Feminicídio em Santarém: polícia mantém prisão de advogado

O suspeito passou por a audiência de custódia realizada nesta segunda-feira (20). A Justiça decretou a prisão temporária de Wlandre Gomes Leal pelo prazo de 30 dias. A medida pode ser prorrogada por igual período, caso haja necessidade para o andamento das investigações.

Em entrevista coletiva na Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), o delegado Kleidson Castro, responsável pelo flagrante, afirmou que a autuação ocorreu após a análise inicial do local do crime, entrevistas com testemunhas e os primeiros apontamentos da perícia.

“O levantamento dessas informações, de local, entrevistas com pessoas que tiveram contato direto com o atendimento da ocorrência, revelou indícios de que não houve um mero suicídio, mas que pode ter acontecido outra ocorrência de fato. Foi justamente a partir dessas análises, inclusive com alguns apontamentos feitos pela perícia criminal, que consideramos haver indícios suficientes de que houve, na verdade, um feminicídio”, afirmou.

Segundo o delegado, a investigação ainda está no início e diversas diligências continuam sendo realizadas para esclarecer completamente a dinâmica da morte.

Entre os fatores que chamaram a atenção dos investigadores está o estado do sangue encontrado no apartamento.

De acordo com Castro, policiais militares e socorristas relataram que parte do sangue da vítima já estava seca quando chegaram ao imóvel. Segundo o Samu, a equipe levou menos de cinco minutos entre o acionamento e a chegada ao local.

“Essas imprecisões técnicas acabam levantando suspeitas sobre o lapso temporal entre o momento em que o fato efetivamente aconteceu e o acionamento do socorro”, explicou.

Outro ponto destacado foi a natureza do ferimento.

Segundo o delegado, a lesão encontrada no tórax da vítima apresenta características que, de acordo com a análise preliminar da investigação, não são compatíveis com a dinâmica descrita pelo suspeito para um caso de suicídio. Ele acrescentou que a profundidade e a espessura do ferimento também levantaram questionamentos e serão analisadas pela perícia.

Kleidson Castro ressaltou, no entanto, que esses elementos ainda serão confrontados com os laudos periciais e demais provas produzidas durante o inquérito.

“Nós não estamos fazendo um juízo de culpa. Ainda não existe uma prova cabal, mas existem indícios suficientes que conduzem a investigação para a comprovação de que não houve suicídio”, afirmou.

À imprensa, Wlandre afirmou que tentou impedir que Tainá tirasse a própria vida, entrou em luta corporal para retirar a faca e acabou sofrendo ferimentos. Segundo o relato dele, a mulher conseguiu desferir um golpe fatal contra si.

A versão apresentada pelo suspeito, segundo a Polícia Civil, contrasta com os elementos reunidos até o momento pela investigação.

O delegado informou ainda que, durante os levantamentos preliminares, surgiram relatos indicando possíveis episódios anteriores de violência doméstica envolvendo o casal.

Segundo ele, essas informações também passarão por apuração durante o inquérito.

Conforme a Polícia Civil, apenas Tainá e Wlandre estavam no apartamento no momento da ocorrência.

Três testemunhas foram ouvidas formalmente durante a lavratura do flagrante, além de entrevistas realizadas com vizinhos, familiares, policiais militares e profissionais do Samu que participaram do atendimento.

Os investigadores também irão solicitar imagens do circuito interno de segurança do condomínio e aguardam os laudos da perícia para esclarecer a dinâmica do crime.

A delegada titular da Deam, Márcia Rabelo, afirmou que acompanhou o caso desde os primeiros momentos e reforçou que a Polícia Civil encontrou indícios que justificaram a prisão em flagrante.

“Eu apoio totalmente o delegado Castro quando ele informa que acreditou haver indícios de realmente ter acontecido um fato diverso daquele contado pela única pessoa que ficou viva”, destacou Márcia Rabelo.

Segundo a delegada, equipes continuam nas ruas em busca de novas testemunhas e outras provas.

Ela informou ainda que a faca utilizada na ocorrência já foi encaminhada para perícia e que os ferimentos apresentados pelo advogado também serão analisados para verificar se são compatíveis com lesões de defesa ou se foram produzidos em outra circunstância.

“A perícia vai determinar se aquelas lesões são realmente golpes de defesa ou se foram produzidas em outro momento. Tudo isso será analisado tecnicamente”, observou a delegada.

Em nota divulgada nesta segunda-feira, a família de Tainá confirmou a morte da jovem, pediu respeito à memória da vítima e informou que não irá comentar versões ou teses sobre o caso enquanto as investigações estiverem em andamento.

O comunicado afirma que a família confia na apuração dos fatos pelas autoridades e espera que a verdade seja esclarecida, com a responsabilização de eventuais envolvidos, sempre dentro do devido processo legal.

A defesa do advogado disse que só irá se manifestar após a audiência de custódia.

Em nota, a OAB Subseção Santarém lamentou a morte de Tainá Yarina dos Santos Cardoso, manifestou solidariedade aos familiares e reafirmou seu compromisso no combate à violência contra a mulher. A entidade informou que acompanha o caso apenas no âmbito de suas atribuições institucionais, para garantir o respeito às prerrogativas da advocacia e aos direitos constitucionais do advogado investigado, sem fazer qualquer juízo sobre os fatos ou antecipar responsabilidades. A OAB também declarou confiança no trabalho das autoridades e reforçou a defesa da correta aplicação da lei e das políticas de proteção às mulheres.

Fonte: G1 e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 20/07/2026/14:19:27

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