‘Qualquer hora me mata’: PM que morreu com tiro na cabeça se queixou de ciúmes de tenente-coronel em mensagem

“Tem que controlar os ciúmes dele. Qualquer hora me mata. Fica cego. Não tenho como controlar o que falam, muito menos o que acham […]”, teria dito a PM.

Em depoimento na delegacia, a mãe da vítima afirmou que Gisele vivia um relacionamento abusivo, extremamente conturbado e que o oficial seria abusivo e violento, impondo restrições ao comportamento da filha.

Ela relatou que Gisele era proibida de usar batom, salto alto e perfume, além de ser cobrada pelo cumprimento rigoroso de tarefas domésticas.

Disse ainda que, quando a policial mencionou a intenção de se separar, o tenente-coronel teria enviado pelo celular uma foto em que aparecia com uma arma apontada para a própria cabeça.

Advogado apresenta áudio de PM morta

De acordo com o advogado Miguel Silva, a gravação foi enviada por Gisele ao pai e mostra que ela pedia ajuda para encontrar uma nova casa, preferencialmente perto da residência dos pais.

Durante entrevista coletiva, o advogado afirmou que a mensagem reforça a versão da família de que a policial pretendia se afastar do marido.

“Recebi um áudio onde Gisele, no ano passado, pede para o pai arrumar uma casa para ela. O desespero era tanto.”, afirmou Silva.

Áudio enviado ao pai

No áudio apresentado pelo advogado, Gisele fala sobre a busca por uma casa próxima da residência dos pais para facilitar a rotina de trabalho e os cuidados com a filha.

“Não, pai, pra mim é melhor aí, rua, entendeu? Quanto mais perto daí, melhor. De manhã eu vou sair muito cedo pra ir trabalhar e aí eu vou ter que deixar a [nome da criança] dormindo aí, entendeu?”, diz a policial na gravação.

Em outro trecho, ela explica que morar mais perto ajudaria a evitar deslocamentos longos antes do trabalho.

“Então, quanto mais perto, melhor. Porque eu já deixo ela aí e já pego o trem pra ir trabalhar, entendeu? Pra não ficar tendo essa viagem aí de manhã. Eu perco muito tempo. Eu entro cedo aqui no serviço”, afirma no áudio.

O advogado da família argumenta que a mensagem indicaria que Gisele planejava deixar o apartamento onde vivia com o marido e se mudar para mais perto dos pais.

Histórico de ameaças e perseguição

Segundo o advogado Miguel Silva, há registros policiais e decisões judiciais que apontam episódios de ameaças contra ex-companheiras e também denúncias de assédio e perseguição contra policiais militares mulheres subordinadas ao oficial dentro da corporação.

Quando eu disse que o tenente-coronel é um violador, um assediador, já há muito tempo, eu fiz uma crítica ao comando da Polícia Militar e ao secretário da Segurança. Eu mantenho essa crítica, haja vista que ele deveria ter sido afastado já há muito tempo das suas funções

Segundo a defesa da família, os episódios indicam um padrão de comportamento do policial. “É um histórico ameaçador, um histórico perseguidor”, disse o advogado.

BOs por ameaça

De acordo com Miguel Silva, uma ex-companheira do tenente-coronel registrou boletins de ocorrência contra ele entre 2009 e 2010. Segundo o advogado, em um dos registros a mulher relatou que sofria perseguições e perturbações constantes.

“Tem um boletim de ocorrência de 2010 em que uma vítima, sua ex-mulher, diz que vem sofrendo vários problemas de perturbação de sua tranquilidade.A ex-mulher se socorre de medida protetiva e diz o seguinte: ‘o autor mantém vigilância sobre a vítima, impedindo que ela se relacione com outras pessoas, ameaçando inclusive de morte’”.

Em outra BO de 2022, aponta Silva, a vítima relata que estava sendo ameaçada dentro do próprio apartamento. “Foi lavrado um BOPM em 22 de janeiro de 2022 em que outra vítima se queixa. O assunto é ameaça. ‘Está entrando dentro do meu apartamento o senhor major’”, disse.

Perseguição contra PMs mulheres

O advogado também citou um processo judicial relacionado a um episódio ocorrido em 2022, quando o oficial ainda era major. Segundo ele, a Justiça reconheceu que houve assédio moral contra uma policial militar subordinada em um caso envolvendo transferência de agentes mulheres.

“Em 8 de julho de 2022, o servidor major Neto decidiu movimentar quatro policiais femininas para outro local de trabalho como forma de punição, sem apresentar motivos legais para a transferência. Passando a perseguir o efeito feminino, incluindo a requerente”.

De acordo com o advogado, a policial que levou o caso à Justiça afirmou ter passado a sofrer perseguições após questionar as decisões do superior.

“A requerente passou a ser totalmente hostilizada pelo servidor major Neto”, disse. Segundo Silva, outras policiais também teriam relatado problemas semelhantes à Corregedoria da PM.

Defesa de coronel sustenta suicídio

“A defesa do tenente-coronel aguarda serenamente o desenrolar da apuração da Polícia Civil com a juntada de todos os laudos e externa a confiança na palavra do coronel: de que trata-se de suicídio”, disse neste sábado (14) ao g1 o advogado Eugênio Malavasi, que defende o coronel Geraldo, da Polícia Militar (PM). “E isso será comprovado de foram cristalina ao final da investigação”.

Já o advogado que defende os interesses da família de Gisele subiu o tom ao alegar que a morte da soldado foi consequência de um crime, o feminicídio — cometido, segundo ele, pelo próprio marido dela, o coronel Geraldo.

“Eu não tenho dúvidas que ele [coronel Geraldo] matou ela [Gisele]. Mas cabe a polícia provar”, disse o advogado José Miguel da Silva Júnior também neste sábado à equipe de reportagem.

A delegacia que apura a morte de Gisele ainda aguarda os resultados de laudos complementares da Polícia Técnico-Científica para concluir inquérito e sabe se houve suicídio ou crime.

Reconstituição

Ex-marido da PM Gisele Alves presta depoimento

Ex-marido da PM Gisele Alves presta depoimento

O coronel se afastou do trabalho na corporação após a morte de Gisele. Mas segundo a sua defesa, ele fez questão de participar da reconstituição do caso, nome popular que se dá a reprodução simulada do que pode ter acontecido.

A reconstituição, feita por peritos do Instituto de Criminalística (IC), ocorreu no último dia 23 de fevereiro na residência onde o casal morava no Brás, Centro da capital.

O escritório de advocacia que defende o coronel quer que ele volte a dar um depoimento no 8º Distrito Policial (DP), no Brás, após a conclusão dos exames periciais restantes, inclusive o complementar do laudo necroscópico do Instituto Médico Legal (IML).

Um médico do esporte que atendeu o casal dias antes de Gisele morrer será indicado pela defesa do coronel para ser ouvido como testemunha. Ele irá relatar que como Geraldo e a esposa foram ao seu consultório com um objetivo em comum de ter uma vida mais saudável juntos.

Segundo ele, a filha que o ex-marido teve com Gisele, e que morava com ela, deverá ficar sob a guarda dele agora. O ex também comentou no depoimento que Geraldo não gostava da criança.

De suicídio a morte suspeita

Peritos e investigadores se reúnem nesta quarta (11) para tratar do caso da PM morta com um tiro na cabeça

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Gisele tinha 32 anos. Geraldo tem 53. Foi ele quem deu a versão à Polícia Civil de que a esposa se suicidou e quem telefonou para a PM pedindo ajuda.

Segundo o coronel, após uma discussão, o oficial disse que pediu a separação e foi tomar banho. Um minuto depois, Gisele teria pegado sua arma e disparado contra a própria cabeça, pelo lado direito. Isso teria ocorrido sem ele ver.

A família da soldado, no entanto, contestou a hipótese de suicídio, apresentou relatos de que Gisele vivia uma relação tóxica com o coronel e pressionou por uma reavaliação do caso.

A Polícia Civil então reclassificou o episódio como morte suspeita. A Justiça determinou a redistribuição do caso para a Vara do Júri, por entender que há indícios de crime doloso contra a vida — categoria que inclui feminicídio, por exemplo.

Laudos periciais reforçaram as dúvidas sobre a versão inicial. Exames apontaram marcas de unhas e arranhões no pescoço da policial, além de lesões contundentes no rosto e sinais de disparo à queima‑roupa.

Além disso, agentes que atenderam a ocorrência estranharam o fato de que a arma que matou Gisele estava ainda na mão dela _algo incomum em casos de suicídio.

Dúvidas na versão do PM

Outros pontos que levaram dúvidas à investigação sobre a versão de suicídio. O fato de que Geraldo disse que tinha ido tomar banho, mas estava com o corpo seco quando as autoridades chegaram até o apartamento. E de ele ter telefonado para um desembargador amigo, que foi até o local _câmeras do hall do prédio gravaram esse encontro. Depois de conversarem, o coronel tomou banho.

A investigação não descarta formalmente o suicídio, mas também apura se Gisele foi vítima de feminicídio — hipótese defendida pela família e pelo advogado.

Na avaliação da família e da defesa, a delegacia já teria elementos para pedir a prisão preventiva do coronel. “Existem requisitos para a prisão. Há várias testemunhas que têm pavor dele, houve alteração da cena da morte, o que já é suficiente para pedir a preventiva”, afirmou o advogado.

Laudos: prontos e que faltam

Morte de PM em apartamento levanta dúvidas: laudos, câmeras e testemunha contradizem versão de suicídio

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A investigação também analisa os laudos produzidos pela Polícia Técnico‑Científica. Já estão concluídos:

  • Laudo necroscópico: causa da morte por traumatismo decorrente de disparo encostado do lado direito da cabeça. Também identificou lesões no rosto e pescoço, compatíveis com pressão digital e marcas de unhas, confirmadas no primeiro exame e na exumação.
  • Laudo residuográfico: não detectou pólvora nas mãos do coronel ou de Gisele — o que gera estranheza na hipótese de suicídio.
  • Laudo da trajetória do tiro: de baixo para cima.

Ainda estão pendentes de juntada ao inquérito o laudo toxicológico, que determinará se Gisele consumiu alguma substância, e o laudo do local da morte, com registros fotográficos da posição do corpo. Peritos já adiantaram que encontraram marcas de sangue no banheiro, o que também causou estranheza já que Gisele foi encontrada morta em outro cômodo.

As investigações continuam em andamento.

Fonte: G1 e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 17/03/2026/14:17:38

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