Avanço de javalis deixa de ser problema local e entra no centro do debate nacional nesta terça

O avanço de javalis e javaporcos pelo território brasileiro chega nesta terça-feira, 15 de setembro, a uma discussão que interessa muito além dos responsáveis pelo manejo desses animais. Autoridades, pesquisadores, representantes do setor produtivo e especialistas se reúnem em São Paulo para discutir como enfrentar um problema que passou a envolver, simultaneamente, produção agrícola, sanidade animal, biodiversidade, legislação e segurança das propriedades rurais.

O Fórum Faesp/Senar – Javalis e javaporcos: impactos, estratégias e ações coordenadas ocorre na sede da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), em formato híbrido. A programação reúne representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Embrapa, Ibama e especialistas.

O encontro acontece em um momento particularmente importante. O javali (Sus scrofa), espécie exótica invasora cujo controle é autorizado no Brasil desde 2013, já possui registros em 15 unidades da Federação, incluindo importantes regiões produtoras como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo.

O problema deixou de caber dentro da propriedade

Para compreender por que o tema ganhou tamanho peso, é necessário olhar para a combinação de impactos provocados pelo animal.

O javali possui elevada capacidade de adaptação e reprodução e encontra condições favoráveis para se estabelecer em diferentes ambientes. Na propriedade rural, sua presença pode significar consumo e destruição de lavouras, pisoteio, danos ao solo, rompimento de cercas e aumento das despesas necessárias para proteger áreas produtivas.

Em situações severas registradas em 2026, há relatos localizados de perdas de até 40% em lavouras de milho. O número não representa uma média nacional, mas ajuda a dimensionar o impacto que uma população concentrada desses animais pode provocar em determinada propriedade ou região.

O problema também não termina na porteira. Ao revolver o solo em busca de alimento, ocupar ambientes naturais e competir com espécies nativas, populações asselvajadas podem provocar alterações ambientais relevantes.

O próprio Ibama classifica o javali entre as cem piores espécies exóticas invasoras do mundo, citando sua capacidade de adaptação, reprodução descontrolada e ausência de predadores naturais como fatores que favorecem seus impactos ambientais e socioeconômicos.

A maior preocupação pode não estar nas lavouras

Apesar dos danos agrícolas serem a face mais visível do problema, existe outra questão particularmente sensível para o Brasil: a sanidade animal.

Javalis e javaporcos vivendo em liberdade podem aumentar a complexidade da vigilância de enfermidades ao circular por áreas rurais e eventualmente estabelecer contato, direto ou indireto, com animais domésticos.

É justamente por isso que uma das discussões do fórum desta terça-feira estará voltada aos riscos sanitários.

Entre as doenças que mais preocupam o setor está a Peste Suína Africana (PSA), enfermidade viral de enorme impacto econômico internacional que atinge suínos domésticos e selvagens.

O Brasil permanece livre da PSA. O ponto central, portanto, não é afirmar que os javalis estejam provocando um surto no país — não estão —, mas compreender que populações de suídeos vivendo livremente tornam a prevenção e a vigilância sanitária ainda mais estratégicas.

Uma eventual introdução da enfermidade teria consequências que ultrapassariam as propriedades afetadas, podendo atingir produção, comércio internacional, empregos e renda ligados à cadeia brasileira de carne suína.

Brasil já permite o controle desde 2013

O controle do javali não é uma atividade nova no país.

Diante da expansão territorial e dos impactos associados à espécie, o Ibama autorizou seu manejo e controle em 2013, por meio da Instrução Normativa nº 3.

Atualmente, quem pretende realizar o manejo precisa cumprir uma série de procedimentos. Entre eles estão inscrição no Cadastro Técnico Federal, emissão do Certificado de Regularidade, autorização pelo Sistema Integrado de Manejo de Fauna (Simaf) e entrega dos respectivos relatórios. Quando há utilização de arma de fogo, também devem ser cumpridas as exigências aplicáveis ao registro junto ao Exército.

O Brasil também possui um Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Javali, estruturado para integrar medidas ambientais, sanitárias e socioeconômicas. Entre seus objetivos está justamente reduzir os impactos da invasão e fortalecer medidas de biossegurança capazes de diminuir o contato entre javalis e suínos domésticos.

O desafio, portanto, deixou de ser simplesmente reconhecer a necessidade do controle. A discussão atual está cada vez mais concentrada em como torná-lo eficiente, coordenado, monitorado e capaz de acompanhar a expansão territorial da espécie.

São Paulo prepara estratégia própria

O momento do fórum também coincide com uma movimentação importante no maior estado consumidor e um dos principais centros agropecuários do país.

São Paulo instituiu um grupo intersecretarial responsável por elaborar estudos e apresentar o Plano de Manejo e Monitoramento – Plano de Ações Javali São Paulo, envolvendo as áreas de Agricultura, Meio Ambiente, Saúde e Segurança Pública.

Em resolução publicada em 11 de setembro, o governo paulista atualizou a composição do grupo e determinou prazo máximo de 45 dias para conclusão dos trabalhos e apresentação dos resultados.

A abordagem chama atenção porque trata o problema dentro do conceito de Saúde Única, reconhecendo a relação entre saúde humana, animal, vegetal e ambiental.

É justamente essa integração que começa a ganhar força no debate nacional. Uma população invasora capaz de atingir lavouras, fauna nativa, recursos naturais e sanidade dos rebanhos dificilmente será controlada de maneira eficiente quando cada consequência é tratada isoladamente.

O que está em jogo nesta terça-feira

A programação prevista para o encontro começa pela discussão da legislação e do panorama da presença dos javalis. Também serão debatidos riscos sanitários e experiências práticas de manejo.

Na segunda parte do fórum, porém, está o ponto que pode produzir os desdobramentos mais relevantes: as propostas deverão ser organizadas por critérios como urgência, impacto, viabilidade e capacidade de articulação.

A intenção é terminar os trabalhos com uma matriz de compromissos contendo ações, responsáveis e prazos.

Isso muda o peso do encontro. Em vez de simplesmente repetir que existe uma população crescente de animais invasores, o desafio será estabelecer quem faz o quê e quais medidas podem efetivamente chegar às regiões onde o produtor convive com o problema.

Controle também virou questão econômica

Há ainda um aspecto menos evidente nessa discussão: controlar javalis custa dinheiro, mas permitir sua expansão também possui um custo econômico.

Estudo econômico citado pela Faesp, publicado em 2025, estimou que, em um cenário intermediário considerando impactos sobre milho, soja e cana-de-açúcar, o controle populacional poderia resultar até 2030 em um PIB 0,15% superior ao cenário-base, com benefício estimado em aproximadamente R$ 1.016 por animal manejado.

É uma dimensão importante porque muda a maneira de enxergar o problema. O manejo não envolve apenas retirar animais de determinada área: envolve comparar o custo dessa operação com perdas agrícolas, recuperação de estruturas, danos ambientais, biossegurança e riscos sanitários evitados.

Para o produtor que já convive com grupos de javalis dentro ou próximos de sua propriedade, entretanto, a discussão é muito menos abstrata. Significa saber se haverá estrutura, regras claras, monitoramento e capacidade operacional suficientes para impedir que uma ocorrência localizada se transforme em uma população difícil de controlar.

O desafio agora é transformar diagnóstico em ação

O Brasil já reconheceu oficialmente a nocividade do javali, autorizou seu controle, criou um plano nacional e acumulou mais de uma década de experiência de manejo. Ainda assim, a presença da espécie alcança 15 unidades da Federação.

Essa talvez seja a questão mais importante colocada sobre a mesa nesta terça-feira.

O debate já não é apenas sobre a existência do problema, mas sobre a capacidade de União, estados, pesquisa, defesa agropecuária e produtores trabalharem de maneira coordenada para impedir uma expansão ainda maior.

Para um país que ocupa posição de destaque mundial na produção de milho, soja, cana, carne suína e outras proteínas animais, o avanço de uma espécie invasora com efeitos simultâneos sobre produção, biodiversidade e sanidade transforma o controle de javalis e javaporcos em uma discussão estratégica.

E o resultado mais importante do fórum não estará necessariamente nas palestras realizadas ao longo do dia, mas nos compromissos que conseguirem sair delas e chegar, de fato, ao campo.

Fonte: CompreRural e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 16/09/2026/07:26:24

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