Afinal, hoje, quem está ganhando essa guerra? O regime iraniano parece tentar sobreviver aos ataques e exaurir os adversários criando desgaste político e econômico. Vitelio Brustolin é professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense e pesquisador de Harvard:
“A estratégia do Irã é exatamente essa: tornar a guerra muito cara para o atacante. É a dissuasão pelo custo da guerra. E tem conseguido, sim, tirar vantagem disso. E tem ainda um estoque considerável de mísseis”.
O Jornal Nacional entrevistou também o acadêmico iraniano Hooshang Amirahmadi, que tentou três vezes se candidatar à Presidência do Irã. Hoje, vive em Nova York e defende uma abertura maior do país:
“Eu não diria que o Irã está vencendo a guerra, mas está conseguindo contê-la bem, usando suas armas. No fim das contas, o Irã não tem bomba nuclear, mas tem algo mais eficaz: o Estreito de Ormuz”.
Muitos especialistas falam que o Irã vinha se preparando para uma guerra desse tamanho havia quase 40 anos, desde o primeiro grande teste militar depois da Revolução Islâmica: a Guerra Irã-Iraque, de 1980 a 1988. Depois daquela guerra, o Irã pensou no longo prazo. Ainda que a figura de um líder supremo sugira o oposto, o regime descentralizou a cadeia de comando; criou um sistema com muitos substitutos. É só reparar no que está acontecendo agora.
Já no primeiro dia da guerra, Estados Unidos e Israel eliminaram a cúpula do regime. Além do líder supremo Ali Khamenei, também foram mortos o ministro da Defesa, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e o comandante da Guarda Revolucionária. Em poucos dias, quase todos já tinham sido substituídos.
O filho de Khamenei, Mojtaba, virou o novo líder do país. O chefe do Conselho de Segurança Nacional, Ali Larijani, foi morto pouco depois, assim como o ministro da Inteligência. Os dois também já foram substituídos. O comandante da Marinha da Guarda Revolucionária e o responsável pela unidade de repressão aos protestos internos também foram mortos, mas as forças continuaram atuando.
“Qualquer general que seja morto, logo aparece outro no lugar, e depois mais outro. Lembre-se: há cerca de 300 mil nas forças militares e na Guarda Revolucionária, e quase 500 mil no Exército. Então, embora a estrutura vertical tenha sido desmantelada, a estrutura horizontal foi ampliada e fortalecida”, afirma Hooshang Amirahmadi.
E o que vai decidir essa guerra? Armamento ou economia?
“É bastante improvável que todos os mísseis do Irã sejam destruídos. Eles estão espalhados pelo território do Irã, muitos deles em abrigos subterrâneos sob montanhas”, diz Vitelio Brustolin.
O iraniano lembra que muitos americanos estão perdendo economias com a queda dos mercados e, por isso, a pressão sobre Donald Trump vem também do público interno. Os especialistas consideram improvável que Estados Unidos e Israel atinjam um de seus principais objetivos: derrubar o regime dos aiatolás.
“Historicamente, nunca houve uma troca de regime sem tropas no terreno. Então, só bombardeios aéreos não trocam regimes”, afirma Vitelio Brustolin.
Hooshang Amirahmadi argumenta que a única solução é Estados Unidos e Israel se retirarem da guerra e, então, oferecerem ao Irã uma negociação abrangente.
Fonte: G1 e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 31/03/2026/14:12:01
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