Dados apontam crescimento de violência contra professores no Brasil

Uma professora de São José dos Campos (SP) registrou boletim de ocorrência no final de junho de 2026 após um aluno colocar uma lâmina de vidro em seu copo d’água durante aula de Ciências para turma do 8º ano.

O episódio expôs um problema estrutural e urgente no Brasil: a escalada de violência contra docentes em escolas públicas, fenômeno que atinge proporções críticas e mobiliza especialistas, entidades de classe e o próprio governo federal.

O episódio que reabriu um debate necessário

O caso da professora paulistana não surgiu de forma isolada. Meses após, o Brasil se chocou com o ataque à professora de Matemática Betânia de Almeida Prestes, esfaqueada por uma aluna dentro de sala de aula, em Cametá.

Os dois episódios, em regiões distintas do país, revelam um padrão preocupante de hostilidade nos espaços escolares.

O que dizem os números?

Os dados disponíveis confirmam a gravidade do cenário. Pesquisa do Centro do Professorado Paulista (CPP) com 1.144 docentes mapeou os tipos de agressão mais comuns relatados pelos entrevistados:

Violência verbal: 71% dos casos;
Violência psicológica e moral: 58%;
Violência institucional: 27%;
Violência física: 19%.

O levantamento ainda detectou que 65% dos professores já sofreram algum tipo de agressão no espaço escolar. Mais grave: 74% declararam não se sentir seguros em sala de aula.

Os números brasileiros também se destacam no cenário mundial.

Segundo levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 47% dos professores do país apontaram a intimidação verbal por parte de alunos como fonte relevante de estresse.

Esse índice é mais que o dobro da média global, fixada em 18%.

Uma escalada que vem de longe

O coordenador do Observatório Nacional da Violência contra Educadoras/es (Onve), da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fernando de Araújo Penna, afirma que a curva de crescimento dessa violência tem origem identificável.

“A partir de 2010, os casos de violência contra educadores só crescem”, disse ele em entrevista.

Penna, que também dirige a Faculdade de Educação da UFF, aponta três marcos históricos centrais nessa trajetória:

A polêmica em torno do kit Escola sem Homofobia, em 2011;
O ativismo religioso conservador contra o debate de gênero e sexualidade nos planos de educação nacionais, estaduais e municipais, a partir de 2014;
A proliferação de projetos inspirados no movimento “Escola sem Partido”, entre 2014 e 2018.

Resposta do Governo Federal

No início de julho de 2026, o Ministério da Educação (MEC) publicou portaria que institui a Política Nacional de Educação em Direitos Humanos nas Instituições de Ensino.

Um dos eixos centrais do documento é justamente a proteção e a defesa dos profissionais da educação. Para Penna, a medida é bem-vinda, mas insuficiente sem ações complementares.

O coordenador do Onve-UFF defende a criação de redes de acolhimento aos docentes e a formulação de políticas consistentes de valorização do magistério.

Fonte: dol e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 12/09/2026/13:12:54

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