GERALPARÁ

“Única coisa boa de Belém foi a cólera”: comentário gera revolta nas redes e homem ainda ataca jornalistas

Uma sequência de publicações atribuídas a Rafael Cândido, do perfil racst_ no Instagram, gerou polêmica ao atacar jornalistas, o feminismo e a cidade de Belém com comentários misóginos e preconceituosos.

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Uma sequência de publicações atribuídas a Rafael Cândido, responsável pelo perfil racst_ no Instagram, gerou críticas nas redes sociais após ataques direcionados a jornalistas e comentários considerados misóginos e preconceituosos. O caso ganhou grande repercussão nas redes. Entre os alvos das manifestações estão as jornalistas Priscilla Amaral e Isis Drummond.

Em stories, comentários e respostas, Cândido fez críticas ao feminismo, responsabilizou mulheres pelos relacionamentos que mantêm e generalizou ataques contra profissionais da imprensa de Belém e de outras regiões do país.

Uma das manifestações que mais repercutiu foi um comentário direcionado ao perfil da jornalista Priscilla Amaral. Na publicação, relacionada a uma criadora de conteúdo paraense, o autor escreveu uma frase ofensiva contra Belém e seus moradores. Além disso, ele fez críticas generalizadas às jornalistas que trabalham em emissoras da capital paraense.

“Vendo bem, a única coisa boa que veio de Belém foi a epidemia de cólera”, escreveu Cândido, antes de definir a população da capital paraense como marcada por uma suposta “amargura insuportável” e afirmar que as redações das emissoras locais teriam “as piores jornalistas”

O comentário passou a ser compartilhado nas redes sociais e foi apontado por usuários como um caso de preconceito regional e ataque profissional.
Em comentário direcionado à jornalista Priscilla Amaral, o internauta afirmaa que as redações das emissoras locais teriam “as piores jornalistas”. O comentário foi localizado em uma publicação sobre uma criadora de conteúdo paraense e rapidamente passou a ser compartilhado como exemplo de ataque regional e profissional.

Priscilla Amaral, que é natural de Marabá e trabalhou como repórter no “DIÁRIO DO PARÁ” em 2006, conta que Isis Drummond – mineira de nascimento e paraense de coração – fez uma análise sobre o ocorrido com a jornalista Márcia Dantas São Paulo. De acordo com informações já tornadas públicas, Márcia teria sido vítima de assédio moral de um editor da emissora que trabalha.

“A Márcia relatou que foi aguentando o assédio, só que ele (o editor) foi escalando no ouvido dela, falando muitos absurdos. Ela disse que começou a se tremer toda e teve uma crise de choro… E como ela estava ao vivo ela se ausentou; e a Isa estava fazendo uma análise sobre o assédio moral que mulheres sofrem também no ambiente de trabalho”, conta a jornanista.

Foi quando Priscilla se deparou com um comentário de Rafael falando mal de jornalistas paraenses. “Não sei quem é esse cidadão e o que ele faz da vida. E aí eu respondi no comentário feito por ele no vídeo da Isis Drummond. Respondi e marquei ele, e aí ele rebateu com aquela fala absurda… Em seguida a Isis pegou e fez um novo vídeo mostrando a resposta dele a mim”, detalha.

A jornalista da TV Record Belém classificou como lamentável constatar que ainda existam homens que reafirmam a misoginia e o assédio moral no mercado e no ambiente de trabalho. “Eu já passei por situações semelhantes a essa no início da minha carreira”, coloca.

Desqualificação indiscriminada e depreciação

A fala ultrapassa uma crítica individual ao trabalho de determinada jornalista. Ao associar Belém a uma epidemia e desqualificar indiscriminadamente as mulheres que atuam nas redações da cidade, o autor transforma discordâncias pessoais em uma generalização depreciativa contra uma população e uma categoria profissional. Trata-se de preconceito regional, também descrito como xenofobia interna. Além disso, está combinado com um ataque direcionado especialmente às mulheres.

O comportamento não aparece de forma isolada. Em outras interações públicas encontradas nas redes sociais, o perfil afirmou que “as jornalistas do Brasil são mulheres vitimistas, que não têm fibra”, recorrendo à memória de Glória Maria para desqualificar, em bloco, profissionais que hoje ocupam redações, reportagens e espaços de apresentação. A mesma declaração apareceu replicada em diferentes conteúdos paraenses.
Internautas criticaram a culpabilização das vítimas, as generalizações contra mulheres jornalistas e o conteúdo considerado preconceituoso contra Belém. Estudo da UFPA registra que mulheres jornalistas paraenses enfrentam comportamentos abusivos, agressões de gênero e tentativas de silenciamento profissional.

Culpabilização de vítimas de feminicídio

Nos prints Cândido também compartilha uma imagem relacionada ao número de feminicídios no Brasil acompanhada da afirmação de que o “primeiro ponto” para reduzir os crimes seria as mulheres deixarem de se relacionar com homens casados e “bandidos”. O texto sustenta ainda que as escolhas individuais moldariam os caminhos percorridos e suas consequências.

A mensagem desloca a responsabilidade de quem pratica a violência para quem é agredida ou assassinada. Em vez de discutir agressores, ameaças, medidas protetivas, prevenção, investigação e políticas públicas, o argumento sugere que mulheres seriam responsáveis pelo próprio destino ao escolherem seus companheiros.

O Instituto Maria da Penha classifica como mito a ideia de que mulheres apanham porque gostam ou provocam as agressões. A entidade explica que medo, vergonha, dependência financeira e risco de morte estão entre os fatores que dificultam o rompimento de relações violentas.
Em story, o perfil racst_ compartilhou mensagem que atribui às escolhas das mulheres parte da responsabilidade pelos casos de feminicídio no Brasil. Publicação sobre casamento de adolescentes foi usada para atacar o feminismo e cobrar diretamente posicionamentos das jornalistas Isis Drummond e Priscilla Amaral.

Casamento infantil e o feminismo

Em outro story, o perfil compartilhou uma manchete sobre casamentos de adolescentes em Belém e São Luís e escreveu: “Você jamais verá uma feminista falar sobre o casamento de adolescentes”. Na sequência, afirmou ser impressionante não encontrar jornalistas tratando do assunto e marcou diretamente Isis Drummond e Priscilla Amaral.

O perfil de Rafael Cândido no Instagram, que ao que tudo indica é evangélico, é inexpressivo e com poucas postagens. São apenas 84 seguidores e 6 postagens feitas. No entanto, o “internauta cristão” parece gostar de “causar” com postagens polêmicas. Chama atenção que o nome do perfil de Rafael é @racst_, uma espécie de abreviação da palava “racista”, sem as letras “i” e “a”.

A acusação, porém, ignora anos de pesquisas, campanhas e reportagens produzidas por organizações voltadas aos direitos das meninas e por veículos dedicados à cobertura de gênero. A Plan International realizou estudos específicos sobre casamento infantil no Pará e no Maranhão. Ela aponta abandono escolar, restrição de liberdade, gravidez precoce e sobrecarga doméstica entre as consequências dessas uniões. Veículos feministas, como a Revista AzMina, também publicaram investigações sobre meninas submetidas a casamentos precoces.

Usar o casamento infantil como instrumento para atacar feministas e jornalistas produz uma contradição. Parte relevante da visibilidade alcançada pelo problema resulta justamente do trabalho de organizações de mulheres, pesquisadoras, repórteres e defensoras dos direitos humanos. O debate não é incompatível com o feminismo; é uma de suas pautas históricas por envolver desigualdade de gênero, exploração, violência sexual e retirada da autonomia de meninas.

O perfil de Rafael Cândido no Instagram, que ao que tudo indica é evangélico, é inexpressivo e com poucas postagens: são apenas 84 seguidores e 6 postagens feitas, mas o “internauta cristão” parece gostar de “causar” com postagens polêmicas.

Violência contra jornalistas mulheres

Nas reações às postagens e republicações, internautas contestaram a tentativa de responsabilizar vítimas de feminicídio, apontaram o caráter misógino das generalizações e classificaram o comentário sobre Belém como ofensivo e xenofóbico. Também houve críticas à estratégia de marcar mulheres jornalistas para provocá-las e, posteriormente, usar as respostas como argumento para reforçar ataques contra a categoria.

A hostilidade ocorre em um ambiente já marcado pela violência contra profissionais da imprensa. Dados divulgados pela Federação Nacional dos Jornalistas indicam que 65% das jornalistas brasileiras já sofreram violência de gênero e 47% foram alvo de ataques pela internet. A entidade alerta que as agressões digitais podem provocar autocensura, adoecimento e afastamento profissional.

Discordar de abordagens jornalísticas, criticar reportagens ou cobrar maior cobertura sobre assuntos sociais é legítimo. Associar uma cidade a uma doença, reduzir profissionais a “mulheres vitimistas” e atribuir feminicídios às escolhas das vítimas não amplia o debate. Essas ações apenas reproduzem estigmas, normalizam a violência verbal e tentam silenciar mulheres por meio da humilhação pública.

Fonte:DIARIO DO PARÁ e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 25/07/2026/17:09:29

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