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‘Calçados da floresta’: látex e caroço de açaí viram matéria-prima para sapatos sustentáveis feitos na Amazônia

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O paranaense Francisco Samonek fundou em 2018 a Seringô, empresa com sede em Castanhal, no nordeste do Pará, dedicada ao beneficiamento da borracha por meio da venda de sapatos ecológicos.

Na região desde 1982, quando veio trabalhar em um projeto de incentivo ao plantio de seringueira, Francisco afirma que a Amazônia vive um novo ciclo da borracha.

Segundo ele, a atual cadeia de negócios da borracha na Amazônia é mais vantajosa que a da soja, por não destruir o meio ambiente e valorizar o trabalho das populações locais.

Fico muito feliz em estar fazendo parte disso, de impulsionar esse processo e fazer com que as pessoas acreditem nessa mudança

Durante a COP 30, realizada em novembro de 2025, em Belém, a marca patrocinou, com apoio do Banco do Brasil, 1.500 pares de tênis para os voluntários que atuaram no evento.

Nesta reportagem você vai ler:

  • Calçados feitos com produtos da floresta
  • Valorização da unidade familiar
  • Propósito de vida

Calçados feitos com produtos da floresta 🌳

Os sapatos da Seringô unem saberes tradicionais dos povos da floresta a inovações químicas modernas.

O processo começa com a extração de 10 litros de látex por dia pelo seringueiro. Depois, o líquido é então vulcanizado: processo que confere solidez e elasticidade à borracha.

Francisco criou a vulcanização artesanal como alternativa aos modelos industriais. Patenteada pela Seringô, a técnica é ensinada às comunidades, com insumos vulcanizantes distribuídos gratuitamente

“Foi um trabalho de muita pesquisa, com a ajuda de químicos, para ver quais produtos poderiam ser usados e como transformá-los de forma artesanal, dando acesso ao seringueiro na Amazônia, que muitas vezes não tem luz nem máquina”, explica.

A empresa compra apenas o excedente de látex coletado pelo seringueiro. A prioridade é que as famílias usem a seiva da borracha para a produção de joias e artesanato.

O látex comprado é transformado em chamado Cernambi Virgem Ecológico (CVE), borracha pura e sem cheiro que dispensa o uso de água na limpeza, ao contrário do modelo industrial, que gasta até 20 litros por quilo.

Entre as inovações, Francisco descobriu no caroço do açaí um material que ajuda a evitar o encolhimento da borracha. O fruto popular entre os paraenses passou a integrar a composição do solado dos calçados.

Cheguei à conclusão de que o caroço do açaí evitava encolhimento da borracha. Hoje faço a sola do nosso tênis sem medo dela encolher

— explica.

Os caroços descartados pelas indústrias são triturados em micropartículas finas, como talco, e misturados à borracha natural.

A montagem usa ainda tecido e barbante de algodão orgânico, resinas vegetais e sílica mineral para fazer logos, palmilhas, cadarços e forros. Esses materiais substituem minerais e derivados de petróleo usados na fabricação dos calçados convencionais.

Valorização da unidade familiar 👟

O trabalho da Seringô se integra às ações do Polo de Proteção da Biodiversidade e Uso Sustentável dos Recursos Naturais (Poloprobio), uma ONG fundada por Francisco em 1998.

  • 👣 Seringô: braço econômico, com foco na produção e venda de calçados.
  • 💡 Poloprobio: ênfase no desenvolvimento social, proteção ambiental e capacitação gratuita das comunidades.

Ambas instituições têm como públicos os povos indígenas, seringueiros, ribeirinhos e quilombolas, valorizando a unidade familiar.

As capacitações do Poloprobio beneficiam 1.600 famílias: homens aprendem a colher látex e vulcanizar; mulheres, a fazer artesanato e biojoias.

A parceria entre Poloprobio e Seringô têm gerado dignidade ao trabalho extrativista, proteção familiar, mais qualidade e valor aos produtos, economia local fortalecida e menor impacto ambiental.

Para Francisco, o modelo inverte a lógica dos ciclos da borracha. Enquanto o mercado paga R$ 3 a R$ 4 pelo quilo de borracha bruta, a Seringô paga R$ 20 diretamente ao produtor.

“A tecnologia social permite que as mulheres produzam artesanato e biojoias em casa. Essa independência financeira as protege de abusos e do jugo do marido, permitindo que tomem as rédeas da economia doméstica”, afirma.

Propósito de vida 💚

Aos 75 anos, Francisco se sente realizado na Amazônia. Após vender propriedades no Paraná e migrar para o Norte em 1982, nunca abandonou seu propósito: a borracha.

Chamado de “doido” por acreditar na retomada da borracha natural, ele afirma que a floresta é sua maior fonte de motivação.

“A Amazônia é um refúgio necessário para a qualidade de vida do planeta, e não há atividade melhor para conservá-la do que a borracha”, diz.

Proprietário da Seringô e do Poloprobio, ele se define como empreendedor social, captando recursos para financiar pesquisas sobre a borracha e fazer capacitações gratuitas junto às comunidades cadastradas.

Muita gente diz que não circula sangue nas minhas veias, mas sim látex. E faz sentido, porque vivo a borracha e a Amazônia 24 horas por dia. Minha vida inteira se resume a viver a borracha e a Amazônia

Fonte: G1 e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso em 27/02/2026/08:45:51

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