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Presos do Araguaia: o julgamento que desafiou a Ditadura Militar e mobilizou milhares de paraenses

Prisão de posseiros e padres franceses provocou uma das maiores mobilizações sociais da Amazônia e transformou o julgamento dos Presos do Araguaia em símbolo da resistência ao regime militar

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Ainda sob o clima de repressão imposto pela Ditadura Militar, a década de 1980 registrou uma escalada dos conflitos no campo. No Pará, um desses episódios culminou em um dos julgamentos mais emblemáticos do período. O caso ficou conhecido como o dos Presos do Araguaia.

Em 21 de junho de 1982, o julgamento dos chamados Presos do Araguaia mobilizou movimentos religiosos, estudantes, sindicatos e diversos setores da sociedade paraense contra as forças da ditadura. Mais de quatro décadas depois, os acontecimentos continuam revelando não apenas os mecanismos de repressão do regime, mas também a impressionante capacidade de mobilização popular.

A Igreja Católica assumiu papel central nesse processo. Ao lado dos mais pobres, enfrentou a Ditadura Militar e ajudou a articular um amplo movimento social que reuniu grupos estudantis, entidades civis e lideranças religiosas em torno da denúncia das injustiças praticadas pelo regime.

Conflito por terras levou à prisão de posseiros e padres

Para compreender o julgamento, é preciso voltar ao início da década de 1980.

Naquele período, a região de São Geraldo do Araguaia, no sudeste paraense, vivia intensos conflitos entre grandes latifundiários e posseiros que chegavam ao Pará em busca de uma oportunidade de vida.

Sempre que os posseiros construíam barracos ou conseguiam produzir uma safra, pistoleiros contratados por fazendeiros destruíam casas, incendiavam plantações e agrediam agricultores.

Nesse cenário atuavam dois padres franceses ligados à Teologia da Libertação: Aristides Camiô e Francisco Gourioum. Eles evangelizavam comunidades rurais e ofereciam apoio às famílias mais vulneráveis, tornando-se figuras presentes nas áreas de ocupação.

A atuação dos religiosos, porém, incomodava grandes proprietários de terra.

Um episódio específico ampliou ainda mais a tensão. Durante uma missa, o padre Aristides realizou um sermão que, segundo o Exército Brasileiro, incentivava trabalhadores a se rebelarem contra os fazendeiros.

Poucos dias depois, militares, agentes da Polícia Federal, integrantes da Polícia Civil e pistoleiros financiados por grandes proprietários encontraram lavradores em uma vicinal da região.

O encontro terminou em confronto armado. Após disparos efetuados pela polícia, os trabalhadores reagiram utilizando espingardas que carregavam para se proteger durante o trabalho no campo.

Um delegado foi baleado e um pistoleiro morreu.

Prisões deram origem ao maior movimento social da Amazônia

No dia seguinte, em 31 de agosto de 1981, teve início uma intensa perseguição contra os trabalhadores rurais.

Agentes prenderam posseiros, incendiaram casas e promoveram uma série de agressões.

Ao todo, 13 posseiros e os dois padres franceses acabaram presos.

A reação veio rapidamente. Moradores da região e de Belém organizaram uma ampla rede de mobilização que deu origem ao Movimento Pela Libertação dos Presos do Araguaia (MLPA).

Considerado por pesquisadores como o maior movimento social da Amazônia na segunda metade do século XX, o MLPA nasceu dentro das estruturas da Igreja Católica, mas logo ganhou caráter ecumênico.

Igrejas cristãs, organizações sociais, sindicatos, estudantes, movimentos populares e até pessoas sem vínculo religioso passaram a integrar a mobilização.

Com o avanço da campanha, o movimento ultrapassou as fronteiras do Pará e recebeu apoio de diferentes estados brasileiros e também de organizações internacionais.

Enquanto isso, enquadrados na Lei de Segurança Nacional, padres e posseiros permaneceram presos em Belém até a definição da data do julgamento.

Belém foi ocupada por milhares de agentes armados

À medida que o julgamento se aproximava, crescia também a preocupação das autoridades militares.

O MLPA realizava reuniões semanais, organizava panfletagens, articulava manifestações nacionais e internacionais e promovia vigílias diárias em frente à sede da Polícia Federal.

As forças de segurança temiam que uma multidão ocupasse as ruas de Belém durante o julgamento.

Não por acaso, durante o Círio de 1981, as autoridades transferiram os padres para o presídio da Papuda, em Brasília.

Nas vésperas do julgamento, cerca de 3 mil homens fortemente armados ocuparam Belém. Ao mesmo tempo, veículos de comunicação divulgavam mensagens desencorajando a participação em passeatas e manifestações.

Mesmo assim, a mobilização popular avançou.

A Arquidiocese orientou fiéis que não pudessem comparecer ao tribunal a acender velas e colocá-las nas janelas de casa.

Em poucas horas, velas desapareceram das prateleiras de Belém, São Geraldo do Araguaia e Marabá.

O cerco à Igreja da Trindade marcou o julgamento

No dia do julgamento, centenas de pessoas seguiram para o tribunal.

Entre os manifestantes estavam estudantes, sindicalistas e militantes de partidos como PDT, PT, PMDB e PCdoB.

Quando a multidão avançou pelas ruas, forças militares reagiram com cavalaria, disparos e agressões.

Muitos jovens correram para buscar abrigo na Igreja da Trindade.

O que aconteceu em seguida tornou-se um dos episódios mais marcantes daquele período.

Policiais militares e integrantes do Exército cercaram a igreja e mantiveram os manifestantes isolados durante horas.

Os agentes chegaram a cortar o fornecimento de água e energia elétrica do local.

A situação só terminou após a intervenção do então bispo auxiliar de Belém, Dom Vicente Zico, que negociou a liberação dos manifestantes.

O episódio simbolizou a repressão exercida pelas forças de segurança não apenas contra a população, mas também contra setores da própria Igreja que defendiam os mais pobres.

Condenados, mas libertados após pressão internacional

Apesar das manifestações e da repercussão nacional e internacional, o julgamento terminou com condenações.

O padre Aristides Camiô recebeu pena de 15 anos de prisão. O padre Francisco Gourioum foi condenado a 10 anos. O posseiro João Matias recebeu pena de nove anos, enquanto os demais posseiros foram condenados a oito anos.

Entretanto, a intensa mobilização social e a pressão internacional produziram resultados.

Após cerca de um ano, os religiosos e os trabalhadores conquistaram a liberdade.

No final de 1983, a população de São Geraldo do Araguaia organizou uma grande recepção para celebrar o retorno dos libertados na véspera do Natal.

Prisão dos padres gerou crise diplomática

A prisão dos dois padres franceses ultrapassou as fronteiras brasileiras e provocou um problema diplomático.

O caso envolveu o governo francês e também o Vaticano.

Diante da repercussão internacional, a Arquidiocese de Belém designou Dom Vicente Zico para acompanhar o processo judicial.

Já o padre Bruno Sechi, fundador da República de Emaús, realizava visitas frequentes aos religiosos durante o período em que permaneceram presos em Belém.

Conflitos agrários, repressão militar, mobilização popular e pressão internacional marcaram um dos episódios mais emblemáticos da história recente do Pará, conhecido como os Presos do Araguaia. Foto: Reprodução

Fonte:DIARIO DO PARÁ e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 06/06/2026/15:48:47

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