Os mísseis escassos são, principalmente, armas superfície-superfície do Exército, conhecidas como Sistemas de Mísseis Táticos (ATACMS) e Mísseis de Ataque de Precisão (PrSM).
Dados do CSIS indicam ainda que os EUA utilizaram grande parte do estoque de mísseis Patriot e THAAD (Terminal High Altitude Area Defense), usados para interceptar ataques.
As Forças Armadas também teriam usado um terço do estoque de mísseis Tomahawk, um dos principais armamentos de ataque dos EUA.
Segundo o jornal The Washington Post, a baixa nos estoques irritou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que cobrou o secretário de Guerra, Pete Hegseth, pelos números. Fontes disseram ao jornal que o presidente teria se sentido enganado ao conhecer a situação real dos estoques.
Ainda de acordo com o Washington Post, a situação teria levado Trump a desistir de realizar um ataque em larga escala contra o Irã no início de agosto. O presidente nega as informações do jornal e afirma que os EUA possuem “quantidades enormes de munições”.
Segundo o CSIS, os Estados Unidos ainda possuem cerca de 2.000 mísseis Tomahawk, o que representa uma redução de 33% em relação ao período anterior à guerra contra o Irã. Já o estoque de ATACMS seria de cerca de 900 unidades, uma queda de 10%.
Mas os dados que mais chamam a atenção são os dos mísseis interceptadores. Os EUA tinham 2.330 mísseis Patriot antes da guerra contra o Irã. Agora, de acordo com o CSIS, seriam cerca de 800. No caso dos THAAD, o número caiu de 452 para cerca de 250.
O mestre em Ciências Militares Paulo Roberto da Silva Gomes Filho explica que essa redução pode representar um problema para os Estados Unidos, principalmente em relação aos mísseis interceptadores, responsáveis por repelir ataques.
“Essa é uma capacidade fundamental, porque esses mísseis são os únicos capazes de interceptar mísseis balísticos; por isso, trata-se de uma vulnerabilidade bastante grande”, explica.
“Qualquer país que tenha mísseis balísticos, como China, Rússia, Coreia do Norte ou Irã, apresentaria uma ameaça aos Estados Unidos no caso de uma carência de armamentos dessa natureza.”
Riscos para os EUA e aliados
Repor esse arsenal não é uma tarefa simples. Além de exigir investimentos bilionários, a fabricação desses armamentos pode levar meses.
Um míssil Tomahawk custa cerca de US$ 2,6 milhões por unidade. Já um ATACMS sai por aproximadamente US$ 1 milhão, enquanto cada interceptador Patriot custa em torno de US$ 4 milhões.
A preocupação com os estoques, inclusive, não surgiu após a guerra contra o Irã.
Segundo a imprensa americana, antes do início da ofensiva, militares já alertavam que o arsenal estava baixo por causa do apoio dos Estados Unidos a Israel e à Ucrânia.
O receio era de que uma nova campanha militar consumisse uma quantidade de mísseis que levaria muito tempo para ser reposta.
Para Filho, os Estados Unidos ainda têm capacidade para realizar ataques contra o Irã. O problema seria uma operação militar de maior escala, que poderia exigir o envio de tropas terrestres ao país.
Segundo o especialista, Trump tem demostrado que quer evitar esse tipo de ação por causa do risco de mortes entre soldados americanos e da resistência a uma nova guerra prolongada.
“Os Estados Unidos têm capacidade militar sobrando para atacar. O problema é justamente a defensiva, a capacidade de proteger de uma reação iraniana as usinas de dessalinização, as refinarias no Golfo e as dezenas de instalações militares americanas na região.”
Diante deste cenário, uma eventual nova ofensiva precisaria considerar a capacidade de resposta do Irã. Com os estoques de mísseis interceptadores reduzidos, os Estados Unidos poderiam ter dificuldades para se defender de uma retaliação iraniana em larga escala.
“O fato de os Estados Unidos deixarem de atacar o Irã por falta desses mísseis é uma inversão do que se esperaria. Era esperado o Irã não atacar os Estados Unidos temendo uma ação americana”, diz.
“Estamos vendo os Estados Unidos não atacarem o Irã temendo a reação iraniana. Ou seja, a dissuasão do Irã está funcionando em relação aos Estados Unidos.”
Segundo Filho, os reflexos também podem chegar aos aliados americanos na Ásia. Países como Japão, Coreia do Sul e Taiwan poderiam passar a questionar a capacidade dos Estados Unidos de protegê-los em uma eventual crise envolvendo a China.
No entanto, a China não representa, por si só, um risco maior do que outros rivais. Segundo Filho, a preocupação vale para qualquer país que tenha mísseis balísticos, já que são justamente esse tipo de armamento que os interceptadores em falta foram projetados para neutralizar.
Sistema Patriot
Os mísseis Patriot estão entre os armamentos que mais preocupam especialistas quando o assunto é a capacidade de defesa dos EUA. Isso porque o sistema é um dos principais responsáveis por interceptar mísseis balísticos e outros tipos de ameaças aéreas.
Desenvolvido na década de 1980, o Patriot é um sistema móvel de defesa antiaérea capaz de operar em diferentes condições climáticas e a longas distâncias.
Uma bateria do Patriot reúne radar, centro de controle, unidade de energia, lançadores e veículos de apoio.
Ao longo das últimas décadas, o equipamento passou por diversas atualizações e deve permanecer em serviço nas Forças Armadas dos EUA até pelo menos 2048.
Dependendo do míssil utilizado, o sistema pode interceptar aeronaves, mísseis de cruzeiro e mísseis balísticos táticos. As versões mais modernas utilizam a tecnologia conhecida como hit-to-kill, que destrói o alvo por impacto direto, em vez de explodir nas proximidades.
Mesmo que não tenha sido projetado para enfrentar armas hipersônicas, o sistema ganhou destaque em 2023, quando os Estados Unidos confirmaram que a Ucrânia o Patriot para derrubar um míssil russo Kinzhal, classificado pela Rússia como hipersônico.
O sistema Patriot também foi usado para interceptar dezenas de mísseis balísticos iranianos no Golfo. Os detalhes dessas operações, no entanto, não foram divulgados.
Fonte: g1 e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 08/08/2026/08:15:49
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