Paraense nascido em Cametá atravessou três continentes e governou Macau há mais de 300 anos

Um paraense nascido por volta de 1682, na então Santa Cruz de Camutá (hoje município de Cametá), percorreu três continentes e assumiu, em 1718, o governo de Macau, território situado na costa sul da China, próximo a Hong Kong. Antônio de Albuquerque Coelho deixou a Amazônia ainda menino e construiu uma trajetória política e militar por diferentes territórios do Império Português.
O fato é abordado pela historiadora Iris Carvalho Nascimento, graduanda da Universidade Federal do Pará (UFPA), no artigo “Antônio de Albuquerque Coelho: um mestiço amazônico no leste asiático português (séculos XVII e XVIII)”. A pesquisa destaca Antônio como um homem de ascendência indígena, africana e portuguesa que alcançou um posto importante da administração colonial no Oriente.
Uma infância distante da Amazônia
António era filho de Ângela de Barros, pernambucana descendente de um homem mulato e de uma indígena. Pelo lado materno, também era neto de uma mulher escravizada de origem angolana e de um homem branco.
O pai, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, era um fidalgo português que ocupou cargos de comando em diferentes partes do Império Português. Passou pelo Maranhão e pelo Grão-Pará, governou o Rio de Janeiro e tornou-se o primeiro governador da capitania de São Paulo e Minas do Ouro durante a Guerra dos Emboabas. Posteriormente, assumiu o governo de Angola, onde morreu em 1725.
Considerado filho bastardo, Albuquerque Coelho permaneceu apenas parte da infância na Amazônia. Ainda menino, seguiu para Portugal, onde se tornou fidalgo cavaleiro da Casa Real.
Em março de 1700, aos 18 anos, embarcou em uma nau com destino ao Estado da Índia. Ingressou na carreira militar e atuou primeiro como tenente e, depois, como capitão de infantaria.
Conflitos e ascensão em Macau
A primeira chegada de Albuquerque Coelho a Macau ocorreu depois de uma viagem atribulada. Em 1708, ele embarcou na fragata de guerra Nossa Senhora das Neves. A embarcação alcançou a cidade em agosto daquele ano quase destruída, sem mastros e sem leme.
Os reparos mantiveram a fragata em Macau por aproximadamente dois anos. O imprevisto acabou prolongando a permanência do paraense no território.
Naquele período, a comunidade portuguesa de Macau enfrentava disputas entre autoridades civis, representantes da Igreja e interesses comerciais. Albuquerque Coelho participou do confronto entre a cidade e o cardeal Charles-Thomas Maillard de Tournon, enviado pelo papa para atuar na Controvérsia dos Ritos Chineses.
A discussão religiosa envolvia os limites para a aceitação de costumes chineses entre pessoas convertidas ao catolicismo. Tournon chegou a excomungar Albuquerque Coelho, que continuou envolvido nas disputas locais. Em 1713, o militar participou do embarque forçado de dois padres estrangeiros contrários à posição defendida pela cidade.
No mesmo ano, ele já integrava o Senado de Macau, o que demonstrava o espaço político conquistado na administração local apesar de sua origem mestiça e da condição de filho bastardo.
Sua vida pessoal também se tornou parte dos conflitos da cidade. Albuquerque Coelho e o tenente Dom Henrique de Noronha disputaram a mão de Maria de Moura Vasconcelos, ainda criança naquela época.
A rivalidade dividiu Macau, com autoridades, integrantes da Companhia de Jesus e oficiais posicionados em lados diferentes. Segundo registros macaenses citados no artigo, Albuquerque Coelho perdeu um braço durante o confronto.
A longa jornada até a China
De volta a Goa, Albuquerque Coelho recebeu, em maio de 1717, a nomeação para governar Macau. O arcebispo primaz de Goa, que exercia interinamente o cargo de vice-rei, fez a nomeação.
O novo governador deveria seguir imediatamente para a China, mas enfrentou um obstáculo antes mesmo de deixar Goa. Francisco Xavier Doutel, com quem Albuquerque Coelho mantinha uma desavença pessoal, comandava o único navio disponível.
Sob a justificativa da aproximação de uma tempestade, Doutel partiu horas antes do embarque previsto e deixou Albuquerque Coelho em terra. A nomeação também enfrentava resistência em Macau, inclusive por parte do bispo da cidade, que temia as consequências políticas da chegada de um governador envolvido anteriormente em conflitos locais.
Apesar da oposição, o paraense decidiu fazer a viagem por outro caminho. Partiu por terra até a costa oriental da Índia e procurou uma embarcação que pudesse levá-lo à China.
Uma viagem de um ano até Macau
A jornada, inicialmente prevista para durar poucos meses, estendeu-se por um ano. A comitiva passou por Madras, atravessou a península Malaia e precisou permanecer em Johor, no extremo sul da região, durante o inverno.
Nesse período, Albuquerque Coelho e um pequeno grupo de europeus acabaram envolvidos no golpe de Estado liderado pelo aventureiro sumatrano Raja Kechil, que derrubou o sultanato local então em disputa. Após cerca de seis meses em Johor, a comitiva retomou o percurso, passou pelas costas da Indochina e chegou a Macau em maio de 1718.
O capitão João Tavares de Velez Guerreiro, que acompanhou o governador durante a viagem como chefe de gabinete, registrou o trajeto. O relato foi publicado em Macau ainda em 1718 com o título “Jornada, que Antonio de Albuquerque Coelho, Governador e Capitão General da Cidade do Nome de Deos de Macao na China, fez de Goa até chegar à dita cidade no anno de 1718”.
A obra ganhou novas edições em Lisboa, em 1732 e 1905. O relato está entre as poucas publicações seculares dos primeiros livros impressos em Macau, cuja produção editorial inicial reunia principalmente obras religiosas.
O governo de Macau
Albuquerque Coelho assumiu formalmente o governo de Macau em 30 de maio de 1718. Naquele momento, o imperador Kangxi estava havia mais de cinco décadas no trono da China, durante a dinastia Qing.
Embora permanecesse sob administração portuguesa, Macau dependia das autoridades chinesas para continuar funcionando como entreposto comercial. Na prática, o controle de Portugal sobre a cidade encontrava limites impostos pela soberania chinesa.
Essa dependência apareceu em um episódio ocorrido em março de 1719. O Senado de Macau agradeceu formalmente a Kangxi por deixar a cidade fora de um edito imperial que proibia a navegação para os mares do sul. A medida poderia comprometer o comércio local, mas a isenção preservou as atividades de Macau e rendeu à cidade um presente do imperador.
O mandato de Albuquerque Coelho terminou em 9 de setembro de 1719, pouco mais de um ano depois de sua chegada ao governo.
De Macau ao Timor português
A passagem por Macau não encerrou a carreira do paraense no Oriente. Em 1722, Albuquerque Coelho foi nomeado governador colonial do Timor português, função que exerceu até 1725.
As disputas com os topasses marcaram o período. O grupo de ascendência luso-asiática controlava parte da ilha e disputava o poder com a administração colonial portuguesa. Conforme os registros históricos, os topasses chegaram a cercar o governador.
A pesquisa da historiadora Iris Carvalho Nascimento também aponta uma passagem de Albuquerque Coelho por Pate, no litoral do atual Quênia, outro território ligado à circulação portuguesa no oceano Índico.
Depois de permanecer mais de quatro décadas distante da terra natal, Antônio de Albuquerque Coelho morreu em 1745, aos 62 ou 63 anos, em Madre de Deus, na Índia portuguesa.
Onde fica Macau
Macau é oficialmente denominada Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China. A cidade reúne a Península de Macau, Taipa e Coloane, na costa meridional chinesa. Fica a cerca de 60 quilômetros de Hong Kong e faz fronteira, a oeste e ao norte, com Zhuhai, na província de Guangdong.
Segundo a Universidade de Macau, o chinês e o português são línguas oficiais. O cantonês é o dialeto predominante, enquanto o mandarim e o inglês também são amplamente utilizados no setor empresarial.
O nome Macau deriva de “Ma Kok”. Quando os portugueses chegaram à região no século XVI, perguntaram aos moradores como o local se chamava. Sem compreender a pergunta, os habitantes teriam informado o nome do templo Ma Kok. Diferentes variações foram usadas até a consolidação de Macau no século XVII.
Mercadores portugueses chegaram à foz do delta do Rio das Pérolas em 1550 com o objetivo de estabelecer um entreposto comercial no sul da China. Portugal administrava o território sob soberania chinesa e pagava uma taxa anual.
Com a assinatura do Tratado de Amizade e Comércio, em 1887, Portugal obteve direitos coloniais perpétuos pelo período de 40 anos, e Macau passou oficialmente à administração portuguesa. A transferência da soberania para a China ocorreu em 1999.
A Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau estabeleceu a política de “um país, dois sistemas”. Pelo prazo de 50 anos, a cidade mantém poderes executivos, legislativos e judiciais próprios, delegados pela República Popular da China.
A presença das culturas chinesa, portuguesa e ocidental também aparece no patrimônio arquitetônico, nas tradições, na religião, na alimentação e na formação da comunidade local. Desde 2005, o Centro Histórico de Macau integra a Lista do Patrimônio Mundial da Unesco.
Templo de A-Má e Largo da Barra
O Templo de A-Má já existia antes do estabelecimento da cidade de Macau e reúne pavilhões dedicados a diferentes divindades. À sua frente, o Largo da Barra é voltado para o Porto Interior e possui calçada portuguesa com um padrão que remete ao movimento das águas.
Quartel dos Mouros
Construído em 1874 na encosta da Colina da Barra, o edifício abrigava um regimento indiano vindo de Goa para reforçar a polícia de Macau. Atualmente, funciona como sede da Direção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água.
Largo do Lilau
Os depósitos subterrâneos da região do Lilau foram a principal fonte natural de água de Macau. O espaço integra o Centro Histórico da cidade, inscrito na Lista do Patrimônio Mundial em 2005.
Casa do Mandarim
Construída antes de 1869, a Casa do Mandarim foi a residência tradicional chinesa de Zheng Guanying, importante personalidade literária do país. O conjunto arquitetônico reúne características de diferentes regiões da China.
Igreja e Seminário de S. José
Fundado em 1728, o Seminário de S. José formou, ao lado do Colégio de S. Paulo, uma das principais bases do trabalho missionário na China e na região. A igreja foi construída junto ao seminário e integra o Centro Histórico de Macau.
Fonte: DIARIO DO PARÁ e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 14/09/2026/15:34:00
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