Justiça solta advogada que trabalhou em Marabá investigada por ligação com o PCC em São Paulo

A Justiça mandou soltar a delegada de Polícia Civil de São Paulo Layla Lima Ayub, que atuou como advogada em Marabá, no sudeste do Pará, e estava presa desde janeiro por suspeita de envolvimento com o PCC. Ela teria um relacionamento com um faccionado.
A delegada foi solta oito meses após ser presa, depois de uma investigação apontar seu suposto envolvimento com o PCC. Após a decisão, ela foi solta no último dia 18, segundo o UOL.
Layla é investigada por supostamente integrar organização criminosa, lavagem de capitais e manter um relacionamento com um faccionado. Seu namorado, Jardel Neto Pereira da Cruz, apontado como liderança do PCC na região Norte, também foi preso na mesma operação, no início do ano.
A defesa da delegada havia alegado anteriormente na Justiça excesso de prazo da prisão preventiva. Ela ficou cerca de sete meses detida sem o Tribunal de Justiça do Pará receber oficialmente a denúncia do Ministério Público de São Paulo em seu desfavor. Sua soltura acontece após a Justiça entender que ela não pode ser mantida presa preventivamente no momento, bastando as medidas cautelares impostas.
“A Layla Lima Ayub e sua defesa receberam a notícia da revogação da prisão preventiva com tranquilidade e senso de justiça pela revogação da ilegal prisão preventiva e agora passará a se concentrar em demonstrar sua inocência no curso da ação penal”, disse Renato Guimarães Carvalho, advogado.
À época, para decretar a prisão temporária da delegada, o Juízo descreveu a atitude de Layla Ayub como “ousadia absurda” e “deboche” contra autoridades. Fernando Deroma de Mello atua como juiz na 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa Lavagem de Bens e Valores da capital e, em sua decisão, manifestou surpresa com o fato de a suspeita ter levado o namorado, que seria do PCC, à sua posse como delegada de Polícia Civil.
O namorado de Layla é apontado como uma das lideranças do PCC na região Norte do país. Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como Dedel, compareceu à posse dos delegados da Polícia Civil de São Paulo, na Academia de Polícia, em 19 de dezembro. Ele morava com a delegada em São Paulo enquanto estava em liberdade condicional e no período em que ela frequentava o curso de formação da carreira na Academia da Polícia.
Uma foto mostrou que Jardel esteve na posse de Layla como delegada em 19 de dezembro de 2025. Na imagem, os dois aparecem do lado de fora da academia, abraçados e com roupas formais.
“Se o fato já não fosse de extrema gravidade, poucas vezes vistas, causando surpresa até àqueles que laboram na Justiça Criminal há anos, se comprovado, demonstra uma ousadia absurda e um total deboche das autoridades públicas”, disse Fernando Deroma de Mello, TJSP.
“Um suposto integrante do alto escalão do PCC, com condenações criminais, suspeito de ser responsável por possíveis atentados contra a vida de juízes e outros agentes da Segurança Pública, comparece à cerimônia de posse de sua companheira como Delegada de Polícia do Estado de São Paulo que, novamente, em tese, estaria atuando em conjunto com o crime organizado”, completou Fernando Deroma de Mello, TJSP.
Promotor do Ministério Público se referiu à presença de Jardel no evento como um “demonstrativo de audácia”, durante entrevista para a imprensa após a operação, no início do ano. “Ela é advogada, ciente de que ele está descumprindo o sistema de livramento condicional dele e ciente de que ele é um autodenominado membro da facção. Mesmo assim, leva ele na posse dela no Palácio dos Bandeirantes. Parece um deboche”, afirmou ao UOL Carlos Gaya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado).
Não há indícios de que a facção tenha investido e patrocinado a carreira da delegada. A principal hipótese é de que ela tenha sido cooptada a partir do contato com lideranças do PCC durante o exercício da advocacia, o que se aprofundou a partir do relacionamento com Dedel.
“Não parece que ela foi cooptada para ser delegada do PCC. Foi uma ação individual”, comentou Carlos Gaya, promotor do Gaeco.
O secretário de Segurança, Osvaldo Nico Gonçalves, disse que a delegada não tinha comportamentos anteriores “que a desabonassem”. No entanto, o delegado Nico Gonçalves explicou que os admitidos no concurso ficam em estágio probatório por três anos, podendo ser investigados.
O namorado da delegada já negou, em depoimento, pertencer ao PCC. Em documentos obtidos pelo colunista Josmar Jozino, em 2021, Dedel disse que não era batizado na facção e que apenas forneceu apoio à liderança regional do grupo em Roraima, estado em que residiu por 10 meses.
A última prisão de Jardel foi em 2023. Ele foi detido em Marabá, no interior paraense, mesma cidade em que a advogada Layla atuou. Contudo, ele passou a cumprir pena, também por tráfico, em liberdade.
Jardel tenta carreira como MC. Nas redes sociais, ele se apresenta como cantor e compositor. Sua mais recente faixa, intitulada “Senta”, foi lançada no início de 2026. “Tá doida para sentar para os envolvidos, senta na ponta da MP40”, narra trecho da composição. MP 40 é uma popular submetralhadora alemã.
A delegada e o PCC
Delegada teria participado, em dezembro, de uma audiência de custódia no Pará como advogada de quatro criminosos. Os crimes pelos quais eles foram presos eram tráfico de drogas e associação criminosa.
A audiência foi realizada após a posse de Layla Lima Ayub como delegada, o que é proibido. Segundo o Estatuto da Advocacia, ocupantes de cargos públicos não podem exercer função de advogado, nem mesmo em causa própria.
Além do mandado de prisão temporária contra a mulher, a ação teve como alvo o namorado dela, que também foi preso. Sete mandados de busca e apreensão também teriam sido cumpridos nas cidades de São Paulo e de Marabá (PA).
“Mecanismos internos de controle” ajudaram a polícia a descobrir a delegada. O órgão informou que indícios de irregularidades foram identificados pela corregedoria, que tomou “todas as medidas cabíveis” em seguida.
Delegada foi empossada junto a outros 523 delegados de polícia do estado. Antes de assumir o cargo, ela atuou como policial no Espírito Santo e como consultora jurídica no Pará. Nas redes sociais, a mulher se apresentava como ex-advogada criminalista.
A apuração menciona ainda uma conexão da investigada com o sudeste paraense por questões pessoais. Na época, Layla era formalmente casada com um delegado lotado em Nova Ipixuna, enquanto mantinha o relacionamento atribuído a Jardel. Na ocasião, a reportagem procurou o servidor para saber se ele teria algum posicionamento sobre o caso, mas não houve retorno até a publicação.
Fonte: Portal debate e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 23/09/2026/07:10:45
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