Emboscada na Amazônia: fiscais do Ibama são atacados por cerca de 30 criminosos

Uma operação contra exploração ilegal de madeira no último sábado (14), no Amazonas, evidenciou o risco crescente a que estão submetidos agentes do Ibama que atuam na região. Ao tentar apreender um caminhão usado na prática clandestina dentro da Terra Indígena (TI) Tenharim-Marmelos, no município de Manicoré, cinco fiscais foram atacados por homens armados e precisaram se esconder na mata, enquanto a viatura da equipe era incendiada. Episódios como esse vêm se tornando cada vez mais comuns na Amazônia, em um fenômeno associado ao aumento da presença de facções no bioma, segundo o próprio órgão ambiental.
Nos últimos anos, atentados similares repetiram-se em diferentes pontos amazônicos, sobretudo em operações contra garimpo ilegal e exploração de madeira, atividades com forte presença dessas organizações criminosas. O caso em Manicoré ocorreu durante fiscalização em ramais clandestinos de escoamento de madeira ilegal na TI. O material é posteriormente comercializado na região da Vila Santo Antônio do Matupi, na rodovia Transamazônica.
Durante a ação, os agentes flagraram dois caminhões transportando madeira, e conseguiram abordar um deles. Antes de o veículo ser apreendido, contudo, um grupo com cerca de 30 homens armados chegou ao local e iniciou agressões físicas contra os fiscais.
Mesmo em inferioridade numérica e de armamento, os servidores conseguiram fugir para a floresta. Horas depois, retornaram à cidade de Humaitá (AM) e seguiram à sede da Polícia Federal (PF), onde denunciaram o ocorrido. De acordo com o Ibama, parte dos autores do ataque já foi identificada a partir de relatos e imagens registradas pelas vítimas.
Um estudo do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de dezembro passado, mostrou que, entre 2023 e 2024, 42 mil dos 68 mil hectares de terra usados para extração de madeira no Amazonas não tinham autorização, 62% do total. Em um esquema de “lavagem de madeira”, grupos usam autorizações de outros lotes para validar, ilegalmente, a comercialização de vegetação retirada de áreas proibidas, como as terras indígenas. Embora nem toda a cadeia clandestina tenha participação direta de facções do narcotráfico, esses grupos vêm investindo cada vez mais nesse tipo de atividade por conta da alta lucratividade e da facilidade para lavar dinheiro obtido com outras práticas criminosas.
Procurado pelo GLOBO, o Ibama informou que não possui estatísticas específicas sobre ataques a seus servidores. A escalada da violência, entretanto, é confirmado pelo diretor de Proteção Ambiental do instituto, Jair Schmitt:
— Estou há 24 anos no Ibama, conheço bem a Amazônia, e hoje o perfil criminal é totalmente diferente. Em momentos do passado a gente nem precisava trabalhar armado, mas isso agora é impensável. Aumentou o número de ataques, qualquer servidor confirma. O ambiente está mais violento, e os agentes públicos mais expostos.
Schmitt destaca justamente a chegada das facções à região como um dos fatores determinantes para o fenômeno. Para lidar com o novo panorama, cada operação passou a ser feita com um levantamento de áreas de risco, além do estabelecimento de protocolos e planejamento específicos junto aos fiscais.
— O crime organizado tem se arvorado na Amazônia, principalmente na mineração e exploração madeireira — diz o diretor, que elenca ainda como causas o aumento da circulação de armas no país e a desestruturação do Ibama e das ações de fiscalização na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o que teria “empoderado” os criminosos. — Essas pessoas estão formando pequenas resistências ao poder do Estado, e as invasões em Terras Indígenas viraram prática rotineira.

A hostilidade na Amazônia também ficou visível durante as operações na TI Yanomami contra o garimpo. Ao longo de 2023, quando a missão especial começou, fiscais do Ibama foram atacados com armas de fogo pelo menos dez vezes.
Retirada do território Yanomami, parte dos envolvidos na atividade ilegal migrou para a TI Sararé, em Mato Grosso, que se transformou na Terra Indígena mais desmatada entre 2024 e 2025. Em setembro do ano passado, cinco garimpeiros ligados ao Comando Vermelho (CV) atiraram, com fuzil, em agentes do Ibama. Após o confronto, eles abandonaram a arma, carregador, munições, celular e um kit de internet por satélite antes de escapar.
Outra TI com episódios de violência é a Terra Apyterewa, no Pará. Em dezembro último, equipes do Ibama e da Funai, além da Força Nacional de Segurança e das polícias Civil e Militar, foram atacadas durante uma ação de desintrusão e apreensão de gado. Um colaborador que prestava apoio ao trabalho morreu após ser emboscado e atingido por disparos de arma de fogo.
A Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia, também se tornou um local de ameaças. Só no ano passado, foram contabilizados ao menos sete confrontos armados em ações contra o garimpo, com 12 suspeitos presos.
Na semana passada, quatro pessoas foram condenadas pelo incêndio, em Manaus, de dois helicópteros utilizados em operações de fiscalização do Ibama, em um prejuízo de mais de R$10 milhões. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a motivação foi retaliar as fiscalizações ambientais na região.
Binho Zavaski, diretor da Associação dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente do Distrito Federal (Asibama-DF) e ex-presidente da associação nacional, também avalia que, na última década, houve a ascensão, na Amazônia, de grupos como CV, Primeiro Comando da Capital (PCC) e Família do Norte. Além da atuação tradicional no tráfico de drogas e de armas, eles passaram a investir no garimpo clandestino e na exploração de madeira:
— É uma guerra na floresta, uma guerra contra o crime ambiental praticado por grupos extremamente poderosos e organizados, do Brasil e de fora — alerta.
Em meio a esse cenário, servidores negociam o pagamento de uma Gratificação de Atividade de Risco (GAR). Além disso, Zavaski cobra a integração das diferentes forças de segurança nessas operações e o investimento em equipamentos de proteção.
— Além dessa sensação de impunibilidade, de que o crime ambiental compensa, ainda tem a constante pressão desses grupos pela mudança da legislação, para que essas atividades ilícitas possam, ali na frente, ser regularizadas rendendo, muitas vezes, o que já rende hoje através dessa condição ilegal — acrescenta.
- Fevereiro de 2023: Quatro garimpeiros ilegais morreram em troca de tiros com agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Ibama na Terra Indígena Yanomami. Na ação, armas foram apreendidas, incluindo um fuzil (foto). Segundo suspeita da PRF à época, os suspeitos seriam membros do PCC.
- Agosto de 2023: Uma equipe do Ibama foi atacada a tiros durante fiscalização contra o garimpo ilegal na Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós, no Pará. Um criminoso, que portava uma pistola, foi baleado e, apesar de socorrido, não resistiu ao ferimento (foto).
- Setembro de 2023: Fiscais do ICMBio e policiais da Força Nacional foram atacados e tiveram os carros queimados durante fiscalização na Floresta Nacional de Aripuanã, no Sul do Amazonas. No local, foram encontrados armas, equipamentos e veículos usados para desmatamento ilegal.
- Junho de 2025: Agentes do ICMBio que atuavam na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, passaram a ser regularmente atacados. Ofensiva incluiu bloqueio de estradas com fogo, destruição de pontes, cortes de cerca e até tentativa de incêndio no acampamento da equipe de fiscalização.
- Setembro de 2025: Cinco garimpeiros ligados ao CV trocaram tiros de fuzil com agentes do Ibama durante operação na Terra Indígena Sararé, um dos territórios mais devastados do país. Após o confronto, eles abandonaram arma, carregador, munições, celular e um kit de internet (foto).
- Dezembro de 2025: Um colaborador do Ibama que apoiava as equipes que atuavam na desintrusão da Terra Indígena Apyterewa, no Pará, morreu após ser atingido por disparos de arma de fogo. A operação havia sido determinada pelo STF, com retirada de invasores e a apreensão de gado.
Fonte: O Globo e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 17/03/2026/07:49:48
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