Boatos sobre seitas e rituais cercam caso de irmãos desaparecidos no Maranhão

O dramático desaparecimento dos irmãos Ágatha e Allan, no Maranhão, movimentou centenas de voluntários nas buscas pelas crianças. Ao longo de todo o mês de janeiro, conforme o caso ganhou repercussão nacional, também começaram a circular, em redes sociais e aplicativos de mensagens, previsões de videntes sobre a localização das crianças e alegações sobre “rituais de magia” como justificativa para o caso.
A associação entre crianças desaparecidas e magia, vidência e religião faz parte de um roteiro que sistematicamente se repete. Entre o final da década de 1980 e o início dos anos 1990, os casos dos meninos Evandro Ramos Caetano e Leandro Bossi, no Paraná, foram diretamente vinculados à atuação de uma suposta seita na região, que teria sido responsável pela morte dos dois. A própria investigação policial a respeito do caso se chamava “Operação Magia Negra”.
O mesmo ocorreu na série de crimes conhecida como a dos meninos emasculados de Altamira, no Pará. Segundo os boatos e rumores da época, a motivação desses crimes, que ocorreram entre 1989 e 1993 e envolveram mais de uma dezena de meninos, também teria um fundamento religioso. Responsável pelo caso, a Polícia Federal, como documentou a antropóloga Paula Lacerda, também trabalhou com a hipótese de relação entre os crimes e o que chamou de “magia negra”.
Desta vez, no caso dos irmãos desaparecidos no Maranhão, não tem sido diferente.
Há décadas, cientistas sociais têm chamado atenção para o modo como alegações de feitiçaria, “magia negra” e rituais funcionam como uma espécie de gramática pública da suspeita. O sociólogo americano Jeffrey S. Victor cunhou o termo “pânico satânico” para denominar o tipo de pânico moral que se repete em situações envolvendo o desaparecimento de crianças. O conceito descreve um fenômeno em três camadas.
Em primeiro lugar, não é preciso que a narrativa sobre as alegadas seitas ou rituais religiosos seja robusta: basta que se repita à exaustão para ganhar aparência de verdade. Segundo, a possibilidade de nomear o inimigo, por mais que ele seja oculto, é mais reconfortante do que a falta total de explicação. Terceiro, é comum que esses rumores ganhem força a ponto de reorientar investigações, desviando-as de hipóteses plausíveis.
O fato é que, após a conclusão das investigações, como constatou o sociólogo americano, os desaparecimentos estão raramente associados a qualquer prática religiosa.
Igualmente comum a todos esses casos, portanto, é a religião funcionar como bode expiatório do pânico moral. Ao mesmo tempo, é a partir do pânico moral que as formas mais arraigadas de desconfiança e preconceito vêm à tona.
No caso das crianças desaparecidas no Maranhão, o fato de serem moradoras de uma comunidade remanescente quilombola e de terem sido vistas por lá pela última vez serve para ativar, por meio dos rumores, todas as formas de estigma contra as religiões afro-brasileiras. Se o fenômeno do “pânico satânico”, observado por Jeffrey S. Victor, é comum em diferentes lugares do mundo, os grupos religiosos acusados variam. Historicamente, no Brasil, esse lugar tem sido invariavelmente atribuído às religiões de matriz africana.
A perversidade desse mecanismo de pânico religioso é que, cada vez que ele é acionado, reforça-se a desconfiança de que algumas religiões são intrinsecamente perigosas. Notícias falsas e rumores como os que circulam sobre o caso do Maranhão são, antes de tudo, a expressão, em estado bruto, da avaliação moral que socialmente se faz das religiões. Décadas depois dos casos do Paraná e do Pará, desta vez não há uma operação policial batizada de “magia negra”. Nas redes sociais, porém, os boatos têm se encarregado de atualizar essa forma de perseguição.
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Fonte: Folha Uol e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso em 03/02/2026/09:23:40
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