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Protesto cancela audiência para debater proteção a rio cristalino de MS

Tumulto na Prefeitura de Bodoquena, onde ocorreria apresentação de proposta para criar uma unidade de conservação no delta do rio Salobra, levou ao cancelamento da consulta pública. ICMBio lamentou o episódio.

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Imagens feitas durante o protesto mostram os manifestantes gritando “fora” para a equipe do Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio) (veja o vídeo acima).

A reunião, promovida ICMBio seria aberta à participação da população. O objetivo era debater a proposta de transformar a região em uma unidade de conservação. O ICMBio informou que a audiência foi adiada por falta de segurança (leia a íntegra mais abaixo).

Segundo a Prefeitura de Bodoquena e a Polícia Militar, houve registros de gritos, ofensas e manifestações agressivas no local.

De acordo com o ICMBio, havia homens, mulheres, crianças e idosos interessados em conhecer a proposta. No entanto, essas pessoas se sentiram intimidadas e não conseguiram participar da discussão.

O ICMBio já é responsável pela proteção do rio Salobra, no âmbito do Parque Nacional da Serra da Bodoquena. Ainda não há previsão de data para que a audiência ocorra.

O Instituto Delta do Salobra disse, em nota, que o episódio foi conduzido por proprietários rurais e não vai interromper o diálogo e a importância ecológica da criação da área protegida (leia íntegra mais abaixo).

O g1 entrou em contato com o Sindicato Rural de Miranda e Bodoquena, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.

Sobre a proposta

O Rio Salobra se destaca pelas águas cristalinas, com coloração verde-esmeralda em alguns trechos. A área proposta para o refúgio fica em uma zona de transição entre Pantanal, Cerrado e Mata Atlântica e tem ligação com o Chaco paraguaio. Cerca de 80% do território é considerado prioritário para conservação pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Além disso, a integração entre esses biomas pode fortalecer o turismo de natureza. A região tem potencial para se conectar a roteiros já consolidados, como Bonito e o Pantanal.

A consulta pública é uma etapa prevista em lei para a criação de unidades de conservação. O processo permite que moradores conheçam os estudos, tirem dúvidas e apresentem sugestões.

O rio Salobra é considerado como corredor natural de relevância internacional. Segundo o Instituto Delta do Salobra, o território reúne áreas estratégicas para a preservação ambiental, incluindo a Serra da Bodoquena e a Bacia Sedimentar do Pantanal.

O que diz o ICMBio?

Em nota, o ICMBio lamentou o episódio e disse que repudia “atos que inibem o debate público, ordeiro e pacífico”. Leia a íntegra:

O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) lamenta o adiamento da consulta pública que seria realizada na tarde de hoje, no auditório da Prefeitura Municipal de Bodoquena, em Mato Grosso do Sul.

A consulta pública é um instrumento de participação democrática previsto em lei e representa uma etapa fundamental do processo de criação de uma unidade de conservação, permitindo que a população conheça os estudos realizados, apresente sugestões, esclareça dúvidas e contribua para o aperfeiçoamento da proposta.

A ausência de garantias das condições mínimas de segurança para a realização da consulta, conforme atestado pela Prefeitura de Bodoquena e pela Polícia Militar, motivou a decisão do ICMBio. Entre os participantes havia homens, mulheres, crianças e idosos interessados em conhecer a proposta de criação do Refúgio de Vida Silvestre (Revis) Delta do Salobra. Essas pessoas tiveram seu direito à participação comprometido ao se sentirem intimidadas pelos gritos, ofensas e manifestações agressivas registradas no local.

Como órgão público, o ICMBio prima pelo respeito à participação cidadã e repudiamos atos que inibem o debate público, ordeiro e pacífico.

O que diz o IDS?

O presidente do Instituto Delta do Salobra (IDS), Maurício Copetti, disse em nota que a entidade acredita na “construção coletiva de um território capaz de conservar a natureza”. Leia a íntegra:

A Consulta Pública do REVIS Delta do Salobra foi obstruída truculentamente por um grupo liderado pelo presidente do Sindicato Rural de Miranda e Bodoquena. Orientados ou amedrontados por falsas alegações e especulações infundadas, seus integrantes ocuparam a plenária para impedir a realização da consulta, cerceando o direito dos demais presentes de conhecerem a proposta em sua íntegra e se manifestarem livremente, favoráveis ou contrários.

Esse grupo não representou, ao menos no comportamento demonstrado durante o evento — e não no legítimo direito de discordar ou se posicionar — muitos proprietários, moradores e atores locais que conhecem o território e compreendem que as áreas selecionadas para compor o REVIS concentram-se, em grande medida, em porções de baixa aptidão agropecuária, onde a atividade pecuária permanece compatível com a categoria proposta.

Também são cada vez mais numerosos os que reconhecem o potencial econômico associado à conservação da paisagem, ao ecoturismo, aos mecanismos de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), aos mercados ligados à biodiversidade e às oportunidades que surgem quando um território passa a ser reconhecido por seus ativos ambientais.

O IDS já vem articulando alternativas concretas nesse sentido, incluindo diálogos com a SEMADESC e parceiros do terceiro setor, que demonstraram interesse em construir soluções capazes de valorizar os proprietários inseridos nesse corredor ecológico singular entre quatro biomas. O Delta do Salobra reúne atributos raros, é no coração da América do sul, e possui potencial para se consolidar como um dos mais relevantes ativos ambientais do Mato Grosso do Sul, conciliando conservação, produção rural, turismo e desenvolvimento local.

O episódio ocorrido hoje não altera essa realidade. Impediu uma reunião, mas não interrompeu o diálogo, nem diminuiu a importância ecológica, econômica e estratégica deste território.

Seguimos confiantes de que a informação qualificada prevalecerá sobre o medo e a desinformação. Mais cedo ou mais tarde, a sociedade terá a oportunidade de conhecer a proposta em seus detalhes, avaliar seus benefícios e seus desafios, e formar seu próprio entendimento.

O futuro do corredor do Delta do Salobra não pertence ao conflito. Pertence à construção coletiva de um território capaz de conservar sua natureza, fortalecer suas comunidades, valorizar seus proprietários, ampliar oportunidades para o comércio local, serviços, guias, agências e empreendedores, e gerar prosperidade duradoura a partir de um patrimônio natural que já existe e que merece ser reconhecido como um diferencial para toda a região, quiçá do mundo.

Delta do Rio Salobra pode ganhar nova área de proteção federal em MS — Foto: Maurício Copetti

Fonte: G1 e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 18/06/2026/14:41:26

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