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“Selinho” nos filhos: entenda os riscos desse hábito polêmico

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Demonstrar carinho faz parte da construção de vínculos afetivos entre pais e filhos. Abraços apertados, cafuné e beijos são gestos comuns no cotidiano familiar e, para muitos, naturais. Mas quando esse afeto inclui o chamado “selinho”, o beijo na boca, o assunto passa a gerar debates e dividir opiniões.

Para alguns pais, o gesto é apenas mais uma forma de expressar amor, segurança e proximidade. Para outros, ultrapassa limites importantes no desenvolvimento infantil. A discussão, que envolve fatores culturais, emocionais e até de saúde, está longe de ter um consenso.

Na maioria das vezes, quem defende a prática afirma que ela não possui qualquer conotação inadequada, trata-se apenas de afeto dentro de um ambiente familiar saudável. Já quem discorda levanta questionamentos sobre limites corporais, consentimento e possíveis impactos no entendimento da criança sobre o próprio corpo.

“É uma forma de carinho dentro da nossa realidade”

Uma mãe, que preferiu não se identificar por receio de julgamentos e para preservar a segurança dos filhos de 10 e 2 anos, afirma que o selinho faz parte da rotina familiar de forma natural.

Segundo ela, o gesto não tem qualquer conotação além do afeto. “Para mim e para as crianças é algo natural e afetuoso, assim como abraçar ou fazer cafuné. O significado depende muito da cultura, dos costumes e da intenção por trás”, explica.

Mãe relata que o selinho é uma forma natural de carinho dentro da família, com foco no respeito aos limites dos filhos.
📷 Mãe relata que o selinho é uma forma natural de carinho dentro da família, com foco no respeito aos limites dos filhos. |( Reprodução )

Esse tipo de percepção é comum entre famílias que enxergam o afeto como algo construído dentro do próprio ambiente doméstico, onde gestos ganham significados particulares e são moldados pela convivência.

A mãe também destaca que busca ensinar desde cedo sobre autonomia e limites. “Eu sempre reforço que o corpo é deles e que podem escolher como querem dar e receber carinho. Inclusive, podem dizer ‘não’, mesmo para mim.”

O tema do consentimento, inclusive, tem sido cada vez mais discutido na criação de crianças, como forma de fortalecer a autonomia e prevenir situações de vulnerabilidade.

Ela reconhece que já recebeu críticas, mas diz lidar com tranquilidade. “Cada família tem sua forma de demonstrar afeto. Eu sempre explico que estou atenta ao bem-estar deles.”

Ainda assim, ressalta que o gesto não é algo imposto e pode mudar com o tempo. “Se eles demonstrarem desconforto ou preferirem outras formas de carinho, isso será respeitado.”

“Existem outras formas de demonstrar amor”

Já a artesã Marcília Paixão, mãe que optou por não adotar o selinho e tem um filho de 3 anos, afirma que sua decisão foi natural, mas também baseada em estudos sobre educação infantil.

A artesã Marcilia Paixão defende outras formas de afeto e destaca a importância do respeito aos limites e à proteção infantil.
📷 A artesã Marcilia Paixão defende outras formas de afeto e destaca a importância do respeito aos limites e à proteção infantil. |( Reprodução / arquivo pessoal )

A escolha reflete uma linha de pensamento crescente entre pais que buscam estabelecer limites mais claros entre demonstrações de afeto e a construção da percepção corporal da criança. “Abraços, cuidado e palavras de afeto são suficientes e importantes para o desenvolvimento da criança”, afirma.

Para ela, o principal ponto está na proteção e na construção de limites claros. “Uma criança que vê isso como normal pode não conseguir identificar situações inadequadas no futuro. Meu foco é proteger.”

Especialistas apontam que a forma como a criança aprende sobre o corpo e o contato físico nos primeiros anos pode influenciar diretamente sua capacidade de reconhecer situações seguras ou não ao longo da vida.

Marcília também reforça a importância do ensino sobre consentimento desde cedo. “Meu filho aprende que o corpo é dele, que pode dizer ‘não’ e que também deve respeitar o limite do outro.”

Na visão dela, o respeito é o principal indicador de um vínculo saudável. “Se a criança não quer abraço ou contato naquele momento, isso precisa ser respeitado. É assim que ela aprende sobre limites.”

O olhar da psicologia infantil

Gabriela Ribeiro, psicóloga clínica com atuação voltada ao público infantil e infantojuvenil, explica que, na primeira infância, a criança interpreta demonstrações de afeto de forma sensorial, associando gestos ao cuidado e à segurança. No entanto, ela reforça que o contexto é fundamental para que essas experiências sejam positivas.

"Selinho" nos filhos: entenda os riscos desse hábito polêmico
📷 |( Reprodução / arquivo pessoal )

“O beijo na boca é uma prática culturalmente associada ao universo adulto. Quando inserido na infância, pode gerar ambiguidades na compreensão dos limites corporais”, afirma Gabriela. Segundo a especialista, a construção da noção de limites acontece de forma gradual, dependendo das experiências vividas no ambiente familiar e social.

Ela explica que a criança aprende muito por imitação e ainda não possui recursos para diferenciar contextos. “Ela pode reproduzir comportamentos sem entender adequação ou significado social.” Esse comportamento imitativo é esperado no desenvolvimento infantil, mas reforça a necessidade de referências claras sobre o que é apropriado em cada tipo de relação.

A psicóloga infantil Gabriela Ribeiro alerta para possíveis impactos na construção de limites e no desenvolvimento da criança.
📷 A psicóloga infantil Gabriela Ribeiro alerta para possíveis impactos na construção de limites e no desenvolvimento da criança. |( Reprodução / arquivo pessoal )

Além disso, Gabriela alerta que, embora a criança não atribua conotação sexual ao gesto, outros indivíduos do seu entorno podem fazê-lo. “Tal descompasso entre a vivência infantil e a leitura adulta pode aumentar a vulnerabilidade da criança, especialmente se não houver uma delimitação clara sobre quais formas de afeto são próprias da infância e quais pertencem ao universo adulto”, explica.

Dessa forma, a especialista ressalta que o beijo na boca, ainda que em sua forma mais breve, não constitui uma prática adequada ao desenvolvimento infantil, por potencialmente comprometer a clareza na construção de limites corporais e na diferenciação das formas de expressão de afeto.

Gabriela destaca que a exposição precoce a práticas típicas do universo adulto pode impactar a construção de limites corporais ao longo do desenvolvimento. “Mais do que a intenção dos pais, é importante considerar os efeitos dessa prática na organização da experiência da criança”, acrescenta.

Para a psicóloga, formas de carinho claras e apropriadas à infância devem ser priorizadas pelos responsáveis. “Abraços e beijos no rosto são mais adequados e ajudam na construção de referências seguras”, orienta.

Outro ponto essencial é o respeito aos sinais da criança. “Mesmo sem verbalizar, ela pode demonstrar desconforto. É essencial observar e respeitar esses sinais”, afirma Gabriela, reforçando que a atenção às respostas da criança é fundamental para que ela se sinta segura e compreenda os limites do próprio corpo.

Saúde também entra na discussão

Além das questões emocionais e comportamentais, há também alertas médicos. A pediatra Camila de Araújo Simões Santos explica que o contato direto com a saliva pode transmitir doenças.

A pediatra Camila Santos destaca riscos à saúde e orienta cuidados no contato físico com crianças.
📷 A pediatra Camila Santos destaca riscos à saúde e orienta cuidados no contato físico com crianças. |( Reprodução / arquivo pessoal )

“Beijos na boca, no rosto ou nas mãos podem transmitir vírus e bactérias, especialmente em bebês e crianças pequenas”, alerta.

O cuidado com a saúde infantil, especialmente nos primeiros anos de vida, exige atenção redobrada, já que o sistema imunológico ainda está em formação. Entre os riscos estão doenças como herpes, gripe, COVID-19, mononucleose e até bactérias relacionadas à cárie.

"Selinho" nos filhos: entenda os riscos desse hábito polêmico
📷 |( Reprodução / arquivo pessoal )

A médica explica que o sistema imunológico das crianças ainda está em desenvolvimento. “Nos primeiros anos de vida, principalmente até os dois anos, a imunidade é mais frágil.”

Por isso, ela orienta alguns cuidados:

  • evitar contato direto quando o adulto estiver doente
  • manter boa higiene oral
  • higienizar as mãos com frequência

Apesar disso, reforça que o afeto físico é essencial. “O contato entre pais e filhos é fundamental para o bem-estar emocional. Mas pode ser demonstrado de outras formas seguras, como abraços e beijos na cabeça.”

Um debate que passa pelo respeito

O tema evidencia como a parentalidade envolve escolhas que vão além do afeto, passando por informação, valores e responsabilidade.

Entre diferentes opiniões, especialistas concordam que o mais importante é garantir que a criança cresça em um ambiente seguro, onde seus limites sejam respeitados e ela aprenda, desde cedo, sobre consentimento, autonomia e proteção.

Fonte: Dol e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 23/03/2026/10:06:23

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