Pará: mais de 100 indígenas aprovados em universidades públicas

Conquistar uma vaga em uma universidade é o sonho de muitos brasileiros, especialmente em instituições de ensino renomadas e totalmente gratuitas.
O ingresso de estudantes indígenas no ensino superior público no Pará ganha força em 2026 com a aprovação de mais de uma centena de calouros por meio de processos seletivos específicos nas duas maiores universidades do Estado. As iniciativas ampliam o acesso, reconhecem trajetórias marcadas por desigualdades históricas e fortalecem a presença indígena na universidade sem abrir mão da identidade, da cultura e dos territórios de origem.
Na Universidade Federal do Pará (UFPA), o listão do Processo Seletivo Especial Indígena 2026 foi divulgado em 19 de janeiro, com o preenchimento de 96 vagas destinadas exclusivamente a candidatos indígenas. O processo é voltado a estudantes que ainda não iniciaram um curso de graduação e que se encontram em situação de vulnerabilidade étnico-racial. Em 2026, a UFPA ofertou 760 vagas no total, divididas igualmente entre indígenas e quilombolas, com 2.297 inscritos. Entre os cursos mais disputados pelos candidatos indígenas estão Medicina, nos campi de Altamira e Belém, Enfermagem, Educação Física, Administração, Odontologia, Fisioterapia, Direito, Biomedicina e Agronomia, áreas estratégicas para a atuação profissional e o retorno às comunidades.
Na Universidade do Estado do Pará (Uepa), o Processo Seletivo Específico para Candidatos Indígenas e Quilombolas também ampliou o acesso em 2026. Ao todo, dez estudantes indígenas foram aprovados, com destaque para as três maiores notas, que garantiram vagas no curso de Medicina nos municípios de Santarém, Marabá e Belém. A Uepa ofertou 208 vagas no processo, sendo uma vaga para indígenas e uma para quilombolas em cada um dos 104 cursos disponíveis, distribuídos entre a capital e outros 18 municípios paraenses.
Para o diretor da Associação dos Povos Indígenas Estudantes da UFPA, Joxanti Gavião, o processo tem um significado político. “Esse processo seletivo reconhece que nossos povos têm direito à universidade sem abrir mão de quem somos. Estar aqui é ocupar um espaço que historicamente nos foi negado”, declarou.
Sonhos e pertencimento
Entre os novos estudantes indígenas aprovados pela UFPA, a caloura Jully Brígida Tembé da Câmara, da Aldeia Sussuarana, ingressou no curso de Licenciatura em Letras – Língua Portuguesa. Para ela, a aprovação representa mais do que uma conquista individual. “Essa conquista significa muito pra mim, é o resultado de um ano inteiro estudando para conseguir ingressar na federal como estudante”, contou.
Ao ouvir o nome no listão, Jully descreve uma mistura de sentimentos. “Foi uma felicidade absurda e, ao mesmo tempo, uma sensação de dever cumprido, porque pude realizar o meu sonho e o sonho do meu avô”, disse. Seu objetivo é retornar à comunidade como professora. “Uma das minhas prioridades é voltar para minha comunidade, porque acredito que a educação de dentro é muito precária e há uma grande necessidade de ensino.”
O estudante Wyrahu Ribeiro Tembé, de 21 anos, da Aldeia Pirá, na Terra Indígena Alto Rio Guamá, ingressou no curso de Ciências Biológicas. Para ele, a universidade é uma ferramenta de transformação coletiva. “Significa que posso mudar o ensino da minha comunidade e proporcionar um ensino voltado à cultura”, destacou. Wyrahu também vê sua presença no ensino superior como uma forma de enfrentar estereótipos.
Já a estudante Tainar Kaihhê, de 20 anos, aprovada no curso de Medicina, é da Aldeia Velha Pac-ré, na Terra Indígena Kanela, no Maranhão. Primeira mulher indígena de seu território a ingressar no ensino superior na área da saúde, ela define a aprovação como um marco coletivo. “Significa luta e resistência. Para mim e para o meu território foi uma conquista muito grande e histórica”, afirmou.
Sobre o momento do resultado, relembra a emoção. “Meu coração começou a acelerar, liguei na mesma hora para minha mãe e quase chorei de felicidade. Foi uma sensação de vitória e de mostrar que nós, mulheres indígenas, conseguimos sim ocupar espaços como esse.” O sonho, segundo ela, é retornar à aldeia como médica. “Quero me especializar em pediatria e ser exemplo para as crianças da minha comunidade, para que eu não seja a primeira e a última, mas sim, a primeira de muitas”, concluiu.
A entrada desses estudantes reafirma o papel das universidades públicas na promoção da equidade e no fortalecimento da diversidade étnica no ensino superior. Mais do que números, as aprovações representam projetos de vida, sonhos coletivos e a perspectiva de que o conhecimento acadêmico dialogue com os saberes tradicionais, retornando aos territórios como ferramenta de transformação social, cuidado e desenvolvimento.
Fonte: Dol e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso em 04/02/2026/14:33:16
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