Balanço ambiental: Marina Silva deixa ministério com queda no desmatamento, mas tem gestão marcada por reveses políticos
Marina Silva deixou o Ministério do Meio Ambiente com uma redução de 58% no desmatamento da Amazônia, mas enfrentou reveses políticos significativos. Sua gestão foi marcada por um equilíbrio entre visões ambientalistas e desenvolvimentistas, destacando-se pela criação do Plano Clima e novas Unidades de Conservação. Contudo, enfrentou derrotas, como a aprovação do novo Licenciamento Ambiental, e não conseguiu implementar a Autoridade Climática.
Ao assumir o Ministério do Meio Ambiente, em janeiro de 2023, Marina Silva tinha duas missões consideradas emergenciais: diminuir os índices de desmatamento e recuperar a governança ambiental após os anos de gestão Jair Bolsonaro (PL). Na saída da titular, a pasta entrega um resultado de 58% de redução de área devastada na floresta amazônica e celebra o impulsionamento do financiamento climático. Em meio a derrotas políticas, como o novo Licenciamento Ambiental aprovado pelo Congresso ano no passado, a retomada das medidas de conservação dos biomas, que contribuiu diretamente para o prestígio global colhido pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na área, é a principal marca da ministra, que deixou o cargo anteontem, com vistas às eleições.
Reconhecida internacionalmente no meio ambientalista, Marina retornou ao posto de ministra que havia deixado em 2008 após divergências internas sobre projetos de hidrelétricas na Amazônia e a perda de apoio político. Quase duas décadas depois, seguiu se equilibrando entre as visões desenvolvimentista e ambientalista dentro do governo Lula. Com mais experiência e resiliência, apontam aliados e observadores, alcançou apoio sólido do presidente.
Além do combate ao desmatamento, outros pontos citados como positivos de sua gestão foram a criação do Plano Clima, primeira estratégia nacional com metas para redução das emissões de gases de efeito estufa e de adaptação aos impactos das mudanças climáticas; a criação de 13 novas Unidades de Conservação; e o fomento de mecanismos financeiros da agenda socioambiental, como o Fundo Clima, gerido pelo BNDES, que, ao lado do Ministério da Economia, colaborou com a gestão de Marina. O mecanismo mobilizou R$ 52,4 bilhões desde 2023.
Na comparação entre 2022 e 2025, o desmatamento na Amazônia caiu 58%, e no Cerrado, 32%. Em coletiva na última quarta-feira para oficializar a passagem do bastão para seu secretário-executivo, João Capobianco, Marina ressaltou que os números são “fruto do trabalho” do Ibama, do ICMBio e da Polícia Federal (PF).
Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama, afirma que a gestão foi marcada pela reorganização do Ministério do Meio Ambiente e suas autarquias, antes enfraquecidos no governo Bolsonaro.
— Os resultados no controle do desmatamento são o principal trunfo, os números na Amazônia são muito expressivos. No Brasil esse resultado tem implicação climática direta, pois o desmatamento é o maior emissão de gases — explica Araújo, que diz que o ministério “fez o que conseguiu” diante das resistências internas e do Congresso. — Acho que a Marina se mostrou mais resiliente, em relação à primeira passagem. Os conflitos foram bem evidentes, certamente sofreu pressões grandes, mas optou por seguir na gestão até o final.
Na política climática, assunto que ganhou maior destaque desde a mudança do nome oficial da pasta – agora Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima – Suely Araújo destaca a entrega do Plano Clima, apesar de críticas pontuais ao setorial de mitigação da energia, que não assume descarbonização de forma clara, e à parte de meios de implementação, sem dados claros.
Já o Fundo Clima, que saiu de um patamar anterior de R$ 500 milhões anuais para dezenas de bilhões, e o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), contaram com o apoio do ministro Fernando Haddad e do BNDES, principais aliados de Marina Silva na atual gestão. Lançado oficialmente na COP30, o TFFF visa a financiar a conservação e a restauração de florestas tropicais nos países em desenvolvimento e já obteve US$ 6,7 bilhões com o apoio de 63 países.
— Haddad e Marina botaram o Fundo Clima em outro patamar — afirma Araújo, que, por outro lado, diz que é preciso superar as dificuldades fiscais de municípios, principalmente em áreas de risco, em receber os empréstimos do Fundo Clima.
A presidência da COP30, sediada ano passado em Belém (PA), ficou com o Itamaraty, sob o comando do embaixador André Corrêa do Lago. A escolha dividiu opiniões, mas o fato de Marina não ter sido a presidente não evitou que ela impusesse sua visão no discurso de Lula na conferência, que cobrou planos para redução do uso de combustíveis fósseis. O lançamento do TFFF e das discussões de Mapas do Caminho também tiveram influência direta da ministra.
— Além do mapa global, a condução do governo brasileiro por um mapa nacional para o fim do desmatamento e para a transição energética representa uma agenda importante — explica Mariana Mota, Gerente Política do Greenpeace Brasil, que elogia a gestão, ainda que com muitos desafios não superados por falta de consenso que dificultam políticas estruturais. — Marina pegou a agenda socioambiental climática destruída pela gestão anterior, e houve compromisso evidente em reconstruir.
Novo Licenciamento Ambiental e Autoridade Climática na gaveta
Apesar dos avanços, houve derrotas importantes. Marina não foi capaz, por exemplo, de superar a ofensiva do Congresso ou de superar divergências internas com outros ministérios — ainda que, na avaliação de especialistas, ela tenha “feito o que pôde”. No ano passado, a aprovação do novo Licenciamento Ambiental, com o objetivo de acelerar as autorizações para grandes obras, foi considerado um retrocesso histórico por entidades ambientalistas.
Na época, houve críticas sobre falta de empenho do governo e suposta falta de interesse da Casa Civil em articular para barrar a proposta. Lula chegou a reverter os pontos mais polêmicos, mas o Congresso derrubou a maior parte dos vetos.
— O ministério lutou contra, mas não teve força necessária para segurar. É um fato que vai marcar esse período — lamentou Suely Araújo.
Para Adriana Ramos, secretária executiva do Instituto Socioambiental (ISA), o novo Licenciamento Ambiental foi a principal derrota da gestão.
— Sem dúvida nenhuma faltou apoio do governo, em negociações que teriam que ter empenho da Casa Civil. A reprovação da proposta sempre foi bandeira da Marina, mas não foi bandeira do governo, que tratou o tema como moeda de negociação para outras coisas. Acho que ela lidou melhor com as contradições internas, e deu mais visibilidade às contradições internas e disputas do governo.
Outra crise foi a autorização para exploração de petróleo na Margem Equatorial, o que gerou pressões públicas sobre a ministra.
O Observatório do Clima entrou na justiça e contestou o licenciamento do projeto, apontando que dados sobre hipóteses de vazamentos não foram devidamente analisados. Mas Adriana Ramos rechaça o discurso de derrota a Marina nesse caso.
— A posição dela era cumprir o licenciamento ambiental. No momento que a Petrobras cumpriu as condições, a licença foi concedida. O meio ambiente perde, mas ela como ministra fez cumprir o processo.
Uma derrota interna foi a não criação da Autoridade Climática, órgão que Marina Silva desejava implementar para coordenar, articular e acelerar as políticas públicas de enfrentamento às mudanças climáticas. Sem acordo como funcionaria o órgão, e com resistência da Casa Civil, a ideia não saiu do papel.
Segundo Suely Araújo, a proposta sofria resistência desde o período de transição, após a eleição de Lula.
— Lideranças na política ambiental já divergiam sobre como a Autoridade funcionaria, não era um problema só com a Casa Civil. Depois até houve consenso no início do governo, sobre a necessidade do órgão, mas não progrediu. Essa foi uma derrota pra Marina.
Internamente, no Ministério do Meio Ambiente, também prevaleceu a visão de que a luta de Marina Silva é “desigual” e que derrotas seriam inevitáveis. Ainda assim, houve avanços no diálogo, como o ocorrido com estados na implantação de Unidades de Conservação e outras políticas públicas voltadas ao uso ou ampliação de áreas ambientais, como o Rede Trilhas.
Um diretor da pasta, que pediu para não se identificar, explicou que os conflitos com a Casa Civil não foram exclusividade de Marina Silva e que essa situação se repetiu na relação do ministro Rui Costa com vários outros ministérios. Já as diferenças com os ministérios de Minas e Energia e Pesca eram esperados. Por outro lado, ele afirmou que diferentemente da sua última passagem, dessa vez Marina não chegou a um ponto em que se exigiria, para a continuidade na pasta, “violar seus valores”.
— O governo anterior empurrou Marina a um ponto em que ou ela cedia ou saía, e foi o que aconteceu. Agora houve mais habilidade do Lula. Trouxe ela para perto, e soube escutá-la melhor — afirma o integrante da pasta, que também ressalta seu prestígio internacional. — Onde Marina vai, parece o Pelé. É um prestígio impressionante, a aura dela chega antes que ela.
Fonte: Globo e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 02/04/2026/08:25:46
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