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Engolida pelas águas de Furnas, cidade mineira se reconstrói e busca futuro além da hidrelétrica no turismo

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Até o dia 10 de abril, percorreram o Lago de Furnas na expedição especial “Travessia das Águas”, que mostra a dimensão, a importância econômica e as histórias de quem vive da água em torno do maior reservatório de água doce do Sudeste e um dos maiores do Brasil. Além das reportagens especiais no portal e de conteúdos exibidos nos telejornais da EPTV, é possível acompanhar os bastidores da expedição em um diário de bordo em tempo real.

A antiga Barra Velha, localizada na confluência dos rios Grande e Sapucaí, desapareceu completamente com a formação do reservatório da Usina Hidrelétrica de Furnas. Diferente de outros municípios atingidos pela obra, toda a área urbana foi submersa. Cerca de 3 mil moradores foram obrigados a deixar suas casas em um processo marcado por resistência, dor e lembranças traumáticas.

  • 🌊 Cidade submersa: A antiga Barra Velha foi totalmente inundada com a formação do Lago de Furnas, no início da década de 1960, para a construção da usina hidrelétrica.
  • 🏘️ Remoção forçada: Cerca de 3 mil moradores tiveram que deixar suas casas em um processo marcado por dor, resistência e memória traumática.
  • ⏳ Passado que reaparece: Durante períodos de estiagem, túmulos, ruas e estruturas do antigo cemitério voltam a emergir, revelando vestígios da cidade submersa.

“Aqueles povos que moravam lá todos chorando, não queriam sair. A aeronáutica atirando gente de helicóptero, que não queria sair da casa. Era um negócio… não era coisa de ser vista”, relatou Osório André Faria Vieira, ex-prefeito de Areado, durante a 1ª temporada da “Travessia das Águas”, exibida pela EPTV em 2007.

Para abrigar a população removida, Furnas construiu praticamente uma nova cidade em outra área, inicialmente conhecida como Água Limpa e que passou a ser chamada de Nova Barra, nome que ainda hoje é usado pelos moradores. São José da Barra não cresceu de forma orgânica. Ela nasce diretamente de um projeto estatal de infraestrutura.

“São José da Barra, a sua história é vinculada à existência da hidrelétrica, da barragem, da represa, a gente não dissocia essas duas coisas, uma coisa faz parte da outra”, explica o economista Marcelo Castro Ávila, professor do Instituto Federal do Sul de Minas.

  • ⚡ Cidade criada pelo Estado: São José da Barra foi reconstruída em outra área, não cresceu de forma orgânica e tem sua história totalmente ligada à hidrelétrica de Furnas.
  • 📊 PIB per capita elevado: Com R$ 116,9 mil, o município tem o 19º maior PIB per capita de Minas Gerais e figura entre os destaques nacionais.
  • 💰 Economia concentrada: Cerca de 70% do PIB vem da geração de energia elétrica e dos royalties pagos por Furnas.

Reconstrução, emancipação e novos indicadores

Apesar das dificuldades iniciais, ruas sem asfalto, ausência de saneamento básico e estrutura precária, São José da Barra se reorganizou. O município foi oficialmente emancipado em 1995 e hoje conta com população estimada entre 7 mil e 8 mil habitantes, segundo dados do IBGE.

Mesmo com pequeno porte, os indicadores econômicos chamam atenção. O PIB per capita é de R$ 116.931,19, o 19º maior de Minas Gerais e o 182º do Brasil. A renda média dos trabalhadores formais é de 3,9 salários mínimos, colocando o município entre os melhores desempenhos do estado.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,739, considerado alto. Na educação, São José da Barra registra 100% de escolarização entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos.

  • ⚠️ Alerta dos especialistas: PIB alto não significa renda bem distribuída; há risco de dependência econômica se os recursos não forem bem planejados.
  • 📈 Indicadores sociais positivos: IDH considerado alto (0,739) e 100% de escolarização entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos.

Segundo especialistas, esses números são fortemente influenciados pela presença da hidrelétrica.

“Cerca de 70% do PIB municipal está concentrado no setor industrial, impulsionado principalmente pela geração de energia elétrica e pelos royalties pagos por Furnas. É uma atividade de alto valor agregado e pouca geração de empregos diretos, o que acaba inflando os indicadores em cidades pequenas”, explica Ávila.

Royalties e aposta no turismo

A cidade recebe recursos da Compensação Financeira pela Utilização de Recursos Hídricos (CFURH), além de tributos associados à geração de energia. Esses valores ampliam a capacidade de investimento do município, mas também trazem alertas.

“O PIB per capita elevado mostra força econômica do território, mas não significa automaticamente renda bem distribuída. PIB é produção, não qualidade de vida. Existe o risco de dependência fiscal se esse recurso não virar desenvolvimento mais sustentável”, disse o economista.

É justamente para reduzir essa dependência que São José da Barra aposta no turismo ligado ao Lago de Furnas, conhecido como o Mar de Minas. Praias de água doce, esportes náuticos, passeios de lancha, gastronomia típica e o pôr do sol às margens do lago fazem parte da estratégia.

  • 🏖️ Aposta no turismo: Praias de água doce, esportes náuticos, passeios de lancha e gastronomia fazem parte da estratégia de desenvolvimento no Mar de Minas.
  • 🧭 Futuro em construção: Município busca diversificar a economia, reduzir a dependência da usina e transformar memória e água em oportunidade.

“O turismo ligado ao Lago de Furnas é hoje um dos principais vetores de dinamização econômica de São José da Barra, especialmente no que diz respeito à circulação de renda, geração de empregos e diversificação da economia”, afirma o prefeito Marcelinho Silva (Republicanos).

Segundo a prefeitura, o setor movimenta pousadas, bares, restaurantes, comércio, serviços e também impulsiona a construção civil, com casas de veraneio e condomínios à beira do lago. Para Ávila, a aposta faz sentido.

“O turismo é intensivo em mão de obra e distribui renda de forma muito mais ampla do que a usina. Ele gera empregos diretos, fortalece pequenos negócios e cria resiliência econômica”, explica.

O desafio, segundo ele, é combater a sazonalidade e planejar o crescimento de médio e longo prazo.

Mais de meio século depois da inundação, São José da Barra segue marcada pela água, como memória, trauma e oportunidade. Entre ruínas que reaparecem na estiagem e investimentos que surgem nas margens do lago, a cidade tenta equilibrar passado e futuro.

“O maior ensinamento de São José da Barra é que grandes obras não garantem desenvolvimento por si só. O que faz a diferença é a capacidade de gestão e a forma como a riqueza é transformada em qualidade de vida”, resume Marcelo Castro Ávila.

Fonte: g1 e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 09/04/2026/07:59:55

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