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Lagostim-vermelho invasor é registrado pela primeira vez na Amazônia em praia de Belém

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Duas fêmeas de uma espécie de lagostim invasor foram encontradas na praia do Cruzeiro, em Icoaraci, distrito de Belém, e acabaram estabelecendo um marco para a ciência brasileira: o registro é considerado o primeiro de Procambarus clarkii, conhecido como lagostim-vermelho ou lagostim-vermelho-da-Louisiana, dentro dos limites do bioma Amazônia.

O achado ocorreu em agosto de 2018, em uma área com vegetação às margens do rio Maguari. Os animais tinham 12,6 e 13,4 centímetros de comprimento. Depois de coletados, foram levados para análise e preservados em álcool. Os exemplares foram posteriormente depositados na Coleção Carcinológica do Laboratório de Crustáceos da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), sob o número de registro 36.1.1 A.

O caso foi detalhado em artigo publicado em 2026 na revista científica Nauplius, disponível pela SciELO, com pesquisadores ligados à Universidade Federal do Pará (UFPA) e à UFRA. O estudo afirma que o episódio representa a primeira documentação de P. clarkii no bioma Amazônia e alerta para a necessidade de novas pesquisas e monitoramento.

Um animal que veio de fora da América do Norte

O Procambarus clarkii é originário da América do Norte, com distribuição natural no sul dos Estados Unidos e no nordeste do México. Ao longo das últimas décadas, porém, a espécie foi introduzida em diferentes partes do mundo, principalmente para aquicultura, alimentação e aquariofilia.

Atualmente, é considerada uma das espécies de lagostim invasoras mais disseminadas no planeta. Estudos científicos apontam sua presença como espécie não nativa em regiões da América Central e do Sul, Europa, África e Ásia.

No Brasil, a presença da espécie já havia sido registrada principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Um estudo publicado em 2020 apontava populações estabelecidas em estados do Sudeste e relatava a expansão da espécie para o Paraná. Na época, pesquisadores destacaram o comércio de aquários como uma possível rota de introdução.

O novo registro em Belém amplia significativamente a área conhecida de ocorrência da espécie no país.

Como o lagostim chegou a Belém?

Os pesquisadores não afirmam ter identificado exatamente como os dois animais chegaram à praia do Cruzeiro. No entanto, o comércio de aquários aparece como uma das hipóteses mais plausíveis.

O próprio estudo científico aponta que a principal rota provável de invasão do P. clarkii no Brasil está relacionada ao descarte de animais mantidos em aquários. Mesmo após a proibição do comércio da espécie, pesquisadores já encontraram evidências de manutenção e venda ilegal em estabelecimentos especializados.

Uma investigação publicada pela Oecologia Australis analisou 221 estabelecimentos comerciais da Região Sul e encontrou 40 que declararam comercializar o lagostim, apesar das restrições existentes. O trabalho concluiu que o comércio ilegal pode ser uma importante fonte de novas introduções da espécie na natureza.

O caso de Belém ganha relevância justamente porque a praia do Cruzeiro fica em uma região com atividade turística, pesca artesanal e industrial e circulação ligada ao comércio de organismos aquáticos.

Venda e transporte do animal são proibidos no Brasil

A presença do lagostim em Belém também chama atenção porque a espécie não deveria estar sendo comercializada ou transportada legalmente no país.

Uma portaria do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), publicada em 2008, proibiu em território nacional a introdução, reintrodução, importação, comercialização, cultivo e transporte de exemplares vivos de Procambarus clarkii. A norma também determina que animais descartados não sejam colocados em ambientes naturais.

O Ministério do Meio Ambiente também classifica o P. clarkii como espécie exótica invasora. O animal apresenta elevada capacidade de adaptação e pode ocupar diferentes tipos de ambientes aquáticos.

Por que a espécie preocupa?

O problema não está apenas na presença de um crustáceo estrangeiro. O risco está na possibilidade de ele conseguir formar uma população e se espalhar pelo ambiente.

O lagostim-vermelho é onívoro e apresenta comportamento agressivo. Pode consumir plantas, invertebrados e outros organismos aquáticos, além de competir com espécies nativas por alimento e espaço.

O estudo publicado na Nauplius destaca que a espécie pode afetar diretamente a diversidade de organismos nativos. Há registros de predação de anfíbios e de competição com crustáceos nativos em outras regiões.

Outro comportamento importante é a capacidade de escavar. O animal pode modificar sedimentos e margens e provocar alterações na estrutura dos ambientes aquáticos. O Ministério do Meio Ambiente aponta justamente sua capacidade de adaptação, agressividade e ocorrência em diferentes ambientes como características relevantes para o risco de invasão.

Há também um risco sanitário

Outro ponto de preocupação é a possibilidade de transmissão de organismos patogênicos.

O Procambarus clarkii pode atuar como hospedeiro do oomiceto Aphanomyces astaci, causador da chamada peste do lagostim. O patógeno é conhecido por afetar severamente espécies de lagostins suscetíveis. Pesquisas já demonstraram a transmissão do agente por populações invasoras de P. clarkii.

Mais importante para o Brasil: o próprio estudo sobre o registro em Belém informa que A. astaci já foi detectado em populações ferais de P. clarkii no Sudeste brasileiro, o que aumenta a preocupação com a eventual introdução do patógeno em ambientes onde existam crustáceos suscetíveis.

Isso, porém, não significa que os dois animais encontrados em Belém estavam infectados. O artigo não apresenta evidência de que aqueles exemplares carregassem o patógeno.

Duas fêmeas não significam que a espécie já tomou conta da Amazônia

Apesar da importância do registro, os pesquisadores fazem uma ressalva fundamental: encontrar dois indivíduos não é suficiente para afirmar que existe uma população estabelecida em Belém.

Os exemplares eram duas fêmeas e foram encontrados em um único ponto. Não há, a partir desse registro, evidência suficiente para determinar a abundância da espécie na região, sua área de distribuição ou se houve reprodução e estabelecimento de uma população.

Por isso, o achado deve ser encarado como um sinal de alerta e como um ponto de partida para novas investigações, e não como prova de que o lagostim já se espalhou pela Amazônia.

O próprio artigo destaca a necessidade de pesquisas adicionais para avaliar os impactos ecológicos e verificar a possibilidade de ocorrências ainda não registradas.

Rio Maguari aumenta a importância do achado

A localização também é estratégica.

A praia do Cruzeiro está às margens do rio Maguari. Segundo os pesquisadores, o rio deságua na baía do Guajará, integrante do estuário do rio Pará. A área apresenta características de água doce, mas sofre influência estuarina.

Estudos citados pelos autores mostram que P. clarkii consegue tolerar determinados ambientes com maior salinidade, o que aumenta a preocupação sobre sua capacidade de ocupar diferentes ambientes conectados ao sistema hidrográfico da região.

Isso não significa que a espécie necessariamente irá avançar para todo o sistema amazônico. A possibilidade de estabelecimento depende de fatores ambientais, disponibilidade de alimento, competição, predadores e condições específicas de cada ambiente.

O alerta para aquaristas

Para especialistas em espécies invasoras, uma das principais medidas de prevenção é impedir que animais mantidos como pets ou em aquários sejam soltos na natureza.

Um animal que parece inofensivo dentro de um aquário pode apresentar comportamento completamente diferente quando encontra um ambiente sem os mesmos controles.

No caso do P. clarkii, essa preocupação é especialmente relevante porque a espécie já tem histórico internacional de invasão e, no Brasil, sua comercialização de exemplares vivos é proibida pelo Ibama.

O registro em Belém mostra, portanto, que a fiscalização e o monitoramento precisam acompanhar não apenas rios e áreas naturais, mas também possíveis rotas de introdução, incluindo o comércio irregular de organismos aquáticos.

Um pequeno achado com grande importância científica

O caso de Belém começou com apenas dois crustáceos encontrados há oito anos. Mas, ao serem identificados, medidos, preservados e incorporados a uma coleção científica, eles passaram a representar algo muito maior.

O estudo publicado em 2026 oficializou o primeiro registro de Procambarus clarkii no bioma Amazônia e colocou a região no mapa de distribuição dessa espécie invasora.

Agora, a principal pergunta deixada pelos pesquisadores é justamente o que aconteceu depois daquele encontro de 2018: os dois animais eram apenas indivíduos isolados ou representavam o início de uma população? A resposta dependerá de novos levantamentos em Belém e na região metropolitana.

Fonte: Diário do Pará e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 29/08/2026/07:28:54

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