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Paraguai era a nova Suíça dos brasileiros, mas sonho virou pesadelo

A reeleição de Lula motivou brasileiros a buscar o Paraguai, mas a mudança envolve abrir mão de serviços públicos e enfrentar uma crise política e bancária no país vizinho.

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro, foi recebida por parte de seus opositores como motivo para deixar o Brasil. Reportagens registram brasileiros que associam a decisão à insatisfação política, ao temor de aumento de impostos e à expectativa de que o país piore sob um novo governo Lula. No Paraguai, buscam um modelo que descrevem como “mais alinhado à direita, com impostos menores e menos presença do Estado”.

Esse perfil político já aparecia antes da eleição. Em abril, a BBC News Brasil acompanhou brasileiros em um mutirão migratório em Ciudad del Este. A reportagem ouviu pessoas que relacionavam a mudança às próprias posições políticas e a vídeos vistos nas redes sociais. Em novembro, o jornal paraguaio ABC Color ouviu brasileiros que disseram temer uma piora da situação após a reeleição de Lula. A Tribuna do Paraná relatou que a reeleição de Lula “funcionou como gatilho para interessados que já cogitavam a mudança”.

A procura também ganhou força na internet: as buscas por “como morar no Paraguai” cresceram 1.700% nas primeiras 48 horas após a votação, segundo dados do Google Trends. Consultores de imigração ouvidos pela imprensa disseram ter recebido mais contatos depois do resultado. O pico revela uma reação política e um aumento de interesse — não permite contar quantos brasileiros efetivamente emigraram.
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O discurso de influenciadores que apresentam o Paraguai como alternativa de “liberdade econômica” ajuda a alimentar a decisão. Mas as reportagens também mostram que a mudança não tem uma causa única: há estudantes, empresários, empreendedores e pessoas atraídas pela proximidade da fronteira. E, embora veículos tenham descrito o movimento como procurado por bolsonaristas, os registros migratórios não identificam a preferência política de cada solicitante. O que se pode afirmar é que entre os entrevistados e nas redes que promoveram a mudança, a motivação política e o alinhamento à direita aparecem com destaque.

Da rede pública brasileira a um sistema que pode exigir gastos privados

Custos e serviços públicos no Paraguai

A decisão envolve abrir mão da rotina de acesso a serviços públicos brasileiros e planejar como obter atendimento no novo país. O SUS oferece atendimento universal e gratuito no Brasil, da atenção básica a procedimentos de alta complexidade. O programa Farmácia Popular fornece gratuitamente 41 itens, incluindo medicamentos e outros produtos; segundo o Ministério da Saúde, uma família de quatro pessoas que utiliza os itens disponíveis pode economizar até R$ 8,8 mil por ano.

Mudar para o Paraguai não significa simplesmente perder, de forma automática, o direito legal de ser atendido pelo SUS: o sistema é universal. Mas morar fora muda a vida prática — a distância dificulta a continuidade do cuidado e do tratamento, e consultas, remédios ou planos privados podem entrar no orçamento familiar.

O ensino público superior no Paraguai não é totalmente gratuito de forma automática. Quem não se enquadra nos critérios de isenção (ou estudantes estrangeiros que não possuem os mesmos benefícios automáticos) paga taxas de matrícula, exames de admissão e serviços acadêmicos semestrais. Por exemplo, o exame de ingresso na UNA cobra taxas específicas (como 750 mil guaranis em ciclos recentes, que podem chegar a R$ 700,00).

Pelo Convênio Cultural Brasil-Paraguai, os estudantes brasileiros selecionados por meio de convênios culturais oficiais podem ingressar em universidades nacionais públicas sem vestibular e com isenção da taxa de matrícula, mas ainda precisam arcar com outros custos de manutenção e documentação. A grande maioria das instituições de ensino superior no Paraguai (muito procuradas por brasileiros para o curso de Medicina) é privada e cobra mensalidades pagas por semestre ou mensal.

A comparação de preços tampouco confirma que tudo seja mais barato no país vizinho. Estimativas de 2026 indicam aluguel de apartamento de um quarto fora do centro por cerca de R$ 1.244 na média brasileira e R$ 1.722 em Assunção. A pré-escola particular aparece mais barata na capital paraguaia, enquanto a estimativa mensal de compras de supermercado por pessoa é semelhante nos dois locais. Os números são
referências de mercado, não uma pesquisa oficial pareada entre cidades.O Paraguai atravessa uma crise política e bancária.

Crise política e bancária no Paraguai

A procura pelo país vizinho coincidiu com uma crise que expôs os riscos de vender o Paraguai nas redes como solução simples para os problemas brasileiros. O Banco Central paraguaio iniciou o processo de resolução do Ueno Bank, instituição privada cuja solvência caiu abaixo do mínimo regulatório. O banco atendia cerca de três milhões de clientes e mantinha centenas de milhões de dólares em depósitos públicos. A intervenção deixou clientes sem acesso imediato às contas e provocou protestos.

Na quinta, 5, o presidente Santiago Peña renunciou sob pressão após o escândalo. A Câmara aprovou a abertura de um processo de impeachment, e a sucessão ainda depende dos trâmites no Congresso. A crise não tornou todo o sistema financeiro paraguaio insolvente, mas deixou o governo em turbulência e atingiu milhões de correntistas.País “de direita”

A alta das buscas, as filas e os depoimentos de brasileiros mostram que a reeleição de Lula serviu de impulso político para parte dos interessados — especialmente os que já compartilhavam nas redes a defesa de um país de direita e de menor intervenção estatal. A conta da mudança, porém, precisa incluir o que esses vídeos costumam deixar de fora: acesso cotidiano à saúde, escola, renda, adaptação e estabilidade. O Paraguai atrai quem procura menos impostos, mas hoje também enfrenta uma crise política e bancária de grandes proporções.

Crise no Paraguai expõe os riscos da mudança. O país, que aparece nas redes sociais como refúgio de estabilidade e impostos baixos, atravessa uma grave crise política e financeira. O Banco Central iniciou o processo de resolução do Ueno Bank, instituição privada que atendia cerca de 3 milhões de clientes. A intervenção restringiu o acesso às contas e atingiu recursos públicos mantidos no banco, estimados em cerca de US$ 850 milhões. O episódio provocou protestos, abalou a confiança de investidores e levou à renúncia do presidente Santiago Peña, que tinha sido acionista do grupo controlador da instituição.

A Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment do presidente paraguaio, mas, até quinta, 5, a renúncia ainda aguardava os trâmites formais no Congresso. O vice-presidente Pedro Alliana deve assumir e concluir o mandato até 2028 caso a saída de Peña seja formalizada. O poder, portanto, deve permanecer com o Partido Colorado, de direita; a crise imediata é marcada pela disputa dentro do próprio grupo governista e pela pressão por respostas sobre o banco.

Para brasileiros que migraram ou planejam migrar, o caso é um alerta contra a imagem de estabilidade absoluta difundida por parte dos influenciadores. A garantia de depósitos no Paraguai tem limite legal de 75 salários mínimos, atualmente ₲ 228,3 milhões (em Guaranis, moeda local) por pessoa e por instituição — ou cerca de R$ 195 mil pela cotação referencial do Banco Central paraguaio em 5 de novembro. A cobertura e o pagamento dependem das regras do processo; não se deve presumir que qualquer saldo será liberado imediatamente.Sem SUS e sem Farmácia Popular.

Serviços e mercado de trabalho

A conta da mudança também inclui os serviços que a família precisará contratar. No Brasil, o SUS oferece atendimento universal e gratuito, e o Farmácia Popular fornece gratuitamente 41 itens. No Paraguai, a rede pública existe, mas famílias podem recorrer a planos, clínicas e escolas privadas para obter a cobertura ou a estrutura que procuram. Estimativas da Wise apontam gasto mensal médio de R$ 4.610 por pessoa no país e de R$ 5.672 em Assunção; são referências de custo de vida, não uma cesta oficial nem garantia de padrão confortável.

O salário mínimo paraguaio também precisa ser atualizado na comparação: desde julho de 2026, é de ₲ 3.044.000, equivalente a aproximadamente R$ 2.606 pela cotação do Banco Central de 5 de novembro. O valor anterior, ₲ 2.899.048, ficou desatualizado após o reajuste de 5%.

A migração motivada por insatisfação política é relatada por brasileiros entrevistados e aparece em conteúdos de redes sociais que apresentam o Paraguai como alternativa de direita ao Brasil. Mas mudar de país significa trocar também as condições de acesso à saúde, educação, renda e proteção social — e assumir riscos locais que esse discurso costuma deixar em segundo plano.Ilusão desfeita

Por outro lado, uma onda recente de imigrantes — impulsionada pelo forte apelo de redes sociais — começou a esbarrar em dificuldades estruturais que muitos consideram uma ilusão desfeita; no país vizinho, os direitos trabalhistas são rígidos, com jornada laboral padrão no Paraguai é de 48 horas semanais. O Brasil acaba de reduzir a jornada máxima de trabalho semanal de 44 para 40 horas, estabelecendo também o direito a dois dias de descanso remunerado (fim da escala 6×1).

No Paraguai, os benefícios comuns no Brasil, como vale-transporte e vale-alimentação, não são obrigatórios e a informalidade é alta: o mercado de trabalho local registra mais de 62% de informalidade, o que dificulta a estabilidade de quem migra sem capital para investir.

A crise bancária e política de 2026 que provocou um colapso e a liquidação do Ueno Bank gerou o congelamento de contas de cerca de 3 milhões de clientes e culminou na renúncia do presidente Santiago Peña.

Muitos brasileiros que se mudaram recentemente em busca de estabilidade financeira viram suas economias subitamente retidas no banco digital, enfrentando agora uma forte incerteza institucional e econômica no país vizinho.

Portanto, a mudança funciona bem para quem migra com planejamento de negócios e capital próprio estruturado, mas pode se aproximar da metáfora de “gato por lebre” para aqueles que buscam o país de forma imediatista, esperando encontrar um cenário sem falhas ou riscos econômicos.

Despesa estimada em 2026: Brasil X Assunção

Os custos na moeda guarani foram convertidos em reais
Despesa Brasil Assunção
Aluguel de apartamento de 1 quarto fora do centro R$ 1.244 R$ 1.722
Pré-escola particular por mês R$ 1.679 R$ 996
Supermercado por pessoa, estimativa mensal R$ 919 R$ 968
Gasolina por litro R$ 6,48 R$ 5,77

4 linhas

* A ANP registrou média nacional de cerca de R$ 6,48 na semana de 25 a 31 de outubro. A tabela usa estimativas da Wise, que podem diferir de levantamentos oficiais e variam conforme localidade e método de coleta. Não há uma série oficial comparável entre os países para cesta básica completa, medicamentos básicos e consulta médica particular.

Fonte: Diário do Pará e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 06/11/2026/15:09:53

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