Ritual de mais de 200 anos no Pará transforma cortejo fúnebre em celebração com música, fogos e cachaça

Em diferentes culturas, despedidas de entes queridos são marcadas por homenagens que incluem música e momentos de celebração. No Pará, essa tradição permanece viva na Vila de São João do Abade, em Curuçá, onde o ritual conhecido como “frete” transforma o cortejo fúnebre em uma homenagem à vida da pessoa falecida.
Preservado há mais de 200 anos, o costume voltou a chamar atenção nesta quarta-feira (08), após repercutir nas redes sociais durante o sepultamento da ex-vereadora Maria Paula Lobo. O cortejo, realizado conforme a tradição local, despertou a curiosidade de internautas sobre a origem e o significado da cerimônia.
Como surgiu a tradição do frete em Curuçá
O frete nasceu em uma época em que a comunidade não dispunha de estradas de fácil acesso ao centro da cidade nem de serviços funerários. Conforme registros históricos e relatos dos moradores mais antigos, os próprios habitantes construíam os caixões com madeira de marupá, uma árvore leve da Amazônia, e transportavam o corpo até o cemitério.
Foi desse contexto que surgiu o nome da tradição. Os moradores se consideravam “fretados”, ou seja, comprometidos pela comunidade com a responsabilidade de conduzir o falecido até o local do sepultamento. Atualmente, o percurso tem cerca de 4,5 quilômetros, ligando a Vila de São João do Abade ao Cemitério São Bonifácio, no centro de Curuçá.
Cortejo segue regras preservadas há gerações
O ritual mantém regras específicas. Nos primeiros quilômetros do trajeto, os homens carregam o caixão. Depois de um ponto determinado da estrada, ocorre a troca e as mulheres assumem o transporte até a chegada ao cemitério.
Durante todo o percurso, o cortejo segue acompanhado por música, fogos de artifício, caixas de som e distribuição de cachaça, reforçando o caráter de celebração da vida. A comunidade, porém, não realiza a tradição para qualquer morador. Pesquisadores locais explicam que a comunidade reserva o “frete” às pessoas que escolheram manter essa tradição ou que receberam essa promessa ainda em vida.
Ao chegar ao Cemitério São Bonifácio, os participantes interrompem a celebração. Assim que o cortejo atravessa os portões do local, cessam imediatamente os fogos de artifício e a distribuição de bebidas em respeito ao momento do sepultamento.
Sepultamento de ex-vereadora voltou a destacar o ritual
O frete realizado para Maria Paula Lobo, ex-vereadora de Curuçá, repercutiu nas redes sociais nesta quarta-feira (08). Ela foi sepultada na última terça-feira (7), seguindo a tradição preservada na Vila de São João do Abade.
Nas redes sociais, moradores destacaram o “legado de dedicação à vida pública e de contribuição ao desenvolvimento da cidade de Curuçá”. A advogada Leida Favacho, amiga da ex-vereadora, também compartilhou vídeos e fotografias do cortejo.
Em uma das publicações feitas no Facebook, ela escreveu: “Frete do jeitinho que ela pediu e mereceu!”
Fonte: Diário do Pará e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 09/07/2026/07:32:43
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