AMAZÔNIAGERAL

A pepita de 60 kg encontrada na lama de Serra Pelada que atravessou gerações

Conheça a história da Pepita Canaã, encontrada em Serra Pelada, no Pará, e considerada a maior pepita de ouro preservada em exposição no mundo.

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No fundo de uma imensa cratera, milhares de homens cobertos de lama subiam e desciam encostas quase verticais, equilibrando sacos de terra sobre os ombros. Cada passo carregava a esperança de encontrar o ouro capaz de mudar uma vida. Foi nesse cenário extremo que, em 13 de setembro de 1983, o garimpeiro Júlio de Deus Filho fez uma descoberta destinada a atravessar gerações.

No chamado Garimpo da Malvina, um dos setores de Serra Pelada, Júlio encontrou uma formação aurífera de proporções extraordinárias. Relatos sobre a descoberta indicam que a rocha original teria aproximadamente 150 quilos. Durante o difícil trabalho de retirada, no entanto, a formação se partiu. O maior fragmento recuperado, com 60,82 quilos de peso bruto, recebeu o nome de Pepita Canaã.

Quarenta e três anos depois, a peça continua sendo considerada pelo Banco Central a maior pepita de ouro do mundo preservada em exposição. Mais que uma raridade geológica, tornou-se um documento natural de uma época em que Serra Pelada, no atual município de Curionópolis, transformou-se no centro de uma das maiores corridas do ouro já registradas no Brasil.

O roteiro oficial do Museu de Valores informa que a Canaã possui 90,01% de ouro, 8,65% de paládio e 1,34% de outros elementos. Essa composição representa aproximadamente 54,7 quilos de ouro. A informação corrige versões divulgadas na internet que atribuem à peça 56,61 quilos de ouro puro ou pureza próxima de 93%.

O achado no auge da corrida do ouro

A Pepita Canaã surgiu no período de maior movimento de Serra Pelada. Entre 1982 e 1983, cerca de 80 mil homens trabalhavam na área, praticamente sem equipamentos mecanizados. Na fase de apogeu, a produção alcançou aproximadamente 14 toneladas de ouro. O trabalho era feito com pás, picaretas, cordas, escadas improvisadas e muita força física.

A paisagem, eternizada em fotografias que percorreram o mundo, lembrava um gigantesco formigueiro humano. Os garimpeiros retiravam a terra dos barrancos, enchiam sacos e enfrentavam longas subidas por caminhos estreitos e escorregadios. Quedas, deslizamentos e soterramentos faziam parte de uma rotina conduzida pela promessa do “bamburro”, como era chamada a descoberta de uma grande quantidade de ouro.

A corrida havia começado no fim da década de 1970 e se intensificou em 1980, quando milhares de trabalhadores chegaram à região. Diante do crescimento desordenado, o governo federal interveio no garimpo e colocou o local sob o comando do major Sebastião Rodrigues de Moura, o Major Curió. As áreas de lavra e os trabalhadores foram cadastrados, enquanto o ouro e o paládio extraídos passaram a ser comercializados por meio da Caixa Econômica Federal.

Serra Pelada viveu o auge em 1983, justamente no ano em que a Canaã foi encontrada. Ao longo do período de exploração, encerrado oficialmente em 1992, estima-se que cerca de 42 toneladas de ouro tenham sido retiradas da área. A enorme cava aberta pelo trabalho manual acabou preenchida pela água, formando o lago que hoje domina a paisagem.

Um pedaço do Pará preservado em Brasília

Depois de ser vendida por Júlio de Deus Filho, a pepita foi adquirida pelo Banco Central em 1984 e incorporada ao acervo da União. A decisão garantiu que a peça não tivesse o mesmo destino de muitos dos maiores achados da história: a fundição para transformação em barras, moedas ou joias.

O caso mais conhecido é o da Welcome Stranger, encontrada em 1869, no estado de Victoria, na Austrália. Com cerca de 70 quilos, ela é apontada como a maior pepita já descoberta. Por ser grande demais para as balanças disponíveis, precisou ser quebrada e acabou fundida. Restaram registros históricos e réplicas.

A Canaã sobreviveu. Essa preservação explica por que a peça paraense ocupa uma posição única: pode não ter sido a maior formação aurífera localizada na história, mas é reconhecida pelo Banco Central como a maior pepita de ouro preservada em exposição no mundo.

Durante décadas, ela foi uma das principais atrações da Sala Ouro do Museu de Valores, no edifício-sede do Banco Central, em Brasília. O espaço reúne ainda equipamentos utilizados em garimpos, barras, outras pepitas e grandes painéis que registram o cotidiano de Serra Pelada.

Atualmente, o Museu de Valores está fechado para reforma. O projeto prevê a transformação do espaço no primeiro museu de economia da América do Sul. Enquanto a visitação presencial permanece suspensa, parte do acervo, incluindo informações sobre a Canaã, pode ser conhecida por meio do passeio virtual mantido pelo Banco Central.

O homem por trás do tesouro

Se a trajetória da pepita está documentada, a vida de Júlio de Deus Filho depois da descoberta permanece cercada de lacunas. Reportagens registram que ele vendeu a peça antes de ela ser adquirida pelo Banco Central, mas as fontes oficiais consultadas não informam quanto o garimpeiro recebeu nem oferecem detalhes seguros sobre seu destino.

Ao longo dos anos, espalhou-se a versão de que Júlio teria perdido todo o dinheiro e voltado à pobreza. A narrativa combina com tantas histórias de Serra Pelada — lugar onde fortunas apareciam e desapareciam com a mesma velocidade —, mas não há documentação confiável suficiente para apresentá-la como fato.

Essa ausência também é parte da história. O nome do homem que encontrou um dos maiores tesouros naturais do planeta sobrevive principalmente associado à peça, enquanto sua trajetória pessoal se mistura às memórias, aos relatos orais e às lendas do garimpo.

Serra Pelada silenciou. Onde milhares de homens disputavam cada palmo de terra, hoje há uma cratera tomada pela água. Permanecem, porém, as marcas sociais, econômicas e ambientais de uma corrida que atraiu trabalhadores de todas as regiões do país.

A Pepita Canaã é a lembrança mais concreta daquele tempo. Retirada da lama do Pará pelas mãos de um garimpeiro, atravessou mais de quatro décadas sem ser fundida ou fragmentada novamente. Seu brilho preserva não apenas uma excepcional formação geológica, mas também os sonhos, os riscos e as contradições de uma multidão que acreditou encontrar, no fundo da terra, o caminho para uma vida melhor.

CANAÃ EM NÚMEROS

  • Data da descoberta: 13 de setembro de 1983
  • Local: Garimpo da Malvina, em Serra Pelada
  • Descobridor: Júlio de Deus Filho
  • Peso bruto: 60,82 quilos
  • Composição: 90,01% de ouro, 8,65% de paládio e 1,34% de outros elementos
  • Ouro estimado: aproximadamente 54,7 quilos
  • Formação original: teria cerca de 150 quilos antes de se partir
  • Aquisição pelo Banco Central: 1984
  • Situação atual: integrante do acervo do Museu de Valores, em Brasília
  • Importância: maior pepita de ouro preservada em exposição no mundo

Salgado chegou três anos depois e eternizou Serra Pelada

Impedido durante anos de entrar no garimpo, fotógrafo passou mais de um mês no local em 1986 e produziu imagens que se tornaram documentos universais sobre trabalho, ambição e resistência humana

Sebastião Salgado não testemunhou o momento em que Júlio de Deus Filho encontrou a Pepita Canaã, em 13 de setembro de 1983. O fotógrafo mineiro chegou a Serra Pelada somente três anos depois, em setembro de 1986. Não registrou, portanto, a retirada da maior pepita de ouro preservada no mundo, mas eternizou o ambiente humano que tornou possível aquele achado.

Segundo o relato publicado pela editora Taschen, responsável pelo livro Gold, Salgado tentou visitar Serra Pelada desde o início da corrida do ouro, mas foi impedido durante seis anos pelas autoridades militares que controlavam o acesso ao garimpo. A autorização somente foi concedida quando a exploração manual já havia ultrapassado o período de maior produção, embora dezenas de milhares de homens ainda ocupassem a imensa cava aberta no sudeste do Pará.

Ao chegar, Salgado encontrou uma cratera com cerca de 200 metros de largura e profundidade, tomada por trabalhadores que carregavam sacos de terra de até 40 quilos. Parte dos homens subia por escadas de madeira; outra parte descia pelas encostas cobertas de lama. Os corpos, as roupas e os rostos adquiriam a tonalidade avermelhada do minério de ferro presente no solo.

O fotógrafo permaneceu por mais de um mês no garimpo. Com sua câmera e o uso marcante do preto e branco, registrou a repetição dos gestos, o esforço físico, os acidentes, as disputas e a expectativa permanente de enriquecimento. Em vez de concentrar as lentes no ouro, voltou o olhar para os homens que o procuravam.

“Só se ouvia o murmúrio de 50 mil pessoas dentro de um imenso buraco”, recordaria Salgado ao descrever a experiência. O restante era o som das ferramentas, dos sacos arrastados, dos passos na lama e das vozes de uma multidão movida pela esperança de “bamburrar”.

Imagens que correram o mundo

A série de Serra Pelada reuniu 56 fotografias em preto e branco e se tornou uma das obras mais conhecidas de Sebastião Salgado. Nove imagens foram publicadas pelo The New York Times Magazine em 7 de junho de 1987, na reportagem intitulada An Epic Struggle for Gold — “Uma luta épica pelo ouro”, em tradução livre.

Peter Howe, então editor de fotografia da revista, contou que nunca havia presenciado reação semelhante à provocada pelo ensaio. Quando as imagens chegaram à redação, os editores ficaram em silêncio diante da dimensão humana e visual daquele cenário.

As fotografias também passaram a integrar Trabalhadores — Uma Arqueologia da Era Industrial, projeto no qual Salgado documentou formas de trabalho manual em diferentes países. Décadas depois, em 2019, a série completa ganhou o livro Gold, dedicado exclusivamente a Serra Pelada.

A força das imagens está no contraste entre a multidão e cada trabalhador. Vistos de longe, os garimpeiros parecem pequenos pontos em movimento dentro de uma paisagem monumental. Quando observados de perto, revelam cansaço, medo, tensão, solidariedade e uma obstinação quase inexplicável.

Uma das fotografias da série foi incluída, em 2024, pelo The New York Times em uma seleção de 25 imagens que ajudaram a definir a era moderna. Para os especialistas responsáveis pela escolha, a dimensão da cratera e a aparente fragilidade dos corpos curvados sintetizam a escala do empreendimento e o preço humano cobrado pela corrida do ouro.

Sebastião Salgado, que morreu em maio de 2025, aos 81 anos, construiu uma carreira dedicada a documentar trabalhadores, populações deslocadas, conflitos sociais e a relação entre o homem e a natureza. Em Serra Pelada, produziu aquele que se tornaria um de seus registros mais universais.

Ele não fotografou o instante em que a Pepita Canaã saiu da terra. Fotografou algo maior: o universo de homens, sonhos e sacrifícios do qual ela nasceu. Se a pepita preserva o ouro de Serra Pelada, as imagens de Salgado preservam sua memória humana.

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