Produtora de filme sobre Bolsonaro funcionava em casa de sócio no EUA

A produtora responsável por Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), transferiu sua sede de uma residência nos subúrbios de Raleigh, na Carolina do Norte (EUA), para um prédio comercial poucos dias após o local ser visitado pela BBC News Brasil e em meio ao avanço das investigações da Polícia Federal sobre o financiamento do longa-metragem. A produção já consumiu cerca de US$ 13,3 milhões (aproximadamente R$ 75 milhões), segundo seus responsáveis, e passou a ser alvo de apurações sobre a origem dos recursos.

A mudança de endereço ocorreu em 3 de junho, cinco dias depois de a reportagem visitar a antiga sede da empresa, localizada na casa onde mora um dos sócios, o produtor Michael Brian Davis. A alteração coincidiu com o aumento da repercussão das investigações envolvendo o financiamento do filme, embora a produtora não tenha explicado oficialmente o motivo da mudança.

Até então, a Go Up Entertainment LLC funcionava em uma casa de dois andares em um bairro residencial de Raleigh. No imóvel, a reportagem encontrou equipamentos de edição de vídeo, móveis e objetos pessoais, mas nenhuma identificação externa que indicasse o funcionamento de uma empresa responsável por uma produção cinematográfica milionária.

Especialistas da indústria audiovisual ouvidos pela BBC News Brasil afirmaram, sob condição de anonimato, que produtoras instaladas em imóveis residenciais não são incomuns em projetos independentes ou de pequeno porte. No entanto, destacaram que esse tipo de estrutura foge do padrão esperado para produções com orçamento elevado, como o de Dark Horse.

Segundo informações divulgadas pelos produtores, o filme já consumiu cerca de US$ 13,3 milhões. O orçamento, entretanto, ainda é motivo de questionamentos. Reportagens apontam que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria solicitado US$ 24 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção.

O caso passou a ser investigado pela Polícia Federal após revelações de que Vorcaro, preso por suspeitas de crimes contra o sistema financeiro nacional, teria transferido ao menos US$ 12 milhões destinados ao filme. Também vieram a público mensagens nas quais Flávio Bolsonaro pedia recursos ao empresário.

Flávio afirma que não cometeu irregularidades e sustenta que sua atuação limitou-se à captação privada de investimentos para viabilizar o projeto, sem utilização de recursos públicos. Segundo sua defesa, a relação com Vorcaro era exclusivamente comercial.

Produtora de filme sobre Bolsonaro funcionava em casa de sócio no EUA

As investigações também analisam a participação do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Documentos revelados apontam que ele assinou contrato como produtor executivo do filme, com atribuições relacionadas à gestão financeira da produção.

Após negar qualquer ligação com os recursos investigados, Eduardo admitiu ter investido R$ 350 mil no projeto, afirmando que recebeu o valor de volta quando novos patrocinadores passaram a financiar o longa. Segundo ele, nenhuma quantia proveniente de Daniel Vorcaro ou de fundos ligados ao banqueiro foi destinada à sua permanência nos Estados Unidos.

Em nota enviada à BBC News Brasil, Michael Brian Davis afirmou que é comum produtoras independentes manterem estruturas administrativas enxutas e que o tamanho da sede não representa a dimensão real da operação cinematográfica. Segundo ele, grandes filmes costumam ser produzidos por meio de equipes temporárias, fornecedores e empresas parceiras espalhadas por diferentes localidades.

Apesar da justificativa, profissionais do setor afirmam que uma estrutura semelhante à observada na antiga sede da Go Up costuma ser mais compatível com produtoras voltadas a curtas-metragens, vídeos institucionais ou publicidade de pequeno porte, e não com uma produção internacional de dezenas de milhões de reais.

A Polícia Federal avalia abrir diferentes frentes de investigação relacionadas ao financiamento de Dark Horse. Entre elas estão a origem dos recursos utilizados no filme, a possibilidade de parte do dinheiro ter sido destinada à permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e a eventual utilização indireta de recursos públicos por meio de entidades ligadas à produtora.

Outra linha de apuração envolve organizações presididas pela empresária Karina Ferreira da Gama, sócia da Go Up Entertainment. As entidades receberam recursos por meio de emendas parlamentares e também firmaram contratos milionários com o poder público, fatos que passaram a integrar as investigações conduzidas pelas autoridades.

Os responsáveis pela produtora negam qualquer irregularidade e afirmam que a empresa administrou o orçamento da produção sem conhecimento sobre a origem dos recursos investigados. Até o momento, as apurações seguem em andamento e não há conclusão definitiva sobre o caso.

Fonte: dol e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 10/07/2026/07:28:22

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