Violência avança na Amazônia Legal, a região mais letal do Brasil

Estamos acostumados a associar a violência e o crime organizado a grandes centros urbanos. Pior do que isso, “ainda temos uma segurança pública cuja discussão é muito marcada pela questão urbana”, reconhece David Marques, coordenador de projetos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em entrevista exclusiva à coluna. Um engano que está custando caro ao país.
Hoje, cidades distantes das capitais e das regiões metropolitanas concentram taxas tão altas – ou até mesmo superiores – às dos grandes centros urbanos, num processo claro da interiorização das violências e das ilegalidades, que há anos se espalham pela Amazônia, alcançando municípios pequenos e isolados, cada vez mais longe do imaginário bucólico e tranquilo.
Segurança pública é o tema que deve dominar essas eleições e não há mais como falar sobre esse assunto sem discutir o que vem acontecendo na Amazônia Legal. Estudo divulgado no final do ano passado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que, em 2025, houve um aumento de 32% no número de municípios da Amazônia sob influência de facções criminosas em comparação com o ano anterior.
Atualmente, são 344 municípios nessa situação. Em 2024, eram 260 e, em 2023, 178, pouco mais da metade. Entre as 17 facções identificadas na região, destacam-se o PCC e o Comando Vermelho (CV). Em apenas dois anos, o CV mais do que duplicou sua presença na Amazônia, chegando a 286 municípios em 2025.
Os dados são da quarta edição do estudo Cartografias da Violência na Amazônia, elaborado pela FBSP em parceria com diversas organizações. Foram analisados os cenários dos nove estados que compõem a Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do Maranhão), composta por 772 municípios.
Desde 2018, a tendência de crescimento tanto da violência quanto das facções na região já vinha sendo observada pelos especialistas do Fórum. “Percebemos que a taxa de homicídio na Amazônia Legal como um todo era mais alta – e em crescimento –, comparada com o restante do Brasil que, naquele momento, começava a apresentar redução”, lembra Marques, ressaltando que, como mostram os números, também houve um espraiamento de uma lógica do crime organizado nesse modelo faccional.
Fenômeno que, segundo o especialista, está relacionado ao aumento da população prisional na região, um vetor importante para o desenvolvimento de organizações criminosas, e também à cadeia da cocaína, cujo comércio é impulsionado por um diferencial geopolítico. O Brasil faz fronteira na região amazônica com Colômbia, Peru e Bolívia, os três principais países produtores de cocaína do mundo.
SOBREPOSIÇÃO DO NARCOTRÁFICO COM ILÍCITOS AMBIENTAIS POTENCIALIZA A VIOLÊNCIA
Soma-se a isso a intensificação de atividades ilegais variadas, como garimpo clandestino, grilagem, desmatamento e tráfico de armas. “Temos visto uma sobreposição do narcotráfico com a questão dos ilícitos ambientais”, aponta o coordenador de projetos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, alertando para a aproximação dessas organizações criminosas, seja porque há uma afinidade em termos de logística, seja para conjugar esforços, na lógica do “juntos, somos mais fortes”.
“Aviões que transportam o ouro ilegalmente produzido também transportam cocaína”, exemplifica, ressaltando que a expansão a partir dessa lógica de “maximização” das ilegalidades também é uma novidade.
Um cenário que vem repercutindo nas estatísticas de violência da região. Em 2024, houve, segundo o estudo, 8.047 mortes violentas intencionais (homicídios dolosos, latrocínios, mortes decorrentes de intervenção policial e mortes de policiais) na região, o que significa uma taxa de 27,3 assassinatos para cada 100 mil habitantes, número 31% superior à média nacional. O estado mais violento da região e do país no período foi o Amapá, com 45,1 mortes por 100 mil habitantes.
AUMENTO DA DROGADIÇÃO E DO ALICIAMENTO DE JOVENS INDÍGENAS
O avanço do crime organizado tem ainda diversos impactos sobre os territórios e os jovens, especialmente os das comunidades indígenas. “É importante discutirmos o aumento da drogadição e do aliciamento de jovens dessas comunidades por parte do crime organizado”, alerta o especialista.
Para David Marques, há muitas e variadas razões para a vulnerabilidade a esse aliciamento, como a falta de oportunidades de lazer, de atividades culturais e esportivas e de perspectivas de renda. “Quais são as alternativas que estão colocadas para essa juventude que possam servir como freio para a influência crescente desse mercado?”, questiona.
Segundo a publicação, nas comunidades indígenas do Alto Solimões, o microtráfico (ou tráfico de varejo) tem se consolidado como uma das principais formas de presença do crime organizado, ocupando a maior parte dos relatos e das demandas por segurança por parte dos indígenas.
“O consumo abusivo de álcool e drogas é uma preocupação amplamente relatada, trazida por mães e lideranças ticuna, que observam a crescente intrusão desse tipo de comércio e produto nas aldeias, sobretudo nas maiores e com maior acessibilidade fluvial”, diz o estudo.
O surgimento de minicracolândias em cidades da região da tríplice fronteira, assim como os furtos associados à dependência química, agravam ainda mais a situação e são vistos por Marques como problemas diretamente associados à intensificação da presença de organizações criminosas que têm o narcotráfico como um de seus principais pilares econômicos. Em paralelo, há ainda o crescimento do consumo de “óxi”, um subproduto da cadeia da cocaína considerado mais forte que o crack.
Embora não sejam inteiramente novas, essas dinâmicas de consumo e tráfico se intensificaram a ponto de se tornarem a pauta mais urgente dessas comunidades. Há mobilização em diversas direções para dar conta do problema, que tem envolvido os jovens cada vez mais cedo, entre 12 e 16 anos.
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
Outro dado que chama a atenção no estudo é a violência contra as mulheres, que também é maior na Amazônia Legal do que no restante do país. Em 2024, 586 mulheres foram assassinadas na Amazônia Legal, o que representa uma taxa de 4,1 vítimas por grupo de 100 mil mulheres, 21,8% superior à taxa média nacional.
O quadro de violência sexual também é classificado como “alarmante” pela pesquisa, com uma taxa de 94 estupros por 100 mil mulheres, número 36,8% maior do que a média nacional.
Um cenário que também é impactado pela presença das facções. “Casas que abrigam mulheres vítimas de violência precisam, por exemplo, ser bem protegidas porque podem ser objeto de invasão por agentes criminosos”, analisa o especialista. “O agressor pode ter um grupo armado com atuações proporcionalmente mais violentas do que teria aquele indivíduo. É uma variável nova.”
Doutor em Sociologia, David Marques acredita que a Amazônia Legal coloca questões muito importantes para refletirmos sobre os desafios atuais da segurança pública. Ainda hoje, nosso modelo continua muito inspirado em outros países que não têm as mesmas características nem os mesmos problemas do Brasil.
O reenquadramento do debate passa, segundo ele, por olhar a questão do crime organizado como eixo central nas políticas públicas e nas políticas de desenvolvimento. “Não tem como falar sobre desenvolvimento sustentável na região amazônica sem levar em consideração a questão da segurança pública. A segurança pública é uma condição para o desenvolvimento sustentável da região”, diz ele.
Os desafios são muitos e variados. Segundo Marques, o custo estimado de se fazer segurança pública em algumas regiões da Amazônia pode ser até 25 vezes superior ao de uma área urbana, no Sudeste. Também há dificuldade para articular todas as instituições, permitindo ampliar a presença estatal na região.
Apesar dos problemas, o especialista chama a atenção para ações inovadoras e inspiradoras documentadas pelo Fórum em uma publicação também lançada no final do ano passado. São iniciativas como as Bases Fluviais Integradas do Amazonas e do Pará, que têm combatido o narcotráfico, os crimes ambientais e a pirataria fluvial. A presença dessas bases policiais, segundo ele, não só dificultou a ação de criminosos como possibilitou a instalação de negócios e de equipamentos de saúde, desenvolvendo o território.
Não há solução simples para a questão da segurança pública no Brasil. Mas o que as experiências promissoras documentadas pelo Fórum mostram é que reconhecer e enfrentar as diferenças, especificidades e complexidades dos territórios pode, sim, fazer a diferença.
Fonte: Veja e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso em 19/02/2026/13:31:58
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