Vítima conta como sobreviveu a 20 facadas do ex: “Fingi estar morta”

No dia do crime, sobre o qual Carol afirmou nunca ter imaginado que poderia acontecer, Alef a procurou sugerindo uma conversa.
Ela havia terminado o namoro, como em outras ocasiões, mas, daquela vez considerava a decisão definitiva, ainda mais que o agora condenado estava se relacionando com outra pessoa. “Naquele dia eu respondi para ele que não queria mais, para ele me deixar em paz, e ele insistiu em me encontrar. Aí falei, tudo bem. Vamos em um restaurante, em um bar, perto da minha casa e, lá, você fala o que tem que falar, para a gente encerrar [o assunto]”.
Antes disso, a empresária foi trabalhar e, no fim do dia, encontrou com Alef em um bar — seguindo orientação de sua terapeuta, para que a conversa ocorresse em um local público, com mais pessoas no entorno, garantindo a segurança de Caroline.
“Já estava alterado”
Assim que chegou no bar, Alef já estava lá e, como relatou a vítima, “estava alterado emocionalmente”.
O criminoso então falou que Caroline havia acabado com a vida dele, que não conseguia viver sem ela, e não aceitava aquilo. Em pouco tempo, as lamentações evoluíram para ofensas verbais.
Diante da postura do ex, a empresária se levantou, afirmando que não iria passar por aquilo. Reforçou que o relacionamento estava já encerrado e se retirou.
Como morava por perto, decidiu voltar para casa caminhando, mas foi interrompida por uma forte pressão em um dos braços.
“Ele saiu do restaurante, pegou no meu braço e começou a gritar comigo. Dizendo que eu ia ver do que ele era capaz. Que não ia ficar assim. Que eu não podia fazer isso com ele”.
O escândalo chamou a atenção de pedestres, intimidando o criminoso que, antes de desaparecer, sentenciou: “você vai ver o que eu vou fazer”.
Um casal testemunhou a agressão verbal e acompanhou Caroline até em casa, acreditando que iria garantir a integridade dela.
Oculto nas trevas
A vítima estranhou que, com somente uma volta da chave, abriu a porta de seu apartamento, o qual sempre trancava com dois giros na fechadura.
Alef estava dentro do apartamento, oculto em meio às trevas, aguardando Caroline. Ela havia trocado a fechadura há um mês e, até hoje, não sabe explicar como ele entrou, sem arrombar a porta. Quando acendeu a luz, constatou a invasão.
Ele continuava “muito alterado”, acrescentou, mexendo as mãos e se movimentando de um lado para o outro, próximo à gaveta na qual Caroline guardava facas. A cozinha do apartamento era integrada com a sala.
A empresária questionou o motivo para ele estar ali e, como de costume — relembra a vítima –, ele alegou que estaria passando mal.
Caroline então pediu para Alef se sentar, lhe serviu um copo d’água. Em seguida, pediu para ele ir embora, sem sucesso. Para forçar isso, passou a registrar em vídeo, com o celular, a permanência do ex no imóvel, enquanto reiterava para ele se retirar. Os apelos chamaram a atenção de uma vizinha, que interfonou para Caroline para saber se ela precisava de ajuda.
“Virei de costas para ele e quando falei oi [vizinha] tudo bem? Quando eu disse, ‘sim o Alef está’, ele me deu as duas primeiras facadas pelas costas [atingindo o pescoço da vítima]”.
Ele então passou a esfaqueá-la continuamente, perfurando pontos vitais.
“As duas primeiras foram no pescoço, a terceira no meu tórax, perfurou meu pulmão esquerdo. Fui me fechando cada vez mais, indo para o canto do sofá, e ele me esfaqueando falando ‘você vai morrer, acabou, hoje eu decidi, eu vou matar você’”.
“Fingi que estava morta”
Como Caroline começou a ser esfaqueada quando falava ao interfone, a vizinha pôde ouvir todo do suplício da vítima e, por isso, pediu ajuda a outros dois vizinhos.
A dupla foi até o apartamento e arrombou a porta, quando viu Alef coberto de sangue, empunhando uma faca. Ambos não entraram no imóvel, com receito de serem também alvos do criminoso.
Caroline aproveitou a situação para tentar se salvar, interrompendo a respiração.
“Fingi que estava morta, para ele parar de me esfaquear. Aí ele veio, pôs o dedo [sob as narinas dela] para ver se eu estava respirando e desferiu mais dois golpes, um perto do meu olho [esquerdo] e do meu queixo dizendo que ia me desfigurar para ninguém me reconhecer no caixão”.
Diante disso, os vizinhos gritaram e Alef sumiu do campo de visão de todos. Posteriormente a Polícia Militar o localizou no banheiro da casa da vítima, onde havia se escondido. Ele foi preso em flagrante.
Atendimento
Antes da prisão do ex, Caroline reuniu as poucas forças que lhe restavam, levantou-se e saiu do apartamento, momento em que foi amparada pela mesma vizinha com a qual havia falado, ao interfone, pouco antes das facadas.
Ela foi levada até uma casa, do outro lado da rua, onde recebeu os primeiros socorros, primeiamente da PM e, depois, de socorristas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
As câmeras corporais dos policiais militares captaram como a vítima ficou após a violência sofrida. Os registros mostram que Caroline manteve-se consciente o tempo todo, usando o que lhe restava de força para relatar o que havia acontecido e indicar quem havia tentado matá-la.
Pagou ambulância para ser internada
Primeiramente, ela foi levada pelo Samu até o Hospital do Mandaqui, onde foi-lhe dito não existir estrutura para atendê-la, por conta da gravidade dos ferimentos.
Caroline então, usando seu convênio médico, foi transferida, com uma ambulância particular — paga por sua família — até o Hospital São Camilo, onde foi internada de imediato na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI).
Quatro dias depois, em 8 de abril, teve complicações decorrentes dos ferimentos e foi submetida a cirurgias no tórax, cabeça e pescoço, como consta em laudo médico, obtido pelo Metrópoles.
Caroline ficou 21 dias internada, dos quais 17 na UTI e os demais entubada. As cirurgias às quais foi submetida reconstruíram parte da garganta. Ela também perdeu 40% da capacidade pulmonar esquerda. “Tive que reaprender a comer, porque afetou minha parte de deglutição e atingiu, também, uma parte do meu nervo facial”.
Como sequela, Carolina perdeu a sensibilidade, entre a orelha e o queixo, do lado esquerdo do maxilar, e de metade da língua. Atualmente, após diversos tratamentos, sente formigamentos nesses pontos que, segundo ela, não terão mais plena sensibilidade.
“Fiz fisioterapia e fono [audiologia] para voltar a comer e a falar. Até hoje, faço terapia e passo em psiquiatra, tomo antidepressivo. Tive um pós-trauma bem forte, tô tentando ainda tratar, mas o que aconteceu foi tão brutal que nunca irá sair da minha cabeça”.
Medida protetiva antes de namoro
Caroline treinava boxe e jiu-jitsu em um mesmo local na zona norte, quando Alef passou a frequentar a academia de artes marciais. Em um primeiro momento, iniciaram uma relação como amigos.
Recém-saída de um casamento, encerrado sem ressentimentos e cujo ex-marido é seu amigo até a atualidade, Caroline não tinha nenhuma outra referência de relacionamento. “Ele [ex-marido] é uma pessoa incrível”.
Com os pais falecidos, morando sozinha na capital paulista e com familiares no interior de São Paulo, a empresária viu-se sozinha. Alef sabia disso tudo, pelo fato de Caroline desabafar com ele, até então como amigo.
Tempos depois, sabendo que ela se envolvia com outra pessoa, ele entrou no carro dela, assumindo o volante, afirmando que iria se matar caso não namorasse com ele. Caroline registrou o caso na Polícia Civil, solicitando uma medida protetiva, deferida pela Justiça.
Ao receber a notificação, Alef “ficou doido”, procurando Caroline. Alegou que o documento ira prejudicar o pedido de guarda do filho, fruto de outro relacionameento. Para mostrar à vítima seu comprometimento, contratou a advogada da empresária para dar entrada na papelada necessária. “Ele usou isso como argumento para mostrar que estava mudado. Me deu chocolates, flores, agiu com um príncipe.”
Ciúmes desde o início
Diante da suposta mudança do profissional de TI, Caroline pediu a suspensão da medida protetiva e ambos engataram o namoro, marcado desde o início por ciúmes.
“Ele me tirou da academia onde eu treinava, me afastou de todos, dizia que minhas amigas eram interesseiras, que ninguém servia [sic], dizia que o professor [de artes marciais] dava em cima de mim. No olhar dele, todo mundo me desejava e eu não podia ir naqueles lugares.”
Havia cerca de um ano que o casamento de Caroline tinha terminado e sua empresa, na ocasião, passava por uma crise. Por conta disso, ela acredita que acabou se apegando mais à presença de Alif e se distanciando dos amigos.
Ciclo vicioso
Os ciúmes de Alef provocaram brigas, discussões e, segundo Caroline, mais de 50 términos. Ambos reatavam, acrescentou, após ele argumentar que passava mal, que não podia viver sem ela, com a qual queria constituir família, viver o resto da vida junto. “Ele me manipulou e me afastou de todos”.
Ele, disse ainda Caroline, tentou atrapalhar os negócios dela, por ciúmes de alguns clientes, mas não teria impedido de ela seguir trabalhando porque a vítima era quem bancava o estilo de vida do casal. “Eu pagava tudo, ele era um alpinista social”.
Fonte: Metrópoles e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 07/06/2026/07:51:03
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