Mudanças climáticas alteram turismo e exigem adaptação de festas na Amazônia
Mudanças climáticas alteram o comportamento dos viajantes, que agora consideram temperatura, qualidade do ar e nível dos rios ao planejar férias. Festas tradicionais na Amazônia, como Sairé, Círio e Parintins, buscam adaptação.
Durante décadas, o calendário das férias foi definido principalmente pelos recessos escolares, feriados e grandes manifestações culturais. Agora, temperatura, qualidade do ar e nível dos rios também começam a orientar a escolha de quando e para onde viajar.
A mudança aparece no Relatório de Viagens & Sustentabilidade 2026 da Booking.com. Segundo o levantamento, 46% dos viajantes brasileiros pretendem viajar fora dos períodos de maior movimento, enquanto 33% buscam destinos com temperaturas mais amenas. Outros 57% consideram que alguns lugares estão quentes demais justamente na época em que gostariam de conhecê-los.
A pesquisa ouviu 32,5 mil viajantes em 35 países, incluindo mil brasileiros. Globalmente, 74% dos entrevistados afirmaram considerar o risco de condições climáticas extremas tanto na escolha do destino quanto na definição da data da viagem. Quase um terço cancelou ou alterou algum roteiro nos últimos 12 meses por causa do calor intenso, tempestades, incêndios ou outros eventos naturais.Redes de hospedagem
Impacto das mudanças climáticas no turismo
A preocupação também chegou à rede de hospedagem. Entre 3.715 hotéis e estabelecimentos consultados em 18 países, 24% relataram interrupções na chegada ou na saída de hóspedes provocadas por eventos extremos. Outros 23% disseram que o desconforto causado pelas condições do tempo resultou em avaliações negativas.
A transformação ocorre justamente quando o turismo brasileiro atravessa um período de expansão. Em 2025, o país recebeu o recorde de 9,3 milhões de visitantes internacionais, que deixaram US$ 7,9 bilhões na economia. Nos cinco primeiros meses de 2026, a receita gerada por estrangeiros alcançou US$ 4,8 bilhões, alta de 11,6% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Preservar esse ritmo passa, portanto, pela capacidade de adaptação. Na Amazônia, o desafio é maior porque boa parte da atividade turística depende diretamente dos rios, das praias de água doce, da floresta e de manifestações culturais realizadas ao ar livre.
- Turismo guiado pelo nível dos rios
- Festas tradicionais da Amazônia e o clima
- Festa do Sairé em Alter do Chão
Cheia e vazante sempre orientaram a vida das populações amazônicas, a circulação de embarcações e as atividades econômicas. Com secas mais severas, temporais concentrados, incêndios e períodos de fumaça, o comportamento dos rios e da atmosfera passa a exigir ainda mais atenção dos organizadores de eventos e da cadeia turística.
Em Alter do Chão, no oeste do Pará, a Festa do Sairé é realizada em setembro, durante a formação das praias do rio Tapajós. A programação reúne rituais religiosos mantidos pela comunidade, a busca dos mastros, a procissão fluvial e a disputa entre os botos Tucuxi e Cor-de-Rosa.
A relação com o rio está entre os principais atrativos da festa, mas também exige planejamento quando a vazante reduz a profundidade dos canais ou cria novos bancos de areia. Nessas situações, podem ser necessários ajustes nos pontos de embarque, trajetos, horários e tipos de embarcação utilizados.
Essas medidas não significam alterar a tradição do Sairé, construída ao longo de gerações. O objetivo é assegurar as condições para que ela continue sendo realizada com segurança. Informações atualizadas sobre navegabilidade, qualidade do ar e previsão meteorológica podem orientar visitantes, barqueiros, hotéis e agências com antecedência.
A criação de roteiros complementares também ajuda a manter o movimento econômico. Programações gastronômicas, apresentações culturais, visitas a comunidades, experiências ligadas ao artesanato e atividades em espaços urbanos permitem que o turista permaneça por mais tempo no destino, mesmo quando alguma atração fluvial precisa ser ajustada.Círio exige atenção ao calor
- Círio de Nazaré em Belém
Em Belém, o Círio de Nazaré apresenta outra dimensão dessa relação entre clima, turismo e economia. Realizada em outubro, a procissão reúne cerca de 2 milhões de pessoas e movimenta hotéis, restaurantes, transportes, comércio, produção de alimentos, artesanato e serviços.
Em 2025, a festividade recebeu aproximadamente 100 mil turistas e gerou cerca de R$ 210 milhões em receitas para a capital paraense, segundo estimativa da Secretaria de Estado de Turismo.
A exposição prolongada ao sol, combinada à umidade característica de Belém e à concentração de pessoas, amplia a necessidade de medidas preventivas. Idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas e romeiros que percorrem longas distâncias formam o público que exige maior atenção.
O reforço das estações de hidratação, das áreas de descanso e dos postos de atendimento médico pode ser incorporado de maneira permanente à organização. Corredores sombreados e alertas sobre a sensação térmica também ajudam a reduzir os riscos. Hotéis, agências e empresas de transporte podem participar, repassando orientações aos visitantes antes da chegada.
Além de proteger os romeiros, essas providências preservam a experiência de quem visita Belém e fortalecem a imagem da cidade como destino preparado para receber grandes públicos.Parintins depende de logística especial
Festival de Parintins no Amazonas
No Amazonas, o Festival Folclórico de Parintins enfrenta desafios semelhantes, com uma particularidade: a Ilha Tupinambarana é alcançada somente por via aérea ou fluvial.
Em 2025, mais de 120 mil visitantes estiveram em Parintins durante o festival. A movimentação econômica chegou a aproximadamente R$ 184 milhões e foram gerados cerca de 30 mil empregos diretos e indiretos, segundo a Amazonastur. Hotéis, restaurantes, transportadores, artistas, artesãos, comerciantes e vendedores ambulantes dependem do fluxo concentrado no período da disputa entre Caprichoso e Garantido.
A oscilação acentuada do nível dos rios pode interferir na atracação das embarcações e no transporte de passageiros, alimentos, equipamentos e alegorias. Quando barcos maiores precisam alterar as rotas ou utilizar outros pontos de desembarque, aumentam o tempo de viagem e os custos logísticos.
A orla também demanda monitoramento. Em 2025, a Prefeitura de Parintins decretou situação de emergência por causa do fenômeno conhecido como “terras caídas”, provocado pela erosão das margens. O problema colocou em risco residências, estabelecimentos comerciais e vias públicas. Durante o Festival daquele ano, áreas vulneráveis foram inspecionadas e sinalizadas pela Defesa Civil.
Portos flutuantes ajustáveis ao nível das águas, inspeções periódicas, rotas alternativas de desembarque, armazenamento antecipado de produtos e integração entre os transportes fluvial e aéreo estão entre as medidas capazes de reduzir a exposição do festival às variações climáticas.Adaptação pode ampliar a temporada
Adaptação e futuro do turismo amazônico
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) alerta que ondas de calor, secas, incêndios, enchentes e tempestades estão alterando a distribuição do turismo entre regiões e épocas do ano. Para enfrentar esse cenário, a entidade recomenda sistemas de alerta, avaliação permanente dos riscos, infraestrutura adaptada e maior cooperação entre governos, comunidades e empresas.
Para os destinos amazônicos, a mudança no comportamento dos viajantes não representa somente dificuldade. A procura por períodos menos movimentados pode ampliar a temporada, distribuir melhor a renda durante o ano e reduzir a dependência econômica de poucas semanas, destaca o relatório da OCDE..
Isso exige um calendário cultural mais diversificado e informações confiáveis. Plataformas com dados sobre chuvas, nível dos rios, temperatura, qualidade do ar e condições de transporte podem ajudar o visitante a tomar decisões sem que notícias imprecisas produzam cancelamentos em destinos que continuam funcionando normalmente.
De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, os meios de hospedagem também podem adotar políticas flexíveis de remarcação, melhorar a ventilação dos espaços, investir em energia solar para climatização e preparar planos de contingência. Para os pequenos negócios, linhas de crédito e seguros relacionados a eventos climáticos podem evitar que uma interrupção temporária comprometa toda a receita anual.
“Adaptar-se a condições climáticas extremas e evitar ativamente aglomerações são agora práticas comuns em todas as faixas etárias”, afirma Danielle D’Silva, diretora de sustentabilidade da Booking.com.
Na Amazônia, onde o calendário cultural nasceu da relação das comunidades com os rios, a floresta e as estações, a adaptação pode servir justamente para preservar as tradições. As festas permanecem com sua identidade e seus rituais; o que precisa acompanhar o novo cenário é a estrutura montada ao redor delas.
Fonte: DIARIO DO PARÁ e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 25/07/2026/15:43:36
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