na região, passou para a manhã. O horário permanece desde então.
Quando o Círio incorporou oficialmente a corda, os fiéis já não precisavam usá-la para desatolar a Berlinda. O recurso usado diante de uma dificuldade no percurso ganhou outra função e se consolidou como uma manifestação da fé dos devotos de Nossa Senhora de Nazaré.
No livro Dois séculos de fé, Mízar Bonna – que faleceu em abril de 2026 – descreve o significado simbólico dessa participação.
“No momento da corda do Círio realiza-se o sonho de Jesus꞉ que todos sejamos um em comum unidade com ele. A corda tem o aspecto simbólico de sacrifício, pois os romeiros se aglomeram segurando a corda no decorrer da procissão até chegar ao seu destino final”.
Madrugada e a Corda
E quem toma para si a missão de puxar a corda que movimenta a Berlinda de Nossa Senhora de Nazaré precisa iniciar a jornada ainda durante a madrugada. Para garantir um pequeno espaço que permita fechar a mão em torno da corda, centenas de promesseiros passam a noite na Avenida Boulevard Castilhos França. É na avenida que o símbolo de devoção é esticado no chão para aguardar o momento do atrelamento à Berlinda.
Diante do céu ainda pouco iluminado da madrugada de domingo, os romeiros vivenciam de diferentes maneiras o reencontro com a corda de Nossa Senhora de Nazaré. Durante a espera pelo momento de levantar e puxar a corda que conduz a Berlinda até a Basílica, muitos aproveitavam o clima ainda tranquilo para descansar, com o corpo repousado sobre a corda; outros se distraem conversando e ainda tem quem encontre uma maneira de incentivar os outros promesseiros que passam de joelhos, aplaudindo o esforço e a fé alheia.
Mudanças na corda do Círio
Utilizada pela primeira vez em 1855 e incorporada oficialmente ao Círio em 1885, a corda passou por alterações e enfrentou polêmicas ao longo de sua história.
Fonte: Diário do Pará e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 21/09/2026/07:10:45
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