Pesquisa descreve seis novas espécies de moscas na Amazônia brasileira

Uma pesquisa realizada no Laboratório de Biodiversidade e Evolução de Panarthropoda (Labep), vinculado à Coordenação de Zoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi (Cozoo/MPEG), revelou a existência de seis novas espécies de moscas do gênero Dexosarcophaga. No mesmo artigo científico, são apresentadas informações sobre a distribuição geográfica de outras seis espécies do mesmo gênero, vistas pela primeira vez na Amazônia brasileira.

As moscas desempenham um papel ecológico essencial na natureza: decompõem quase todo tipo de material orgânico, são polinizadoras, fazem parte da cadeia alimentar de outros animais, como aranhas e anfíbios, e também podem ser predadoras de outros insetos.

O estudo foi desenvolvido pelos pesquisadores Matheus Tavares de Souza (PPGZOOL/MPEG/UFPA), Caroline Costa de Souza (Namosca/Ufra), Fernando da Silva Carvalho Filho (MPEG) e Maria Cristina Esposito (ICB/UFPA). O resultado da pesquisa foi publicado em julho, na revista científica internacional “Journal of Medical Entomology”.

Os pesquisadores descreveram as novas espécies e as nomearam a partir de três critérios: duas espécies homenageiam pesquisadores do Museu Goeldi (Alberto Akama e Inocêncio Gorayeb), que coletaram os espécimes e lideraram expedições do MPEG aos locais onde foram amostrados; três fazem referência aos locais em que foram encontradas (sendo que um desses locais também já faz homenagem a Adolpho Ducke, também contratado como pesquisador do Museu, no final do século XIX); e uma espécie foi nomeada em memória do pai da pesquisadora Caroline Costa de Souza, que, segundo ela, foi uma referência fundamental para sua trajetória científica.

A importância das coleções científicas

Além de ampliar o conhecimento sobre a diversidade de moscas do gênero Dexosarcophaga, conhecidas no meio científico por sua relevância para a entomologia forense – por terem um papel fundamental na decomposição de matéria orgânica animal –, a pesquisa também destaca a importância das coleções científicas para o conhecimento da biodiversidade.

Isso porque as novas espécies já haviam sido coletadas há décadas e estavam guardadas em três coleções entomológicas brasileiras: do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém; do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus; e da Universidade Federal do Paraná (DZUP/UFPR), em Curitiba. O tempo em que estão nas coleções varia entre 10 e 36 anos. As espécies preservadas estavam aguardando o momento em que finalmente seriam descritas.

Morfologia das moscas

O principal método usado para descrever as seis novas espécies foi a análise morfológica, com foco na genitália masculina das moscas. O edeago é o órgão reprodutor masculino dos insetos, equivalente ao pênis. Localizado no fim do abdome, ele possui estruturas complexas capazes de diferenciar as espécies umas das outras.

Para o estudo da genitália masculina, a porção final do abdome foi removida com alfinetes e aquecida em ácido lático a 80% para dissolver os tecidos moles. As estruturas foram dissecadas e montadas em lâminas temporárias com glicerina. Após o estudo, as genitálias foram armazenadas em microfrascos contendo glicerol, juntamente com os espécimes originais montados em alfinetes.

A morfologia dos espécimes foi comparada com os diagnósticos estabelecidos na literatura científica para garantir que se enquadrassem no gênero Dexosarcophaga.

Caroline de Souza explica como essa análise foi realizada: “Se for fêmea, a gente não consegue identificar em um nível específico para a maioria dos grupos. Mas, se for macho, a gente estica a genitália e olha o formato e outros detalhes da estrutura para poder chegar a uma identificação. E no artigo a gente ilustra as genitálias masculinas, que é o que os outros especialistas vão utilizar para diferenciar essa espécie das demais”.

Mas por que tanto tempo para serem descritas?

O pesquisador Fernando Filho chama a atenção para o fato de que ainda se conhece pouco sobre a biodiversidade, em especial da Amazônia. Além disso, a quantidade de pesquisadores dedicados a descrever novas espécies é considerada pequena diante da imensidão da biodiversidade amazônica. O trabalho de taxonomia também é um processo longo, que pode durar vários anos. Por esses motivos, a descrição de uma espécie nova já incorporada a uma coleção científica pode levar muito tempo para ocorrer.

“A gente ainda tem muito para conhecer e poucas pessoas (no campo da taxonomia), um esforço ainda reduzido para o número do que ainda tem para descobrir. Então, a descoberta de novas espécies adiciona conhecimento sobre biodiversidade”, explica a pesquisadora Caroline de Souza.

Distribuição geográfica

Além da descrição das novas espécies de Dexosarcophaga, outras seis espécies do mesmo gênero foram encontradas, pela primeira vez, em regiões da Amazônia brasileira, onde até então não havia registros. Entre elas, as espécies Dexosarcophaga angrensis (Lopes, 1975), que havia sido encontrada apenas na Mata Atlântica do sudeste do Brasil (Rio de Janeiro), e foi registrada pela primeira vez em Bragança, no Pará; a Dexosarcophaga petra Santos, Pape & Mello-Patiu, 2022, que antes só havia registros na Argentina e nos estados do Mato Grosso e do Rio de Janeiro, foi vista pela primeira vez na Serra dos Carajás, no Pará; e a Dexosarcophaga rudicompages (Hall, 1933), que foi encontrada em Novo Aripuanã, no Amazonas, mas só havia registros anteriores no Rio de Janeiro e no Panamá.

Já a espécie Dexosarcophaga globulosa Lopes, 1946, que, na Amazônia brasileira, só havia sido registrada nos estados do Pará, Amazonas e Roraima, foi registrada pela primeira vez em Rio Branco, no Acre, ampliando a sua distribuição geográfica na Amazônia brasileira. Outras duas espécies – Dexosarcophaga pallida Santos, Pape, & Mello-Patiu, 2022 e Dexosarcophaga wyatti (Mello-Patiu & Pape, 2000) – encontradas em Manaus, no Amazonas, representam um novo registro para o Brasil. Anteriormente, elas haviam sido descritas na Colômbia e na Guiana, respectivamente.

As novas espécies

  • Dexosarcophaga akamai: a espécie foi descrita e nomeada em homenagem ao pesquisador do Museu Goeldi Alberto Akama, que liderou em 2016 a expedição ao Cantão, região localizada na divisa dos estados do Pará, Tocantins e Mato Grosso, onde o espécime foi coletado. Ele ficou por 10 anos na coleção entomológica do MPEG, aguardando sua descrição.
  • Dexosarcophaga gorayebi: a espécie foi nomeada em homenagem ao pesquisador do Museu Goeldi, Inocêncio Gorayeb, que participou, em 2000, da expedição à fazenda Ema, no município de Viseu, no Pará, onde Gorayeb coletou o espécime, que permaneceu por 26 anos na coleção entomológica do MPEG à espera da sua descrição formal.
  • Dexosarcophaga ducke: a descrição desta espécie faz referência à localidade em que o espécime-tipo foi coletado, na Reserva Florestal Adolpho Ducke, em Manaus, no Amazonas. Integrada à coleção entomológica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) desde 1990, Dexosarcophaga ducke aguardou 36 anos para ser descrita, o maior tempo registrado nesta pesquisa.
  • Dexosarcophaga mamiraua: a espécie recebeu o nome em homenagem à Reserva Mamirauá, local em que o espécime foi coletado, em 1993, por dois pesquisadores do Museu Goeldi: Inocêncio Gorayeb e Orlando Tobias Silveira. Após 33 anos, o espécime foi descrito.
  • Dexosarcophaga ribeirinha: o termo “ribeirinho” é utilizado para designar aqueles que vivem à margem dos rios. Coletada em 2010, sobre a lâmina d’água, às margens do rio Padauari, em Mamirauá, no Amazonas, o nome dessa espécie faz referência ao ambiente em que foi coletada. O espécime aguardou 16 anos na coleção entomológica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) para ser descrito formalmente.
  • Dexosarcophaga harin: a espécie foi coletada em Mamirauá, no Amazonas, em 1993 e permaneceu por 33 anos na coleção do MPEG. A descrição homenageia Paulo “Harin” Galvão, pai da pesquisadora Caroline de Souza, que faleceu em 2023. Harin foi o maior incentivador dos estudos em biologia da filha, que atualmente é professora do curso de biologia da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), no campus de Capitão-Poço, e coordena o Núcleo Amazônico de Pesquisa em Morfologia, Sistemática e Ecologia de Artrópodes (Namosca), vinculado à mesma universidade

Fonte: OLIBERAL e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 01/09/2026/17:25:35

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