Trabalhador desaparecido há 23 anos após acusação de furto na região de Novo Progresso tem caso levado ao MPT

O caso do trabalhador rural Antônio Carlos Godoi dos Santos, desaparecido há mais de duas décadas após ser acusado de furtar um trator, ganhou um novo encaminhamento na Justiça. O Tribunal Regional do Trabalho de Mato Grosso (TRT-MT) encaminhou informações ao Ministério Público do Trabalho (MPT) para que sejam analisadas possíveis violações de direitos humanos relacionadas ao desaparecimento.

Antônio Carlos desapareceu em 2003, quando trabalhava em uma fazenda localizada em uma região de divisa entre Mato Grosso e Pará, nas proximidades de Novo Progresso (PA). Na época, a filha dele tinha apenas 6 anos de idade.

O encaminhamento ao MPT foi feito pelo presidente do TRT-MT, desembargador Aguimar Peixoto, por meio de ofício enviado à procuradora-chefe do MPT em Mato Grosso, Thaylise Zaffani.

Trabalhador desapareceu após acusação de furto

Conforme informações reunidas durante o processo trabalhista, Antônio Carlos trabalhava em uma região marcada, naquele período, por conflitos fundiários, exploração ilegal de madeira e relatos de violência.

Os documentos também mencionam a atuação de intermediários conhecidos como “gatos”, responsáveis por levar trabalhadores para propriedades rurais e áreas de difícil acesso. Segundo os relatos registrados no processo, muitos desses trabalhadores eram pessoas pobres e sem documentação e ficavam em situação de grande vulnerabilidade.

Ainda de acordo com as informações reunidas no caso, havia relatos de trabalhadores que desapareciam ou morriam em circunstâncias consideradas suspeitas, especialmente quando chegava o momento de receber os pagamentos pelos serviços prestados.

Foi nesse contexto que ocorreu o desaparecimento de Antônio Carlos.

Segundo os registros, a cooperativa para a qual ele trabalhava chegou a registrar um boletim de ocorrência acusando o trabalhador de ter furtado o trator que operava.

Depois da acusação, Antônio Carlos desapareceu.

Inquérito desapareceu e documentos foram destruídos

Um dos pontos que chamaram a atenção durante a análise do caso é o destino da investigação policial aberta na época.

Segundo os documentos reunidos no processo, o inquérito policial não foi localizado posteriormente na delegacia.

Além disso, a documentação policial produzida naquele período teria sido destruída em um incêndio considerado suspeito, dificultando ainda mais a reconstrução dos fatos e a identificação do que aconteceu com o trabalhador.

A ausência dos documentos contribuiu para que a família permanecesse durante anos sem respostas sobre o paradeiro de Antônio Carlos.

Relatório do Ministério Público apontou possível morte durante o trabalho

Em 2005, um relatório elaborado pelo Ministério Público do Pará apontou que Antônio Carlos teria morrido durante o trabalho, depois de ter sido falsamente acusado de furtar o trator.

O documento também registrou que não teria sido realizada uma nova investigação capaz de esclarecer adequadamente as circunstâncias do desaparecimento.

Apesar das suspeitas e dos relatos existentes, a família precisou esperar muitos anos até obter um reconhecimento judicial sobre o destino do trabalhador.

Morte presumida só foi reconhecida em 2021

Somente em 2021, cerca de 18 anos após o desaparecimento, a Justiça reconheceu a morte presumida de Antônio Carlos.

No mesmo ano, a filha dele ingressou com uma ação trabalhista em busca de reparação pelos danos provocados pelo desaparecimento do pai e pelas circunstâncias relacionadas ao trabalho que ele desempenhava.

Durante a análise do processo, a Justiça considerou as condições de risco às quais o trabalhador estava submetido.

A decisão apontou que Antônio Carlos atuava em uma região de extrema vulnerabilidade e que os responsáveis pela contratação teriam demonstrado preocupação em recuperar o trator que supostamente havia sido furtado, mas não teriam adotado medidas equivalentes para localizar o trabalhador desaparecido ou prestar assistência à família.

Justiça determinou indenização de R$ 150 mil

Em 2025, a Justiça do Trabalho determinou que a cooperativa e o fazendeiro envolvidos no caso pagassem R$ 150 mil por danos morais à filha de Antônio Carlos, além de uma pensão mensal.

A decisão foi posteriormente mantida pela 2ª Turma do TRT-MT.

Os responsáveis recorreram ao Tribunal Superior do Trabalho (TST), onde o processo ainda aguarda julgamento.

A decisão trabalhista levou em consideração não apenas o desaparecimento do trabalhador, mas também as circunstâncias em que ele estava empregado e a responsabilidade daqueles que o contrataram diante do risco existente na região.

Caso volta a ganhar atenção mais de 20 anos depois

Com o envio das informações ao Ministério Público do Trabalho, o caso poderá passar por uma nova análise sob a perspectiva de possíveis violações de direitos humanos nas relações de trabalho.

O MPT deverá avaliar os elementos encaminhados pelo TRT-MT e verificar se existem medidas que possam ser adotadas dentro de suas atribuições.

O desaparecimento de Antônio Carlos permanece como um caso marcado por dúvidas e pela ausência de respostas definitivas para a família.

Mais de 23 anos depois, a história ainda envolve documentos desaparecidos, uma investigação policial que não foi localizada, registros destruídos em um incêndio e um relatório do Ministério Público que apontou para uma possível morte durante o trabalho.

A ligação com a região de Novo Progresso, no sudoeste do Pará, coloca novamente o município e áreas próximas à divisa com Mato Grosso no centro de uma história que atravessa décadas e que agora poderá ser analisada também pelo Ministério Público do Trabalho.

Enquanto o processo trabalhista aguarda julgamento no TST, o encaminhamento feito pelo TRT-MT ao MPT representa uma nova etapa na busca por esclarecimentos sobre o que aconteceu com Antônio Carlos Godoi dos Santos após seu desaparecimento, em 2003.

Fonte: e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso com informações midiajur  13/08/2026/12:00:32

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