Professores de Ananindeua denunciam descontos indevidos e cogitam nova greve

As escolas da rede municipal de Ananindeua podem enfrentar uma nova paralisação nos próximos dias. O Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Pará (Sintepp) voltou a mobilizar a categoria e ameaça deflagrar uma nova greve. A entidade alega que a Prefeitura descumpriu o acordo firmado após a grande paralisação realizada em março deste ano. Além da cobrança pelo pagamento de direitos retroativos congelados durante a pandemia de Covid-19, os professores denunciam atrasos salariais e descumprimento do Plano de Cargos, Carreira e Remuneração (PCCR). Também denunciam descontos considerados indevidos nos contracheques e até pressão para que custeiem eventos escolares com recursos próprios.
A possibilidade de uma nova greve reacende um conflito que já provocou impactos significativos na educação municipal em 2026. Em março, os professores promoveram uma das maiores mobilizações da história recente da categoria em Ananindeua. A paralisação incluiu a ocupação da sede da Prefeitura e manifestações em frente à Secretaria Municipal de Educação (Semed). Houve também bloqueios da BR-316, principal corredor de acesso à Região Metropolitana de Belém. Após dias de negociações, representantes do Sintepp e da administração municipal anunciaram um acordo que levou ao encerramento da greve. Passados poucos meses, porém, o sindicato afirma que boa parte dos compromissos assumidos pela gestão não foi cumprida. Isso voltou a elevar a tensão entre servidores e o Executivo municipal.
Acordo firmado após a greve está no centro da crise
O principal ponto de conflito envolve o pagamento dos direitos funcionais congelados durante a pandemia de Covid-19, entre maio de 2020 e dezembro de 2021. A reivindicação ganhou respaldo legal após a sanção da Lei Complementar nº 226/2026, conhecida como Lei do Descongela. Essa lei autorizou estados e municípios a restabelecerem e pagarem retroativamente vantagens funcionais suspensas durante a pandemia. Segundo o Sintepp, aproximadamente 1.500 profissionais da educação de Ananindeua aguardam o pagamento desses retroativos.
Entre os compromissos assumidos pela Prefeitura no acordo firmado em março estavam: o descongelamento e pagamento retroativo dos quinquênios e triênios suspensos durante a pandemia. Incluía também o pagamento das progressões horizontais e verticais acumuladas na carreira e a regularização de direitos previstos no Plano de Cargos, Carreira e Remuneração (PCCR). Além disso, houve a regulamentação da destinação de 50% dos juros dos precatórios do Fundef aos profissionais da educação.
O sindicato afirma que, após a mudança de comando da Prefeitura em 2026, com a saída de Daniel Santos e a posse do prefeito Hugo Atayde, os termos pactuados deixaram de ser executados. Portanto, isso motivou uma nova onda de protestos.
Embora tanto a Prefeitura quanto o Sintepp ainda não tenham divulgado o valor total da dívida, os cálculos variam de servidor para servidor. Isso porque os retroativos dependem do tempo de serviço, das progressões conquistadas e da posição ocupada no Plano de Cargos. Professores mais antigos acumulam valores significativamente superiores aos dos servidores recém-ingressos na rede.
Histórico de desgaste aumenta tensão
A cobrança pelos retroativos não é o único motivo de insatisfação da categoria. Desde o início do ano, o relacionamento entre professores e Prefeitura de Ananindeua vem sendo marcado por sucessivos conflitos. Ainda em março, durante a greve, os servidores também reivindicavam o pagamento de salários atrasados. Também cobravam o cumprimento do reajuste salarial de 8%. Na avaliação do Sintepp, diversos acordos firmados ao longo das negociações permaneceram apenas no papel.
Outro foco permanente de atrito envolve o Plano de Cargos, Carreira e Remuneração. O sindicato afirma que progressões funcionais deixaram de ser implantadas e que compromissos assinados com a categoria não foram integralmente cumpridos.
Além disso, o Sintepp denuncia descontos considerados indevidos nos contracheques de mais de dois mil servidores da educação. Essa situação, segundo a entidade, já foi levada aos órgãos de controle para apuração.
Professores denunciam pressão para bancar eventos escolares
Nos últimos dias, uma nova denúncia ampliou o desgaste entre a categoria e a administração municipal. Durante manifestação realizada em frente à Prefeitura, representantes do Sintepp afirmaram que professores estariam sendo obrigados a utilizar recursos próprios para financiar eventos pedagógicos, culturais e comemorativos promovidos pelas escolas.
Segundo o sindicato, os educadores são pressionados a contribuir financeiramente para compra de materiais, decoração, brindes e demais itens utilizados nas atividades. Posteriormente, essas atividades são divulgadas nas redes sociais oficiais do município.
A entidade também afirma que profissionais que se recusam a participar das arrecadações internas sofrem represálias. As represálias incluem ameaças de transferência de escola, assédio moral e, no caso de servidores temporários, risco de exoneração.
Para o sindicato, a prática representa um desvio da responsabilidade do poder público e impõe aos trabalhadores despesas que deveriam ser custeadas pela administração municipal. Com o impasse sem solução e diante da alegação de descumprimento do acordo firmado após a greve de março, o Sintepp já sinaliza que poderá convocar uma nova paralisação caso as reivindicações continuem sem resposta. A reportagem procurou a Prefeitura de Ananindeua para comentar as denúncias apresentadas pelo Sintepp. No entanto, não houve posicionamento da administração municipal.
Fonte: Diário do Pará e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 09/07/2026/07:32:43
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