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Filho de fundador da Casas Bahia vira réu por exploração sexual

Rede reduz operação enquanto herdeiro da família Klein responde a graves acusações.

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As Casas Bahia atravessam um período delicado, marcado pelo fechamento de 298 lojas em todo o Brasil e pelo impacto previsto sobre mais de 2 mil trabalhadores. Paralelamente à redução da operação da varejista, parte da família que construiu um dos maiores impérios do comércio brasileiro enfrenta um histórico de graves acusações. Saul Klein, filho do fundador Samuel Klein, tornou-se réu por crimes relacionados à exploração sexual e organização criminosa.

A 2ª Vara Criminal de Barueri aceitou parcialmente denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo contra Saul. O empresário passou a responder judicialmente por acusações que incluem favorecimento à prostituição ou exploração sexual, tráfico de pessoas envolvendo vítimas menores e participação em organização criminosa. O processo tramita em segredo de Justiça. As informações são da coluna de Pedro Lopes, no UOL, que obteve com exclusividade.

A Justiça de São Paulo tornou réu o empresário Saul Klein por crimes como exploração sexual e tráfico de pessoas. A denúncia contra o filho do fundador das Casas Bahia foi aceita pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em 11 de maio.

Sobre o fechamento das lojas Casas Bahia

Segundo informações publicadas pelo Valor Econômico, 600 funcionários tiveram as demissões comunicadas na quinta-feira (13), enquanto outros 1,3 mil desligamentos estavam previstos para sexta-feira (14). Juntos, os cortes representam cerca de 6,7% do quadro de trabalhadores da companhia.

O impacto, no entanto, pode ser ainda maior. A estimativa é de que o número de demissões chegue a 3 mil. As 298 unidades encerradas correspondem a 28,7% das lojas que a empresa mantinha no país, em uma redução realizada após uma sequência de trimestres marcados por prejuízos bilionários.

Acusações contra Saul Klein

Os depoimentos reunidos no processo descrevem uma suposta estrutura de recrutamento de mulheres e adolescentes. Segundo a decisão judicial, as vítimas eram atraídas com promessas de trabalhos em eventos, modelagem e ações promocionais e, posteriormente, encaminhadas a flats e imóveis ligados ao empresário. Os relatos ainda mencionam pagamentos em dinheiro e orientações sobre como elas deveriam se comportar.

“Os elementos informativos (…) também descrevem ambiente de exploração sexual contínua, com referência à participação reiterada de determinadas intermediárias, padronização comportamental e submissão psicológica das frequentadoras”, diz a decisão, que tramita em segredo de Justiça.

Segundo a decisão, Klein passou a ser processado por participação em organização criminosa, favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança, adolescente ou vulnerável, favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual, com agravantes previstas no parágrafo 2º (como emprego de violência, ameaça, fraude ou outras circunstâncias específicas) e tráfico de pessoas envolvendo vítimas menores.

Relatos das vítimas

Em 2022, o empresário Saul Klein foi indiciado pela Polícia Civil de São Paulo por oito crimes sexuais. Na época, 20 vítimas foram ouvidas.

Uma das mulheres ouvidas pela Agência Pública contou que chegou a São Paulo em 2014 após encontrar no Facebook um anúncio para participar de um desfile de sapatos internacionais. Ela relatou ter sido levada do aeroporto para um flat em Alphaville sem saber o que realmente aconteceria.

“Fui enganada. Descobri que era algo com o filho do chefe da Casas Bahia só depois”.

“Tínhamos que mentir sobre a idade”

A mulher, identificada pelo nome fictício de Luana para preservar sua identidade, afirmou que recebeu a oferta de um cachê de R$ 3 mil e acabou permanecendo para um teste. Segundo ela, posteriormente participou de uma festa na mansão de Saul, onde havia cerca de 20 mulheres.

Em um dos relatos mais graves, Luana afirmou ter recebido orientações específicas antes de entrar no quarto do empresário.

“Tive que me despir para ele, me exibir; estava atordoada, mas ele escolheu a outra moça que estava comigo naquele momento”.

Ela contou que viu Saul fazer sexo anal sem preservativo com a colega. “Ela saiu do quarto chorando porque ele a machucou muito”. Luana recorda que, dias depois, esteve numa festa na mansão de Saul, em outra região de Alphaville, com a presença de 20 mulheres, de sexta-feira a domingo. “A gente acordava, tomava café com ele, descia pra academia, ia na piscina e, à noite, tinha festas temáticas”.

“Me falaram que, caso eu achasse que estivesse grávida, eu não poderia sair até retirar o bebê. Se fosse dele ou não, teria que tirar. Falei que não, que estava passando mal por causa da bebida. Mesmo assim, fui obrigada a fazer um teste de gravidez ali mesmo”.

“A gente tinha que falar com voz e jeito de criança. Tínhamos que mentir sobre a idade, como se tivéssemos 15 anos”, recordou.

Ela também contou que passou mal naquela ocasião e não manteve a relação sexual que, segundo seu depoimento, não queria. Luana afirmou não ser garota de programa e esclareceu que não integra o grupo de mulheres que acusa Saul Klein judicialmente.

O que diz a defesa

A defesa de Saul Klein ressalta que a decisão judicial afastou algumas das acusações inicialmente apresentadas. O advogado Alberto Zacharias Toron afirmou:

“A decisão judicial, em linha com o entendimento já parcialmente adotado pelo próprio Ministério Público, afastou as imputações de estupro, cárcere privado e redução à condição análoga a de escravo”.

Sobre as acusações que permanecem no processo, a defesa acrescentou:

“Em relação às acusações remanescentes, o magistrado destacou a relevância da tese defensiva de que a relação mantida entre as partes era livre e consensual, no contexto de uma dinâmica conhecida como ‘sugar daddy’ e ‘sugar baby’ [que são encontros voluntários com vantagens econômicas], ressalvando que a matéria deverá ser aprofundada ao longo da instrução processual. A defesa permanece confiante de que, ao final do processo, todas as acusações serão integralmente rejeitadas”.

Saul também foi condenado em uma ação do Ministério Público do Trabalho, em 2023, a pagar R$ 30 milhões por tráfico de mulheres e exploração sexual. Conforme o MPT, jovens em situação de vulnerabilidade social e econômica eram atraídas sob a oferta de trabalhos como modelo. O montante foi fixado a título de danos morais coletivos.

Acusações contra o fundador (o pai)

As denúncias envolvendo a família Klein também alcançaram Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, morto em 2014 sem condenação criminal, aos 91 anos. Reportagens publicadas pela Agência Pública a partir de 2021 apresentaram relatos de mulheres que afirmaram ter sido vítimas ainda quando eram meninas.
O empresário Samuel Klein, fundador da rede Casas Bahia. Foto: Janete Longo/Folhapress

As acusações apontavam que funcionários teriam participado da logística dos encontros. A repercussão do caso também chegou ao Congresso, com a proposta do chamado “PL Caso Klein”, que busca ampliar o prazo prescricional para ações de reparação relacionadas a crimes sexuais.

Em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, a história ainda provoca manifestações. Um abaixo-assinado pede que a rua Samuel Klein seja rebatizada como rua 8 de Março. A mobilização também defende a retirada do nome do empresário de um centro médico municipal.

Fonte: DIARIO DO PARÁ e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 11/08/2026/16:55:55

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