Para chegar ao trabalho, na Rua Alice, em Laranjeiras, Leandro Silva Sousa, de 30 anos, percorria uma distância de pouco mais de dois quilômetros. Ele acostumava acordar por volta das 7h para chegar ao restaurante Tasca do Edgar, onde era ajudante de cozinha, às 8h30. E não havia atrasos, como contou seu chefe ao GLOBO. Na manhã de quarta-feira, no entanto, a rotina foi interrompida antes que ele pudesse colocar o uniforme. Ainda de pijamas e ao lado da viúva, Roberta Ferro Hipólito, ele foi surpreendido com a entrada de traficantes por uma das janelas da casa, no Morro dos Prazeres. Armas foram jogadas por debaixo da cama do casal, enquanto policias militares cercavam o imóvel. O que aconteceu depois tem versões diferentes contadas pela Polícia Militar e por Roberta, a única sobrevivente. Na residência, ficaram marcas de tiros, sangue e pedaços de corpos espalhados.
Leandro, na verdade, é de Milton Brandão, cidade com cerca de 6.500 habitantes no norte do Piauí, na Região Nordeste. Ele se mudou para o Rio de Janeiro há 10 anos, em busca de melhores oportunidades e, pelo menos há 7, trabalhava em comércios da Zona Sul. Roberta, também piauiense, casou-se com ele em 2022. Os dois moravam juntos no Morro dos Prazeres, onde ocorreu a operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) contra roubos de veículos e o tráfico de drogas, como divulgou a corporação. Na ação, sete suspeitos de integrarem o Comando Vermelho foram mortos, incluindo Cláudio Augusto dos Anjos, o Jiló, chefe da região. Após o crime, a família de Leandro planeja abrir uma vaquinha de apoio ao translado do corpo à cidade natal, onde ele será enterrado.
“Eles entraram já atirando”
Roberta chegou ao IML ainda na quarta-feira para liberar o corpo do marido, mas foi informada de que apenas poderia fazê-lo nesta quinta, junto a peritos do Ministério Público designados para acompanhar o exame de necropsia feito por legistas da Polícia Civil. Ela teve picos de pressão e chegou a desmaiar duas vezes, sendo amparada pelo irmão de Leandro, Ivanildo Sousa, e o chefe dele no Tasca, Leandro Bezerra.
— Ela está muito abalada, não sei nem descrever. Estava passando muito mal, nervosa com tudo. Eu falei com ela que não era a hora do Leandro ir… ele era muito novo, tinha muitos sonhos a realizar. Queria ser pai, inclusive. Eu não tenho críticas a ele, sempre foi um dos meus funcionários mais exemplares. Tranquilo, sem vícios, não arranjava problema com nada. A gente sempre vê notícias assim acontecendo na cidade, mas é diferente quando é com alguém que conhecemos — expõe Leandro.
Segundo ele, Roberta narrou que quatro traficantes entraram na casa por uma das janelas. Eles se esconderam no quarto e, sem que houvesse negociação ou troca de tiros, policiais do Bope adentraram o imóvel e efetuaram disparos, matando os criminosos e atingindo Leandro na cabeça.
— Ela disse que gritou aos policiais que tinham moradores na casa, mas não adiantou. Eles entraram já atirando. Leandro caiu sobre a Roberta, e ela sobre um dos traficantes. O Jiló, esse chefe que morreu, não estava lá, eram outros traficantes — completa.
Ivanildo, além de irmão, é vizinho de Leandro e Roberta. Ele conta ter ficado deitado no chão da casa, junto a esposa e filhos, ouvindo o que acontecia do outro lado.
— Os bandidos quebraram a janela da casa do meu irmão, jogaram as armas debaixo da cama e pediram para ele e a Roberta ficarem quietos. Disseram que não iriam sair se a polícia pedisse, mas também não reagiriam se a polícia entrasse. Mas eu afirmo, não houve nenhuma negociação. O que eu ouvi, da minha casa, foi os agentes pedindo para os criminosos saírem, dizendo que estavam cercados. Depois, ele arrombaram a porta e mataram um por um, incluindo meu irmão. Não teve estratégia, nem paciência. Foram assassinatos brutais. — detalhou.
Negociação de 15 minutos
Em coletiva de imprensa após a operação, o tenente-coronel Marcelo Corbage, comandante do Bope, afirmou que os agentes só entraram na casa de Leandro após ouvirem disparos.
— A gente estava buscando solução pacífica, mas houve disparos de dentro da residência, e o senhor Leandro levou o primeiro PAF (perfuração de arma de fogo) na região da cabeça. Nossa tropa respondeu com fogo, onde houve a ação de neutralização dos criminosos. Conseguimos tirar a dona Roberta em segurança, em estado de choque — disse.
Diferentemente da versão da viúva e de Ivanildo, Corbage destacou que os seis traficantes mortos estavam na casa do casal, e não apenas quatro. Além disso, reforçou que houve uma negociação de 15 minutos enquanto Leandro e Roberta eram mantidos reféns no quarto.
Fonte: G1 e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 19/03/2026/13:50:21
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