Morador de Belém recebe conta de R$ 8,1 mil e relata falta de água frequente

Desde que a empresa Águas do Pará, concessionária responsável pelos serviços de água, coleta e tratamento de esgoto, assumiu o serviço no estado, moradores de Belém relatam interrupções recorrentes e questionamentos sobre cobranças. Em um dos casos, o consultor de impressão Djacir Távora, de 86 anos, recebeu uma fatura de R$ 8,1 mil, enquanto afirma enfrentar falta de água de três a quatro vezes por semana.
No passado, a Águas do Pará assumiu os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário no Estado. A concessão tem prazo de 40 anos e abrange 126 municípios paraenses. Em abril de 2025, o grupo Aegea, responsável pela concessionária, venceu o leilão de concessão dos serviços de água e esgotamento sanitários realizados pela Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa).
O consultor de impressão Djacir Távora foi pego de surpresa com a conta de água de setembro. A cobrança, que normalmente varia entre R$ 40 e R$ 60 chegou a mais de R$ 8 mil na fatura deste mês, referente ao consumo de agosto. Segundo Djacir, a empresa distribuidora alega que há um vazamento na residência, entretanto o problema não foi encontrado por um profissional contratado por ele.
Djacir e a esposa, Iraci Araújo, de 83 anos, vivem há 50 anos na casa, localizada na avenida Romulo Maiorana. De 1976 a 2026, foi utilizado o mesmo medidor, trocado em abril. Desde então, o morador diz que outras contas ultrapassaram os R$ 100, mas, em idas a uma agência da Águas do Pará, lhe foi orientado que pagasse o valor de costume.
“Quando fez um mês [da troca do medidor], veio uma conta já de R$ 800. Passou para R$ 600. Então, eu ia lá o tempo todo reclamar. Fui quatro vezes. Toda vez que vinha mais alto, eu ia lá”, conta.
Em agosto, que teve 32 dias faturados, a cobrança foi de R$ 49,10. O boleto apresenta, em metros cúbicos, o consumo medido de 450, consumo médio de 5 e consumo faturado de 50. Já em setembro, com 29 dias faturados, o valor saltou para R$ 8.100,34 — quase 165 vezes maior do que o mês anterior. Os consumos medidos, médio e faturado, em metros cúbicos, são de 451, 10 e 450.
O casal teme que, com a falta de pagamento, o fornecimento seja interrompido. Conforme informação que consta no boleto, a data de vencimento é 07 de outubro e o corte pode acontecer a partir do dia 06 de novembro “Até agora, não resolveram. Essa conta, eu não vou poder pagar. R$ 8 mil é absurdo”, fala Djacir.
O morador afirma que não há vazamento na casa, conforme alegado pela Águas do Pará. Além da avaliação profissional, Djacir também declara que tudo está na normalidade e não há indícios de qualquer problema na tubulação. Para ele, o medidor está adulterado.
A empresa alega vazamento na casa, que não foi constatado pelo morador
Djacir ressalta que, desde a mudança da empresa distribuidora, a falta de água é recorrente na residência. Por semana, o fornecimento é interrompido de três a quatro vezes, em média, e há variação no tempo de retorno. Certas vezes, a água volta às torneiras em algumas horas – em outras, apenas no dia seguinte.
No sábado (26), houve interrupção no fornecimento de água. Djacir fala que, ao longo do dia, faltou durante duas horas. No início da noite, novamente estavam sem água, que retornou por volta das 21h. “Não tem hora. É de manhã, de tarde, de madrugada. Toda hora está faltando água. Quando é um vazamento, é rápido. Mas tem vazamento que passa o dia todinho sem água”, explica.
O advogado Max Martins explica que, ao identificar cobranças fora do padrão, o consumidor deve registrar o problema e reunir documentos que comprovem a situação, como faturas, comprovantes de pagamento, fotos, vídeos e datas das falhas no abastecimento. Em seguida, deve registrar a reclamação nos canais oficiais da concessionária, solicitando providências como a regularização do fornecimento, a revisão da cobrança ou a instalação do hidrômetro. Em casos em que o problema não seja solucionado, o consumidor pode recorrer aos órgãos de fiscalização e defesa do consumidor.
“É fundamental guardar o número do protocolo, a data do atendimento e o nome do atendente, além de perguntar quais providências serão tomadas e o prazo para solução. Esses registros ajudam a comprovar o ocorrido em uma reclamação no Procon ou em uma ação judicial”, relata o advogado.
O advogado reforça o passo a passo para formalizar as reclamações. “O consumidor pode procurar o Procon, sem necessidade de advogado, e a Ouvidoria da Arcon [Agência de Regulação e Controle de Serviços Públicos do Estado do Pará], para solicitar apuração e providências sobre o serviço. O Procon Pará recebe reclamações presencialmente e pelo e-mail reclamaprocon@procon.pa.gov.br. A reclamação administrativa e a ação judicial podem ocorrer simultaneamente, informando eventual acordo ou solução obtida”, detalha.
“Se houver indícios de crime contra as relações de consumo, o consumidor pode procurar a Delegacia do Consumidor, levando os documentos e provas para registrar um boletim de ocorrência. A apuração criminal é uma medida adicional às providências administrativas e judiciais, mas depende de indícios de crime, e não apenas da existência de uma cobrança contestada”, acrescenta.
A situação também entrou no debate da TV Liberal, na terça-feira (29), quando os candidatos ao Governo do Estado apresentaram propostas diferentes para a concessão. A candidata à reeleição ao Governo do Pará Hana Ghassan (MDB) afirmou que, como governadora, cobra da Águas do Pará que não sejam emitidas faturas sem o devido fornecimento de água. “Como governadora, suspendi qualquer cobrança de poços sob disponibilização. Estou efetivamente cobrando e fiscalizando esse contrato. O que precisar ser feito, eu farei. Cassarei, caso a empresa não forneça água nos poço”, relata.
O também candidato ao Governo, Daniel Santos (Podemos), afirmou que pretende revogar o contrato com a Águas do Pará e retomar o serviço de fornecimento de água para a Companhia de Saneamento do Pará (Cosanpa). Segundo ele, os recursos que teriam sido destinados à publicidade seriam direcionados à ampliação do acesso à água e à saúde. “Eu vou cassar o contrato e vou, ao invés de investir R$ 1 bilhão que foi investido em propaganda, investir para fazer a água chegar na sua [dos moradores] torneira. Eu vou investir para que você tenha saúde perto de você. Eu fiz isso em Ananindeua”, pontua.
À reportagem do Grupo Liberal, Araceli Lemos (Psol) afirmou ter posicionamento crítico em relação à forma como o contrato com a Aegea foi conduzido, destacando que, segundo ela, não houve consulta à população diretamente interessada no serviço. “A primeira medida será auditar esse contrato. Todo contrato que é assinado entre duas partes, cujo cumprimento das obrigações não aconteça, seja de uma parte ou de outra, pode ser, sim, revisto e cancelado. Também entendo que é necessária a criação de uma nova companhia de saneamento”, afirma.
Em nota, a Águas do Pará esclarecu que o “cliente está ciente de que, temporariamente, a fatura está suspensa de qualquer ação de cobrança, até que solucione o problema de verificação interna de consumo no imóvel”.
“No local foram realizadas verificações desde o mês de abril e o cliente foi orientado e alertado todas as vezes sobre o alto consumo: 04/2026 – 68m³; 05/2026 – 113m³; 06/2026 – 423m³; 07/2026 – 449m³; 08/2026 – 484m³; 09/2026 – 451m³”, acrescenta a concessionária.
Anda de acordo com a empresa, desde abril foram feitos 11 serviços de atendimento na residência. “A cobrança no referido imóvel é feita com base no consumo medido do medidor: leitura atual – leitura anterior. Sobre a verificação realizada por um técnico particular, a concessionária informa que não teve acesso ao relatório mas que o documento pode ser anexado junto à empresa”, frisa a empresa.
“A Águas do Pará reforça que solicitações e ocorrências relacionadas aos serviços de água e esgoto podem ser registradas pelo telefone 0800 091 0091, disponível para chamadas e WhatsApp, ou pelo aplicativo Águas App”, finaliza a nota.
Fonte: oliberal e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 01/10/2026/07:10:45
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