“Toda noite, os homens que eu mandei matar sentavam aos pés da minha cama”: ex-diretor de presídio executou prisioneiros no corredor da morte, depois eles voltaram para assombrá-lo

Todas as noites, um dos homens que Ron McAndrew matou sentava-se aos pés de sua cama e encarava, com um olhar vazio, sua alma atormentada.
McAndrew foi diretor da Penitenciária Estadual da Flórida, o presídio onde o estado executa os condenados à morte, até 1998. Ele liderou uma equipe que executou três prisioneiros por eletrocussão e, em seguida, foi ao Texas para auxiliar nas injeções letais de vários outros homens.
“Eles nunca disseram nada”, lembra McAndrew, sua voz já um tanto rouca pelo peso da lembrança. “Eles simplesmente ficavam sentados ali me olhando.” Mas os olhos deles falavam.
Eles perguntavam: “Como você pôde fazer uma coisa dessas?”, diz McAndrew. “Você sempre disse que era uma boa pessoa. E agora está matando pessoas.”
O ex-diretor da penitenciária se arrepende de tudo. “Eu realmente acreditava na pena de morte”, diz ele. “Hoje, não consigo acreditar que acreditei nisso. Simplesmente não consigo acreditar.”
Agora com 88 anos, McAndrew tornou-se um opositor improvável da pena de morte. Ele está tentando, com o tempo que lhe resta, corrigir oito erros. “Tive que olhar para mim mesmo”, afirmou ele. “Você realmente começa a pensar no que fez. Por que fez”.
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Os momentos finais dos detentos
Todos os dias, dentro e fora da prisão, McAndrew é assombrado pela morte. Ele pensa um pouco sobre a própria morte e muito sobre as mortes que supervisionou. Advogados, grupos de defesa e condenados à morte disputam sua atenção, na esperança de obter informações de um ex-diretor que se voltou contra o estado.
McAndrew era um ambicioso funcionário do sistema prisional estadual quando se tornou diretor em 1996. Era um cargo com uma responsabilidade solene: todas as execuções da Flórida acontecem lá. “Eu estava muito ansioso para subir na carreira”, diz ele. Os agentes competiam para integrar sua equipe de execução, um grupo de alto nível cujo trabalho era realizado a mando do governador.
E McAndrew, naquela época, estava pronto para fazê-lo. Ele se lembra dos detalhes de cada execução com facilidade. O estado lhe deu 40 dólares para comprar uma última refeição, diz ele; quando precisava de mais, ele tirava dinheiro do próprio bolso.
Na noite anterior, ele fazia o papel de técnico, reunindo o time para uma conversa motivacional. “O café e os donuts são por minha conta”, dizia. “Mas vai ter um custo para vocês, porque quero saber como todos aqui estão se sentindo.”
Um humor macabro persistia entre alguns policiais, algo que McAndrew detestava. A cadeira elétrica era chamada de “Old Sparky” (“Velha Faísca”, na tradução do inglês), um apelido que McAndrew proibiu. “Nada do que estamos fazendo é uma piada”, dizia o ex-diretor. Ele pôs fim a uma tradição — uma ida da equipe a um restaurante próximo após a execução — depois que moradores locais cumprimentaram os integrantes do esquadrão com um “high-five”.
Em cada fatídica manhã, McAndrew visitava a cela do detento e acenava para os guardas pedindo privacidade. A essa altura, a vida do prisioneiro era medida em minutos. A porta se fechava com um baque metálico; McAndrew se juntava ao homem em sua cama e iniciava a última conversa que teriam.
Ele descobriu que os homens tinham muitas preocupações. “Fiz o meu melhor para ser uma pessoa que os confortasse.”
Na câmara de execução da Flórida, todos sabiam qual era a sua função. A primeira era atirar o prisioneiro na cadeira. “Ao tornar o processo tão brutal”, explica McAndrew, “cria-se um choque na pessoa que, na verdade, a acalma. Por um tempo.”
Enquanto o detento cambaleava com o golpe, a equipe o prendeu à cadeira. A responsabilidade de McAndrew era pelo tornozelo direito. O resto da rotina se desenrolaria com uma eficiência macabra: ele colocaria um microfone diante do rosto do detento e perguntaria quais seriam suas últimas palavras.
Enquanto isso, 26 testemunhas – “juízes, advogados, cidadãos, curiosos, canalhas sedentos de sangue”, como ele os chamava – observavam e rabiscavam anotações.
Uma máscara de couro era fixada no rosto do homem, “tão apertada que quebrava o nariz automaticamente”, diz McAndrew. Sangue escorria por baixo da máscara todas as vezes, ele lembra. “Mas eles não conseguiam gritar.”
E então ocorreu uma performance macabra. McAndrew dava um sinal sutil e imperceptível a um homem de vestes pretas e capuz, escondido atrás de uma parede parcial. O homem era o carrasco, contratado por McAndrew, e tinha a identidade desconhecida até mesmo pelos funcionários da prisão. Uma linguagem secreta com um único significado. O sinal significava “puxe a alavanca”.
Carreira na prisão
Na década de 1970, depois de perder um emprego de vendedor, McAndrew soube por um amigo que uma prisão na Flórida estava desesperada por funcionários. Ele riu: “Você acha que eu trabalharia em uma prisão?”
Com o tempo, ele trabalhou em várias prisões. O agente McAndrew tornou-se sargento McAndrew, depois tenente McAndrew e, por fim, major McAndrew. Eventualmente, foi convidado a assumir o cargo de diretor da Penitenciária Estadual perto de Starke, uma cidade dividida por uma linha férrea e que se mantinha próspera graças aos agentes penitenciários.
Mas primeiro, perguntaram a McAndrew se ele teria algum problema em enviar prisioneiros para a morte. “Não, senhor”, respondeu ele. “Olho por olho, dente por dente.”
As coisas logo mudaram. “Eu sabia que algo estava acontecendo dentro de mim”, diz ele. Ele ficava obcecado com a vida dos prisioneiros, levando para casa os dossiês dos casos. O ex-diretor se tornou cada vez mais preocupado com um condenado à morte, Leo Jones, considerado culpado pelo assassinato de um policial em Jacksonville. Jones mantinha sua inocência e dizia que sua confissão foi obtida sob coação. “Essa investigação foi péssima”, diz McAndrew.
Ele contou ao chefe, cuja resposta, segundo McAndrew, foi: “Ron, fique longe desses registros. Esse não é o seu trabalho.” Jones foi executado em 1998. Durante esse período, McAndrew mal dormia. Quando conseguia dormir, as visões surgiam: os prisioneiros condenados, vivos novamente em sua mente, sentavam-se silenciosamente em seu colchão.
Na época de sua terceira execução, McAndrew bebia muito todas as noites para anestesiar a dor. Ele cogitou o suicídio. Ele gesticula em direção à sua esposa, Lynne: se não fosse por ela, diz ele, teria concretizado a ideia.
Após o caso do detento Pedro Medina, que teve a cabeça incendiada após uma execução na cadeira elétrica que deu errado, a eletrocussão na Flórida foi proibida. Um governador enfurecido enviou McAndrew ao Texas para uma missão de apuração dos fatos, acompanhando de perto um método inovador que o estado estava utilizando: a injeção letal.
Esse método agora é o padrão para execuções na maioria dos estados americanos, incluindo a Flórida. Segundo seus defensores, ele foi adotado por ser uma forma mais humana de tirar uma vida. “Não foi nada humano”, afirma McAndrew, que fazia parte da equipe do Texas que executou cinco homens com a droga. “Se fosse humano, não precisariam de oito cintos para imobilizar alguém.”
Quando McAndrew se aposentou em 2002, ele era um homem destruído. Ele passou alguns meses se entregando aos seus arrependimentos.
“Eu gostaria de nunca ter ido para a prisão estadual da Flórida”, diz ele. “Eu gostaria de nunca ter me envolvido nesse negócio sujo.”
Ele viajou pelos Estados Unidos para discursar contra a pena de morte e passou anos dedicando sua experiência para auxiliar os recursos legais de detentos. “Tenho tido bastante sucesso em ajudar detentos a saírem do corredor da morte”, diz ele com um orgulho que falta na maioria de suas outras lembranças.
Fonte: CNN e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 28/09/2026/17:07:03
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