Tucanos reintroduzidos há mais de 50 anos ajudam a restabelecer o delicado equilíbrio do Parque Nacional da Tijuca

Quem passeia hoje em dia pelo Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, pode escutar o “berro”, ou se tiver ainda mais sorte, ver de perto o colorido magnífico de um tucano-de-bico-preto (Ramphastos ariel). E este certamente é um privilégio, já que há 53 anos, essas aves estavam extintas ali, mas graças a um projeto pioneiro de reintrodução, na década de 70, a espécie voltou a ser avistada, e a cumprir um papel vital para restabelecer o equilíbrio, e trazer vida ao que já se chamou de “floresta vazia”, ou seja, uma floresta sem animais.
Pouco mais de meio século após essa reintrodução histórica, a bióloga e pesquisadora Flávia Zagury, doutoranda em ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, avaliou o impacto da soltura dos 47 tucanos-de-bico-preto no Parque Nacional da Tijuca.
“Utilizamos como métrica para avaliar o sucesso da reintrodução, a recuperação de interações de frugívora – quando um animal consome um fruto -, considerando que tucanos são considerados excelentes potenciais dispersores de sementes, processo de extrema importância para a manutenção de populações e comunidades de muitas plantas”, explicou Flávia ao Conexão Planeta.

A especialista destaca que, por serem aves que voam longas distâncias, de porte corporal grande e possuírem uma abertura de bico ampla, os tucanos conseguem consumir sementes de diversos tamanhos, desde as pequenas até as de grande porte. “Essa é uma característica de extrema importância, pois, em ecossistemas defaunados, como o Parque Nacional da Tijuca, é comum que os animais de maior porte tenham desaparecido, e por consequência, que as espécies de planta com sementes de médio a grande porte tenham perdido seus dispersores”, diz.
Interações restabelecidas
Como parte do estudo, Flávia cruzou uma lista de espécies de plantas que historicamente costumavam servir de alimento para os tucanos com aquelas presentes no Parque Nacional da Tijuca. Também foram feitas observações em campo, para registrar, na prática, os hábitos alimentares das aves.
“Seguimos indivíduos ou bandos de tucanos durante o máximo de tempo possível, observando e anotando todas as espécies de fruto que eles consumiam. Totalizamos cerca de 520 horas, seguindo estes animais dentro da floresta”, conta ela. “As espécies de planta que não eram identificadas imediatamente em campo, através do conhecimento da equipe, eram marcadas e coletadas para consulta com botânicos. Logo, com a lista de interações observadas em campo, calculamos a porcentagem das interações esperadas que foram de fato recuperadas. Além disso, caracterizamos todos as espécies consumidas pelo diâmetro de suas sementes.”
Os resultados do estudo foram publicados em um artigo científico, e apontaram que os tucanos-de-bico-preto interagem com pelo menos 76% das espécies de plantas consideradas como parte da dieta dessas aves. “Acreditamos fortemente que esse valor seja ainda maior, uma vez que seguir tucanos em uma floresta não é uma tarefa trivial, tivemos apenas um ano de coleta de dados e não tivemos como acessar algumas áreas do parque, então é extremamente provável que eles estejam participando de mais interações do que nós observamos, inclusive, considerando que pode ser que algumas espécies vegetais não tenham frutificado neste ano”, diz Flávia.
No caso específico do consumo de sementes médias e grandes, o resultado foi ainda maior. Respectivamente, a análise indicou a recuperação de 89% e 88% das interações esperadas.

Plantas ameaçadas de extinção
O levantamento mostrou ainda que entre as espécies preferidas pelos tucanos estão a palmeira juçara (Euterpe edulis) – a mais consumida, representando 13,4% de todos os eventos de alimentação observados -, canelão (Nectandra membranacea), bicuíba (Virola bicuhyba), canjarana (Cabralea canjerana) e arco-de-pipa (Erythroxylum pulchrum).
Outro ponto importante a ser destacado é que todas essas espécies são nativas da Mata Atlântica, e duas delas estão ameaçadas de extinção.
“É importante deixar claro que, a dispersão de sementes é um processo muito complexo, e o fato de a frugívora estar ocorrendo (ou seja, a espécie estar se alimentando de um determinado fruto), não quer dizer que aquele fruto foi efetivamente dispersado”, ressalta a pesquisadora. “Mas a frugívora é o primeiro passo para a dispersão de sementes e é possível, considerando a ampla literatura sobre o grande potencial dos tucanos enquanto dispersores, hipotetizar que eles estejam dispersando as sementes das espécies consumidas.”

A refaunação do Parque Nacional da Tijuca
Nos últimos anos, um grande projeto vem trazendo mais espécies de volta ao Parque Nacional da Tijuca. Conduzido pela equipe do Refauna, já foram reintroduzidas na unidade de conservação carioca cutias-vermelhas (Dasyprocta leporina), bugios-ruivos (Alouatta guariba), jabutis-tinga (Chelonoidis denticulata) e no começo de 2026, as araras-canindés (Ara ararauna).
Todos esses animais se juntam ao tucano-de-bico-preto na tentativa de se trazer de volta interações ecológicas que foram perdidas com a extinção local dessas espécies. E os resultados, de estudos como o de Flávia, são prova de que este é o caminho a ser seguido.
“Nosso estudo evidencia que a longo prazo as reintroduções levam à recuperação de interações e por consequência, à funcionalidade do ecossistema”, acrescenta a bióloga.
Fonte: Conexão Planeta e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 04/04/2026/09:23:19
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