Já pensou em esquiar no Marrocos? Veja surpresas do 1º rival do Brasil, que tem neve, rei e um fígado apaixonado

O Marrocos vai muito além da imagem clássica do deserto. Em um único território, o país reúne paisagens muito diferentes entre si: montanhas com neve, praias banhadas pelo Atlântico, vales secos, oásis e dunas do Saara.

Próximo à Marrakesh, por exemplo, há estações de esqui. Como explica o professor de história Wilher de Freitas Guimarães, a altitude da região — que abriga o Alto Atlas, a principal cadeia de montanhas do país — causa as nevascas.

Depois das montanhas, no interior e no sudeste do país predominam regiões áridas próximas ao deserto do Saara.

No litoral atlântico, o clima é mais ameno por influência do oceano, contrastando com as áreas desérticas do interior.

“Lá tem uma diversidade enorme. Deserto, regiões montanhosas com neve”, afirma o professor. “É extraordinário pensar em toda essa perspectiva de diversidade para romper com esse pensamento de homogeneidade tanto da África quanto de Marrocos”.

Monarquia

O país, diferentemente do Brasil que tem a República como forma de governo, é uma Monarquia Constitucional, ou seja, tem o seu Estado governado por um rei. O país conta com Executivo, Legislativo e Judiciário, mas o monarca mantém amplos poderes constitucionais e exerce forte influência sobre a estrutura política marroquina.

O rei que governa o Marrocos atualmente é Mohammed VI, que assumiu o poder em 1999, com a morte de seu pai Hassan II. A família de Mohammed, a Dinastia Alaouita, chegou ao poder em 1631.

Como explica Wilher, o monarca não é visto apenas como poder central do governo, mas parte da população que crê no islamismo também tem em sua figura um líder religioso.

“Setores da população marroquina não veem a pessoa do Mohammed apenas como um líder político, mas também um líder religioso. E você tem um pouco da mistura ali da religião com a questão política”, afirma.

Em 2011, com a Primavera Árabe, a estrutura institucional do país passou por reformas. Para atender as demandas da população, que pedia menos concentração de poder, o governo promoveu uma nova Constituição aprovada por referendo popular.

Entre as principais mudanças, o rei passou a ser obrigado a nomear o chefe de governo do partido vencedor das eleições, o Parlamento ganhou mais atribuições e foram ampliadas garantias de direitos e participação política. Apesar disso, Mohammed VI manteve amplos poderes como chefe de Estado, comandante das Forças Armadas e principal autoridade religiosa do país.

“[Em Marrocos] tem eleições, as mulheres votam, você tem partidos políticos, mas tudo debaixo de um certo controle do rei”, explica Wilher.

Um país multilíngue

Marrocos tem duas línguas oficiais, o árabe e o amazigue (berbere), mas é marcado pelo multilinguismo. Além do árabe marroquino, conhecido como darija, é comum encontrar pessoas que falam francês, espanhol e, cada vez mais, inglês.

Árabe: é uma das duas línguas oficiais do país. Além de ser amplamente utilizado na comunicação cotidiana, o idioma também está ligado à história, à cultura e à tradição islâmica marroquina.
Amazigue (berbere): falado pelos povos amazigues, presentes no Norte da África há milênios, é uma das línguas oficiais do Marrocos e possui diferentes variantes regionais.
Darija (árabe marroquino): é a língua mais utilizada no dia a dia pelos marroquinos. Embora tenha origem no árabe, apresenta vocabulário e expressões influenciados pelo amazigue, francês, espanhol e outros idiomas que marcaram a história do país.
Francês: a presença do francês é resultado do período colonial. Durante o século XX, grande parte do território marroquino esteve sob protetorado da França. Mesmo após a independência, o idioma segue sendo falado no país.
Espanhol: o espanhol é falado no norte do país, região que também esteve sob influência espanhola durante o período colonial. A proximidade geográfica com a Espanha, separada por apenas cerca de 14 quilômetros no Estreito de Gibraltar, contribui para a manutenção do idioma em algumas áreas, além de favorecer intercâmbios culturais e econômicos.
Inglês: a língua inglesa ganhou espaço nas últimas décadas impulsionada pelo turismo, pela globalização, pela internet e pelas relações internacionais.

Fígado no lugar do coração

Entre as curiosidades mais inusitadas associadas a Marrocos está a ideia de que o fígado, e não o coração, seria o órgão ligado ao amor. Segundo o professor Wilher, contudo, a origem dessa associação é muito mais antiga do que a própria cultura marroquina e remonta a crenças da Antiguidade.

Naquele período, povos como gregos e romanos ainda não compreendiam o papel do cérebro nas emoções e atribuíam significados simbólicos a diferentes órgãos do corpo. O fígado era visto como um centro vital para o bem-estar físico e emocional, o que fez com que ele aparecesse em mitos, obras literárias e expressões relacionadas aos sentimentos.

Com a expansão de influências culturais pelo Mediterrâneo e pelo mundo árabe, essa simbologia combinada com as tradições locais do Norte da África integrou a cultura da população.

Por isso, é possível encontrar referências ao fígado em poemas, metáforas e expressões da tradição árabe presentes em Marrocos. No entanto, a ideia teorizada e refletida não faz parte do cotidiano dos marroquinos nem substitui o coração como símbolo moderno do amor.

Hoje, a associação é vista principalmente como uma curiosa herança histórica e cultural que sobrevive em algumas manifestações literárias e populares da região.

“Você pode encontrar em brincadeiras, você pode encontrar em círculos de amigos, mas não é uma ideia que você possa dizer em Marrocos ao se declarar. Você não vai ouvir dizer: “Amor, você é meu fígado”.

Relação com o futebol

Em 2022, a seleção marroquina teve uma trajetória histórica na Copa. Quarta colocada no Catar, a seleção do Marrocos conquistou o melhor resultado de um país africano no torneio.

A equipe chegou à semifinal, mas acabou derrotada pela França por 2 a 0. Depois, perdeu a disputa do terceiro lugar para a Croácia, por 2 a 1. Mesmo assim, ao chegarem em casa, os jogadores foram recebidos com festa.

Historicamente, segundo Wilher, a população é fã do esporte.

“Eles gostam de futebol, talvez nem tanto quanto os brasileiros, mas o futebol lá não é algo secundário”, conta. “Faz parte da cultura”.

Fonte: g1 e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 13/06/2026/07:25:43

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