Com atuação das Farc, rios amazônicos viram porta de entrada de ‘supermaconha’ no país

A prisão de dois colombianos que tentavam entrar no Brasil com 17 quilos de droga expôs as ligações internacionais do tráfico na fronteira amazônica. Após desligarem o motor e as luzes do barco, que era conduzido a remo, os estrangeiros acabaram capturados por militares do 3° Pelotão Especial de Fronteira, instalado no Rio Japurá, na altura do isolado povoado de Vila Bittencourt, no Amazonas. A dupla levava um documento de identificação das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o que, segundo a condenação ocorrida meses depois, foi entendido pela Justiça brasileira como prova de elo dos réus com o grupo.
O episódio ocorrido em 2023 ilustra tanto uma mudança na dinâmica criminal da região quanto o papel nessa transformação das Farc, que oficialmente entregaram as armas após um acordo de paz em 2016, mas seguem atuantes por meio de dissidências. Alternativas às rotas mais vigiadas da Tríplice Fronteira, entre a cidade brasileira de Tabatinga, a colombiana Letícia e a peruana Santa Rosa, os rios Japurá e o vizinho Puruê consolidaram-se, ao longo da última década, como um dos principais caminhos para a entrada no país de um tipo de maconha colombiana de alta potência.
O fluxo de entorpecente pelos cursos d’água resulta de uma parceria entre o Comando Vermelho (CV) e a Frente Carolina Ramirez, vinculada a uma das principais dissidências das Farc, o Estado Maior Central. A forte presença do crime organizado, somada ao avanço do garimpo ilegal na região, levou a Defensoria Pública da União, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e outras entidades a solicitarem, em abril passado, uma reunião no Ministério da Justiça para tratar do tema.
A aproximação entre o CV e grupos oriundos das Farc é confirmada pelo coronel do Exército da Colômbia Carlos Rodriguez Contreras, que atua na repressão às dissidências da guerrilha e participa de operações conjuntas com o Brasil. O oficial explica que a aproximação entre as duas organizações abarca compra de drogas, garantias de trânsito nos rios, proteção de carregamentos, troca de informações e coordenação logística pontual. Outras quadrilhas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), também atuam na região.
— Mais do que uma “aliança militar”, o que se observa é uma convergência criminosa transnacional baseada em interesses econômicos compartilhados, particularmente no tráfico, no garimpo e na exploração de recursos amazônicos — diz o coronel.
Segundo Contreras, o Japurá, chamado de Caquetá no território colombiano, ganhou relevância conforme operações antidrogas avançaram no Caribe e outras áreas próximas, impulsionando a busca por rotas alternativas. Dos dois lados da fronteira, as quadrilhas aliciam populações ribeirinhas, que participam do chamado tráfico-formiga, método pelo qual a substância é fracionada em pequenas quantidades e levada em diversas embarcações, dificultando a fiscalização. Já o Puruê é estratégico pela capacidade de fornecer conexões com afluentes menores.
— As características geográficas permitem que grupos criminosos utilizem esse corredor para evitar a presença de forças de segurança e reduzir a exposição a postos de controle — resume o militar colombiano.
O principal produto a circular oculto nas embarcações do tráfico que viajam pelo Japurá e o Puruê é a maconha, mais especificamente dos tipos skunk e creepy, conhecidas pela maior potência. A droga é plantada no departamento colombiano de Cauca e transportada por terra até os rios Orteguasa ou Caguán, que desaguam no Caquetá-Japurá. Há ainda rotas que usam o rio Apaporis e igarapés para contornar zonas de maior fiscalização.
Dados da Polícia Federal (PF) dão uma dimensão do tráfico de maconha no Amazonas. Em 2016, 2,5 toneladas foram apreendidas, enquanto, apenas nos primeiros cinco meses deste ano, 23,3 toneladas acabaram confiscadas pelas autoridades. Para investigadores, o aumento é fruto justamente da consolidação da rota que tem o Japurá e o Puruê como principais eixos, a despeito das bases fluviais e da presença militar nos rios.
— A fronteira é muito difícil, uma área de mata e alagadiça. Quando os rios estão cheios, não fica apenas o principal. Ele sobe e entra na floresta via os igapós — diz o delegado Rodrigo Torres, da Polícia Civil amazonense — Eles (os traficantes) já conhecem a área, e ninguém os vê. A polícia vira alvo fácil.
A relação entre o CV e as guerrilhas colombianas não é inédita. Uma das principais lideranças da facção, o traficante Fernandinho Beira-Mar, montou um esquema com as Farc para traficar cocaína aos EUA e chegou a ficar dois anos escondido na floresta colombiana no início dos anos 2000 (leia mais abaixo). Em 2024, um relatório da Defensoria del Pueblo, órgão do Judiciário da Colômbia que cuida da proteção dos Direitos Humanos, alertava para a presença de facções brasileiras no território e na sua “coexistência armada” com os grupos colombianos.
O tráfico não é o único problema a afetar a região. No ofício enviado ao Ministério da Justiça em abril, os signatários destacaram também o crescimento do garimpo ilegal. Citados na carta, dados de um estudo publicado pelo Instituto Igarapé em 2025 mostram que, entre 1999 e 2020, a área ocupada pela mineração ilegal no município de Japurá era de apenas 0,15 km². Em 2021, ela saltou para 15,3 km², atingindo 57,4 km², entre 2022 e 2023.
Diretora de pesquisa do Igarapé, Melina Risso destaca que os dois rios se tornaram uma área de convergência de economias ilegais, principalmente a mineração e a maconha. Segundo ela, o dinheiro do tráfico também vai parar no garimpo, apesar de não ser a única fonte de financiamento da atividade.
— Quando olhamos o lado brasileiro, a mineração não é totalmente vinculada ao CV. Parte desse financiamento se dá pela população local, os empresários da região — frisa.
O procurador da República André Porreca, que atua na área da Amazônia Ocidental, relaciona o aumento do garimpo no Amazonas com a bem-sucedida operação de desintrusão na Terra Índigena Yanomami:
— Aquelas lideranças foram para outras regiões, na fronteira da Venezuela, no Pará e principalmente no Amazonas. Temos um acompanhamento de três anos e percebemos um aumento expressivo no estado.
Na reunião solicitada pela DPU, realizada em 3 de julho, as entidades presentes solicitaram a elaboração de um Plano de Ação Binacional entre Brasil e Colômbia para proteger a região:
— Fizemos esse pedido por notar um aumento significativo da violência e do garimpo. Não é simplesmente a atividade garimpeira, mas tudo que vem nesse bloco. Temos informações do aumento do consumo de drogas e álcool, além de exploração sexual — diz Ricardo Baraviera, coordenador jurídico da Apib.
Fonte: O GLOBO e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 14/07/2026/15:20:41
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