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‘Ouro branco da Amazônia’: como o látex transformou Belém na ‘Paris n’América’ e explorou os trabalhadores da borracha

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Durante o primeiro ciclo da borracha (1879-1912), a extração de látex das seringueiras consolidou Belém como polo exportador, graças à sua localização portuária privilegiada em relação à Europa.

A historiadora Laura Silva, da Universidade Federal do Pará (UFPA), explica que a riqueza gerada pavimentou avenidas arborizadas, palacetes, monumentos e edifícios emblemáticos.

Muitos pesquisadores encontram, principalmente nos jornais da época, essa referência de uma cidade reconhecida como Paris na América

Mas, enquanto Belém ganhava traços europeus na Belle Époque, a situação de quem extraía o látex era de extrema precariedade e exploração.

Formados em grande parte por migrantes nordestinos, eles enfrentavam más condições de vida e um sistema de endividamento que os prendia aos patrões.

Segundo Laura, o retorno econômico do látex não ia para o trabalhador que estava lidando diretamente com o saber ancestral da floresta, mas para as classes econômicas dominantes.

Esta é a primeira reportagem da série especial “Látex: O Ouro Branco da Amazônia”. Dividida em três partes, as matérias abordam sobre o aprendizado deixado pela exploração do látex em Belém; como mulheres transformam a seiva da borracha em joias orgânicas; e a empresa que produz calçados ecológicos usando látex e açaí.

Nesta reportagem você vai ler:

  • Matéria-prima da borracha natural
  • Modelo de exploração bruta
  • Sem valorização do saber ancestral

Matéria-prima da borracha natural 

A seringueira (Hevea brasiliensis), nativa da Amazônia, cresce rápido e se adapta a diversos climas e solos brasileiros.

Segundo a engenheira agrônoma Herica Oliveira, da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), a árvore se adaptou bem ao clima tropical úmido ou superúmido do Pará.

A professora explica que o látex, líquido leitoso extraído da casca da seringueira, vira borracha por meio de coagulação espontânea ou por processos químico-industriais.

Herica diz ainda que a borracha produzida a partir do látex natural possui características que não podem ser obtidas nas borrachas sintéticas.

A borracha é utilizada para vários produtos como pneus, luvas cirúrgicas e domésticas, preservativos, balões, bicos de mamadeira, espumas para colchões, solados de sapato, adesivos e até peças automotivas

— explica a professora Herica.

A pesquisadora afirma ainda que a vida útil produtiva de uma seringueira é de cerca de 30 a 35 anos.

Modelo de exploração bruta

A historiadora Laura Silva, da UFPA, diz que as transformações ocorridas na virada do século XIX para o XX, no período chamado de Belle Époque, impulsionaram uma demanda global por borracha.

Segundo ela, inovações tecnológicas como automóveis, bicicletas e o início da aviação fizeram com que a Amazônia se tornasse um polo de extração intensiva de látex.

Laura Silva afirma que a importância de Belém não era por ter as maiores reservas de seringueiras da Amazônia, mas por ser a porta de entrada e saída da borracha.

“Belém se colocou como polo exportador principalmente devido à sua localização geográfica e também pela abertura do rio Amazonas para a navegação estrangeira”.

Porém, a extração do látex era voltada puramente para o lucro imediato, por meio da exportação do produto bruto para outros países, principalmente para a Europa.

A professora diz que esse modelo não agregava valor local e não trazia benefícios econômicos reais para quem realizava o trabalho na floresta.

“Muitas vezes, esse látex (após ser extraído, coagulado e moldado em bolas esféricas) ia para o exterior para ser industrializado, ajudar na produção, por exemplo, de uma bicicleta, e retornava para ser consumido aqui, tornando-os muito mais caros”, comenta.

Sem valorização do saber ancestral

A pesquisadora da UFPA reconhece o legado arquitetônico e cultural deixado pelo ciclo da borracha, mas ressalta que ele foi construído sobre um modelo que ignorava o saber tradicional dos trabalhadores da floresta.

Segundo ela, era um modelo que ignorava o saber ancestral e a cultura de quem lidava diretamente com a extração do látex das seringueiras.

Laura Silva defende que a valorização desses saberes é essencial para preservar a floresta e reparar a desigualdade histórica.

Para Laura, o declínio da extração bruta de látex para exportação, após sementes de seringueiras serem levadas para a Ásia e plantadas de forma industrial e mecanizada, deixa algumas lições para o presente.

Nosso aprendizado, nesse contexto, seria justamente trazer um retorno para quem domina o saber da extração do látex diretamente das seringueiras

Fonte: G1 e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso em 25/02/2026/13:22:47

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