O esgotamento da cota de exportação de carne bovina para a China e as barreiras sanitárias impostas pela União Europeia geraram um efeito reverso no prato dos paraenses. Ao contrário da expectativa inicial de que a retenção do produto baratearia as vendas locais, os frigoríficos diminuíram o ritmo de produção para evitar prejuízos estruturais. A queda brusca na oferta fez o quilo da carne de primeira atingir R$ 46,44 na capital em agosto de 2026, acumulando uma alta de 17,30% nos últimos 12 meses. O encarecimento é muito superior ao aumento de 3,17% registrado no conjunto da cesta básica no mesmo período.
Os dados são do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos no Pará (Dieese-PA). O levantamento aponta que o estado possui o segundo maior rebanho do Brasil, com 25,6 milhões de bovinos em 2024, o equivalente a 10,7% do total nacional. O tamanho do plantel, no entanto, não garante preços baixos nos açougues locais. A tarifa extra de 55% cobrada sobre o excedente da cota chinesa de 1,1 milhão de toneladas fez a indústria pisar no freio de forma imediata. Apenas na comparação entre um mês padrão de 2025 e julho de 2026, o abate despencou em 90 mil cabeças no estado.
O setor produtivo argumenta que a inviabilidade de exportar cortes específicos afeta toda a viabilidade da cadeia. Como o mercado interno não absorve grandes volumes de dianteiro, músculo e lagarto, o animal inteiro deixa de ser processado. “Como a carne é um produto perecível, se não há colocação para os 300 quilos que um boi gera, você deixa de abater. Com isso, faltam cortes que o mercado interno consome. Inclusive, houve um aumento de preços de alguns cortes no mercado nacional”, explica Daniel Freire, presidente do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados no Estado do Pará (Sindicarne).
A saída provisória do mercado asiático provocou uma ociosidade de 40% na indústria paraense, reduzindo drasticamente a disponibilidade de filé mignon, picanha, contrafilé e alcatra. Sem acesso habilitado a países como Estados Unidos e Chile, os frigoríficos esbarram em obstáculos que vão muito além do mero controle sanitário. “O Pará tem o mesmo status sanitário do resto do Brasil. Temos rastreabilidade plena do rebanho. Não é por isso que não acessamos alguns marcados; o tema é diplomático e político, o resto do Brasil nos enxerga como concorrentes”, ressalta Daniel Freire.
Demanda e oferta
O reflexo da retração industrial chega de forma imediata aos balcões de venda direta ao consumidor. Com os preços no atacado mais altos e o poder de compra da população espremido, os estabelecimentos comerciais precisaram mudar a estratégia de abastecimento diário para não acumular prejuízos. O açougueiro Ademir Oliveira, permissionário no Mercado da Bandeira Branca, no bairro do Marco, relata: “Foi uma mudança brutal o aumento da carne aqui na nossa cidade. A demanda caiu e o preço aumentou”.
Para evitar que o produto estrague nas vitrines, os comerciantes diminuíram o volume de pedidos aos frigoríficos, o que gera uma falsa percepção de desabastecimento de peças específicas. “Conforme a gente diminuiu a compra de peças, diminuiu a quantidade que a gente disponibiliza. Filé, principalmente em datas comemorativas, é muito difícil [de se encontrar], seguido pela picanha e alcatra”, acrescenta Ademir Oliveira.
Orçamento
A escassez nas gôndolas e açougues pressiona diretamente os pequenos empreendedores e chefes de família. A profissional de alimentação Lucilene Nepomuceno, 47, sentiu a disparada nos insumos básicos e precisou reduzir sua produção de 300 para 250 marmitas diárias. Para tentar economizar cerca de 20%, ela atravessa a cidade, do Curió-Utinga, para comprar ingredientes no bairro da Pedreira, mas relata que até produtos secundários como o rabo de boi, antes adquiridos a R$ 12, hoje chegam a custar até R$ 36.
“Nós comprávamos o quilo da agulha sem osso por R$ 25, hoje tá saindo quase a R$ 39. Nós comprávamos a costelinha a R$ 22 ou R$ 23, hoje tá chegando a R$ 33,90”, detalha Lucilene.
A empresária Alessandra Canto, 45, que também atua no ramo de refeições, enfrentou quatro reajustes de fornecedores apenas em 2026. Cortes como o paulista saltaram de R$ 36 em janeiro para R$ 42, enquanto a língua bovina subiu de R$ 8 para quase R$ 30. O cenário a forçou a aplicar um acréscimo de R$ 1 na sua marmita, hoje vendida a R$ 19, e a realizar um enxugamento proporcional nas porções servidas aos clientes.
“Segurei enquanto eu pude. Primeiro aumentei só o preço das refeições com carnes. Só que depois, como tudo aumentou, tive que colocar tudo num valor só, R$ 19, e reduzi um pouco a quantidade na marmita do cliente”, afirma Alessandra.
Para garantir a refeição básica, o trabalhador compromete uma fatia cada vez mais amarga da própria renda. Segundo o Dieese-PA, a compra dos 4,5 kg de carne estipulados na cesta básica exige o desembolso médio de R$ 208,98. O montante representa 12,89% do salário mínimo em vigor, exigindo do cidadão aproximadamente 28 horas e 22 minutos de trabalho no mês apenas para garantir a mistura na mesa.
“Para a carne realmente ficar mais barata ao consumidor, será necessário que o produto permaneça no mercado brasileiro, que os abates não sejam reduzidos e que uma eventual queda no atacado seja repassada pelo varejo”, avalia Everson Costa, supervisor técnico do Dieese-PA.
Fonte: oliberal e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 22/09/2026/07:10:45
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