Rim de 111 anos bate recorde mundial e continua funcionando 57 anos após transplante de mãe para filha

Um rim transplantado de mãe para filha em 1969 alcançou uma marca extraordinária na medicina: 111 anos de idade biológica, permanecendo em funcionamento no organismo da receptora após 57 anos da cirurgia. O órgão pertencia a Guiomar, que tinha 54 anos quando decidiu doá-lo à filha, Maria Célia Lamounier, diagnosticada ainda jovem com insuficiência renal. A história, considerada excepcional pela longevidade do transplante, foi apresentada pelo médico Drauzio Varella em reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo, no domingo (27).
O caso é apresentado como o do rim transplantado mais antigo do mundo em funcionamento no corpo de uma pessoa viva. A idade biológica destacada pela reportagem corresponde à soma dos 54 anos em que o órgão permaneceu no organismo da doadora com os 57 anos transcorridos desde sua transferência para a filha.
Uma cirurgia rara em 1969
Maria Célia enfrentava um quadro de insuficiência renal, condição em que os rins perdem progressivamente a capacidade de filtrar o sangue e eliminar substâncias que precisam ser retiradas do organismo.
Antes de receber o órgão da mãe, a jovem chegou a realizar três sessões de hemodiálise. Diante da necessidade do transplante, Guiomar decidiu se tornar doadora.
A cirurgia aconteceu apenas cinco anos depois do primeiro transplante renal realizado no Brasil, em 1964. Naquela época, o país registrava menos de 50 procedimentos desse tipo por ano, e os recursos médicos disponíveis eram bastante limitados.
A operação durava aproximadamente cinco horas. Não havia a estrutura atual de exames por imagem, como ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética, enquanto as opções de medicamentos para evitar a rejeição eram reduzidas.
Maria Célia Lamounier recebeu um rim da mãe, Guiomar, em 1969; o órgão continua funcionando após 57 anos do procedimento realizado no Brasil. Rim transplantado alcançou 111 anos de idade biológica, somando os 54 anos vividos no organismo de Guiomar aos 57 anos no corpo de Maria Célia.
Longevidade surpreendente e sem rejeição
Apesar das dificuldades enfrentadas pela medicina naquele período, o transplante apresentou um resultado que surpreende até mesmo especialistas. Maria Célia relatou ao Fantástico que nunca precisou enfrentar complicações relacionadas ao rim recebido da mãe.
“Nunca tive rejeição, nunca tive nenhuma intercorrência, nunca internei”, afirmou durante a entrevista. A saúde de Guiomar também não foi comprometida pela doação. Segundo a filha, a mãe continuou levando uma vida saudável mesmo com apenas um rim e morreu aos 97 anos, sem complicações decorrentes do procedimento.
O resultado transformou uma decisão familiar tomada há quase seis décadas em um caso de destaque na história dos transplantes.
Fatores que explicam o sucesso do transplante
O nefrologista José Medina Pestana explicou à reportagem que a maioria dos rins transplantados permanece em funcionamento por um período entre 20 e 30 anos. A manutenção da atividade do órgão por 57 anos, portanto, representa uma situação rara.
Segundo o especialista, a relação genética entre doadora e receptora pode ter contribuído para o resultado, uma vez que transplantes entre familiares apresentam possibilidades favoráveis de compatibilidade.
“Primeiro, foi a mãe dela que foi a doadora, então, a chance do transplante dar certo é um pouco maior. Olhando assim, ela teve bastante sorte”, explicou Medina.
O médico também ressaltou que a doação de um rim não impede necessariamente uma vida saudável. Os cuidados recomendados aos doadores incluem controle do peso, prática regular de atividade física, acompanhamento da pressão arterial e do diabetes, além de evitar o tabagismo.
Guiomar decidiu doar um dos rins à filha após o diagnóstico de insuficiência renal; na época, o Brasil realizava menos de 50 transplantes anuais. Antes de receber o órgão materno, Maria Célia passou por três sessões de hemodiálise e enfrentou uma cirurgia considerada complexa para a época.
Brasil realiza cerca de 6 mil transplantes renais por ano
A trajetória de Maria Célia também ajuda a dimensionar os avanços da medicina brasileira. Se em 1969 o país realizava menos de 50 transplantes anualmente, hoje são aproximadamente 27 mil procedimentos de diferentes tipos a cada ano, dos quais cerca de 6 mil envolvem rins.
Mais de 140 mil pessoas já passaram por transplantes renais no Brasil, segundo os dados apresentados pelo Fantástico.
O Sistema Único de Saúde (SUS) custeia os procedimentos e fornece os medicamentos utilizados pelos pacientes para prevenir a rejeição dos órgãos, tratamento que precisa ser mantido ao longo da vida.
O Brasil possui uma estrutura nacional de transplantes, com centrais estaduais responsáveis pela coordenação dos procedimentos. Atualmente, aproximadamente oito em cada dez rins transplantados são provenientes de doadores falecidos.
Apesar da expansão da rede, José Medina Pestana destacou que ainda existem diferenças regionais importantes no acesso aos procedimentos, com maior concentração de transplantes nas regiões Sul e Sudeste.
O significado emocional da doação
Para Maria Célia, a longevidade do transplante representa muito mais do que um resultado médico. O órgão recebido em 1969 mantém uma ligação permanente com Guiomar, mesmo após a morte da mãe.
Durante a entrevista a Drauzio Varella, a paciente resumiu o significado emocional dessa história:
“Eu fiquei nove meses dentro da minha mãe e, hoje, ela está aqui dentro de mim. Viva”. Em seguida, completou: “Muito mais tempo dentro de mim. E vai ficar”.
Aos 111 anos de idade biológica, o rim continua cumprindo sua função, reunindo em um único órgão as histórias de duas mulheres e mais de meio século de evolução da medicina brasileira.
Fonte: DIARIO DO PARÁ e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 30/09/2026/15:12:30
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