“Mulher vota mal, principalmente as solteiras”: fala de influenciador bolsonarista gera crise política

Desde 2000, as mulheres passaram a ser maioria do eleitorado brasileiro segundo dados da Justiça Eleitoral, o que significa que, em outubro, mais de 50% de quem vai às urnas escolher seus representantes, faz parte do público feminino. Esse dado revela a dimensão desastrosa que uma declaração dada pelo empresário e influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo sobre o voto feminino pode causar nas eleições de 2026.
“Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras não…” , foram as palavras declaradas e registradas pelo neto do general e ex-presidente João Batista Figueiredo – aquele que afirmava preferir o cheiro de cavalo do que o cheiro do povo.
A reação do autor da frase, que carrega fortes traços de misoginia, foi ainda pior: ao responder às críticas, Paulo Figueiredo elevou o tom com expressões ofensivas dirigidas às feministas: “Podem arrancar os pentelhos das calcinhas, fazer o que quiser, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos, mas eu quero dizer a vocês: isso é estatística.”
Em resposta, a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) tomou uma atitude jurídica imediata ao acionar a Procuradoria-Geral da República (PGR) com uma notícia-crime contra o influenciador.
Reação política e jurídica
Ela classificou o episódio de forma contundente: “O que vimos não foi uma crítica política, foi um ataque misógino explícito que tenta desqualificar a inteligência, a autonomia e a própria cidadania das mulheres. Esse tipo de declaração configura violência política de gênero pura e simples, uma tática rasteira para afastar a mulher dos espaços de poder. Não aceitaremos o papel de figurantes; acionei a PGR para que as instâncias penais deem uma resposta pedagógica a esse absurdo.”Crise política
As declarações de Figueiredo abriram uma das mais intensas crises políticas dentro do campo conservador brasileiro durante a pré-campanha presidencial de 2026, já que as mulheres somam exatos 53% do eleitorado, o que as tornam decisivas em qualquer disputa presidencial.
As falas do influenciador provocaram reação de aliados da direita, reacenderam discussão sobre direitos políticos das mulheres e colocaram em evidência um discurso que especialistas apontam como incompatível com princípios constitucionais.
As declarações foram feitas durante críticas à atuação da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na presidência do PL Mulher e repercutiram imediatamente dentro do próprio grupo político.
O senador Flávio Bolsonaro classificou as falas como “completamente equivocadas” e afirmou publicamente que Paulo Figueiredo não integra sua campanha presidencial. Mas o desastre já estava consolidado.Rejeição entre a maioria dos brasileiros
Rejeição popular e debate constitucional
A controvérsia rapidamente extrapolou o ambiente político e foi registrada em recente pesquisa divulgada pelo instituto Meio/Ideia, que mostrou que a maioria da população rejeitou as declarações do influenciador.
Segundo o levantamento, cerca de seis em cada dez brasileiros discordam da afirmação de que mulheres votam pior que homens. Ao mesmo tempo, o estudo revelou diferenças relevantes entre homens e mulheres na percepção sobre o tema, evidenciando que o debate ultrapassa a disputa eleitoral e alcança questões culturais relacionadas à igualdade de gênero.
Embora 60% dos brasileiros discordem da fala do influenciador, 24% dos homens concordam com a tese machista de que as mulheres votam mal.
O episódio ocorreu justamente em um momento em que o eleitorado feminino é considerado estratégico para a eleição presidencial de outubro. Desde a conquista do sufrágio feminino, oficializada pelo Código Eleitoral de 1932, a participação política das mulheres passou por uma expansão contínua, tornando-se um dos pilares da democracia brasileira.
Hoje, qualquer tentativa de desqualificar o voto feminino desperta preocupação entre especialistas em Direito e Ciência Política por atingir um dos fundamentos da cidadania.Direito constitucional
Para constitucionalistas, o debate vai além de uma manifestação ofensiva. O voto universal integra o núcleo protegido da Constituição Federal. O artigo 60, parágrafo 4º, estabelece como cláusula pétrea o voto direto, secreto, universal e periódico, impedindo alterações que eliminem esse direito.
Na avaliação de juristas, discursos que busquem restringir ou relativizar direitos políticos de grupos específicos confrontam princípios constitucionais como igualdade, cidadania e dignidade da pessoa humana.
Especialistas ressaltam, entretanto, que manifestações dessa natureza devem ser analisadas dentro do equilíbrio entre liberdade de expressão e eventual responsabilização civil, eleitoral ou penal, conforme cada caso concreto.
“A democracia constitucional existe justamente para impedir que maiorias retirem direitos de minorias”, declarou o constitucionalista Oscar Vilhena Vieira, jurista, cientista político e professor brasileiro reconhecido por sua atuação em direito constitucional, direitos humanos e instituições democráticas. Vilhena é uma das principais referências acadêmicas brasileiras nesses temas, com trajetória que combina pesquisa, ensino, gestão universitária e participação em debates públicos sobre o Estado de Direito.
Histórico de ataques misóginos
O neto dos ex-presidente Figueiredo já proferiu ataques misóginos à ministra do Supremo Tribunal Federal, Carmem Lúcia. Em setembro de 2025 o influenciador bolsonarista usou as redes sociais, para atacar a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), após ela votar pela condenação de Jair Bolsonaro no julgamento do STF.
Em publicação no X (antigo Twitter), Figueiredo comparou a magistrada a uma “aluna que apresenta um trabalho sem tê-lo feito”. “Carmen Lúcia é claramente a coleguinha que está tendo que apresentar um trabalho para a turma que não foi ela que fez. Completamente insegura”, escreveu o aliado da família Bolsonaro.Discurso que não surge isolado
As declarações de Paulo Figueiredo também reacenderam o debate sobre a repetição de discursos considerados discriminatórios dentro da extrema-direita brasileira. Ao longo da última década, diferentes lideranças conservadoras protagonizaram episódios envolvendo declarações classificadas como misóginas, racistas ou homofóbicas.
Entre os casos mais conhecidos estão, por exemplo, declarações do ex-presidente, Jair Bolsonaro que, em 2014, em debate no Plenário da Câmara dos Deputados com a então deputada Maria do Rosário, chamou-a de “feia” e que ela “não merecia” ser estuprada. Em 2017, a “vítima” foi a própria filha do ex-presidente, ao afirmar que o nascimento de sua filha teria sido uma “fraquejada”.
As declarações misóginas não se limitam à família Bolsonaro. Seus aliados, como o ex-deputado estadual e youtuber, Arthur do Val, conhecido como “mamãe falei”, que declarou, em 2022, em meio à guerra da Ucrânia, quando mulheres se tornaram vítimas de estupros, que as ucranianas refugiadas eram “fáceis porque são pobres”.
Do Val acabou sendo julgado após o envio dos áudios sexistas, e, por unanimidade, teve seu mandato cassado na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e está inelegível até 2030.
Em 8 de março de 2023, Dia Internacional da Mulher, outro aliado da família Bolsonaro – o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), declarou na tribuna do plenário da Câmara Federal que as mulheres estariam “perdendo seu espaço para homens que se sentem mulheres” e que estariam querendo “impor uma realidade que não é a realidade”. Nikolas usou uma peruca loira e afirmou, ironicamente, que se sentia mulher — a “deputada Nikole”. Nesse caso, não houve punição para o parlamentar mineiro.
Essa atitude também ganha tração ideológica. O partido Missão (ligado ao MBL) e que tem Renan Santos como candidato à Presidência da República, chegou a publicar cartilhas sobre a “democracia familiar”, um conceito que flerta com o fim do voto puramente universal e individual para dar lugar ao voto unificado por núcleo familiar, tradicionalmente chefiado pelo homem.
Fonte: Diário do Pará e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 09/07/2026/07:32:43
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