Assistimos a uma partida de calcio storico, o esporte mais brutal do mundo

“Pequeno demais para ser uma guerra, cruel demais para ser um jogo”, teria dito o rei francês Henrique III em 1574 após ver homens degladiando-se atrás de uma bola numa partida feita em sua homenagem em Veneza.
O esporte em questão era o calcio in costume, algo como “jogo de chutar com trajes medievais”. Acredita-se que ele derive do harpastum, um dos primeiros jogos de bola da Europa, que era usado como treinamento militar pelos romanos.
Na Idade Média, o calcio in costume era tão popular que atrapalhava as vias públicas e a vida em geral. Não faltavam avisos inscritos em paredes de pedra proibindo o jogo.
A origem do esporte é incerta, mas, por tradição, diz-se que a data de fundação é 17 de fevereiro de 1530, durante o Cerco de Florença, ocupação comandada por Carlos V, do Sacro Império Romano-Germânico, à capital da Toscana. Naquele dia, os cidadãos, mesmo com fome e exaustos, organizaram um embate como forma de provocar as tropas imperiais.
Desde 1930, quando o calcio storico foi ressuscitado, o torneio foi suspenso em diversos anos, sobretudo por brigas descontrolas no campo e na torcida. (Juliano Oster/Superinteressante)
Essa é considerada a primeira partida na Praça Santa Croce, onde até hoje o evento é realizado. Não à toa, o nome mais popular do esporte é calcio storico fiorentino – em italiano, “futebol histórico florentino”.
Em 1580, os renascentistas de Florença deram ao jogo regras oficiais. E foi por lá que o esporte deslanchou até os séculos 18 e 19. A partir daí, porém, a popularidade caiu, e poucas exibições oficiais em Santa Croce foram registradas.
O “revival” do calcio storico só aconteceu em 1930, 400 anos depois da disputa no Cerco – e graças ao regime de Benito Mussolini. O jogo, afinal, reunia elementos para reforçar o sentimento nacionalista de um país unificado havia menos de 100 anos: competição, violência, virilidade e forte conexão à tradição da Roma Antiga. Alessandro Pavolini, chefe do Partido Fascista em Florença, foi o responsável por organizar a nova versão do torneio, que segue mais ou menos intacta.
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Hora do combate
Quatro equipes disputam o torneio anual. Uma para cada distrito de Florença: os Bianchi (brancos), de Santo Spirito; os Rossi (vermelhos), de Santa Maria Novella; os Azzurri (azuis), de Santa Croce; e os Verdi (verdes), de San Giovanni.
As duas semifinais acontecem em um fim de semana na primeira metade de junho. A final é no dia 24 do mês. É o Dia de São João (San Giovanni para os italianos), padroeiro da cidade.
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Antes dos jogos, as equipes partem a pé em cortejo desde o seu distrito até a praça, mobilizando a vizinhança e avançando como gladiadores representantes da sua “nação”. Os Azzurri são considerados os maiores campeões; os Verdi, os menores – eles ostentam um terrível jejum de 30 anos sem título.
(Juliano Oster/Superinteressante)
Os jogadores não se dedicam exclusivamente ao esporte. Nos times há padeiros, professores, seguranças, corretores… A única regra para jogar é ter nascido em Florença.
Não há prêmio em dinheiro, apenas a glória eterna – e uma vaca. É tradição que o time campeão receba um espécime da raça chianina, típica da Toscana, que era morta e servida em um grande jantar de comemoração. Hoje, o animal não é mais abatido.
Mas, afinal: como se joga calcio storico?
Todos os anos, Florença monta na Santa Croce arquibancadas e um campo de areia de 80 m de comprimento por 40 m de largura. É lá que cada equipe tenta chegar à área adversária para marcar uma caccia (gol), que vale um ponto.
A rede ocupa todo o fundo do campo – mas, acredite, no meio de tanta confusão, dá para errá-la. Caso um jogador lance a bola (palla) por cima da rede, o time oposto ganha meio ponto. A partida dura 50 minutos e, toda vez que há um gol, as equipes trocam de campo.
(Juliano Oster/Superinteressante)
Cada time começa com 27 jogadores, numa formação meio 3-5-15 (ou seja, muitos no ataque), além de 4 goleiros. Não há substituições. É comum que a partida termine com menos jogadores que no início, graças a expulsões e contusões.
É possível passar a bola com as mãos e com os pés. Mas o calcio storico não é conhecido como o esporte mais brutal à toa: a chave para vencer está em imobilizar o rival e levá-lo ao chão.
Ninguém usa luvas nem capacetes. Fraturas e sangramentos são de lei – ao final das batalhas, os rostos e a areia ficam pintados de vermelho. Mas os jogadores, apaixonados, só deixam a partida em último caso. Há relatos de gente que comemorou a vitória e só depois descobriu uma costela quebrada.
Porém, consequências mais sérias (já houve mortes no calcio storico) levaram à criação de regras modernas de sobrevivência. Pode dar soco, cotovelada, cabeçada, chutes e até estrangular. Mas é proibido acertar na cabeça, assim como chute por trás. Só vale um contra um – se dois jogadores lutarem contra um único adversário, serão expulsos.
O jogo tem um juiz principal, seis auxiliares (todos pelo campo) e um árbitro de mesa. Vestidos de amarelo, socorristas ficam de prontidão para entrar na arena. (Juliano Oster/Superinteressante)
Além disso, quando um jogador é derrubado na areia, ele não pode levantar até que aconteça um gol e a partida seja retomada. O responsável pela imobilização também fica parado, geralmente por cima do adversário. Não se pode bater em alguém caído.
Jogadores podem usar camiseta ou não. Todos vestem calças (pantaloni) com a cor da equipe. O capitão se destaca com uma túnica. Às vezes, até o treinador entra na arena. Para coroar, uma pessoa com roupas das cores de todos os times fica perambulando apenas para buscar a bola nas redes e repor no jogo. O gandula mais surreal do mundo.
Na cara do gol
Numa viagem pela Toscana com uma amiga napolitana, em junho de 2025, definimos que o calcio storico seria um dos pontos altos do roteiro. Só tinha um problema: os ingressos online já estavam esgotados.
Por sorte, restavam alguns bilhetes físicos à venda no Teatro Verdi, próximo à praça. E lá fomos nós assistir à segunda semifinal daquele ano, Bianchi X Verdi.
Os distritos têm aproximadamente o mesmo tamanho, e não existem arquirrivais em específico, dado que todos já se enfrentaram inúmeras vezes e protagonizaram batalhas marcantes ao longo dos tempos. Mas diz a lenda que o emblemático confronto de 1530 foi entre Bianchi e Verdi. Talvez por essa razão um segurança tenha dito que esse encontro é mais “pauleira”.
Em 2006, uma briga generalizada levou 50 jogadores aos tribunais, paralisando o evento por um ano e forçando o surgimento de regras modernas de segurança. (Juliano Oster/Superinteressante)
Apesar de receber forasteiros, o calcio storico é um evento majoritariamente florentino. Mas sem o impacto de outrora na cidade: Florença e suas atrações turísticas seguem funcionando sem grandes interrupções durante o torneio.
As ruas no entorno da praça foram fechadas. Nelas, havia gente vendendo souvenirs dos times. Tinha seguranças em todas as entradas; nos portões, eles revistavam mochilas e bolsas. Há também pessoas que assistem das janelas dos velhos prédios ao redor, formando uma espécie de camarote.
Tinha até homenagem póstuma na torcida e na camiseta de um jogador: “Ciccio vive!” Imediatamente pensei se tratar de um atleta morto em combate. Mas nesse caso era um famoso torcedor dos Verdi que havia falecido em um acidente de trânsito.
As grades altas na arquibancada melariam as fotos do jogo. Mas nada como a paixão dos torcedores, que se enfiavam em bloqueios arrebentados. Lá fui eu com eles, grudado na cerca atrás de alguns cliques.
Confesso que, não fosse o calor do verão europeu, eu dormiria na cerimônia de abertura, com bumbos marcados a passos lentos feitos por músicos com trajes nobres. Algumas tradições europeias são muito modorrentas, essa é a verdade.
Quando as equipes entraram, a energia mudou. Teve papel picado, fumaça colorida, jovens pendurados no alambrado, cânticos apaixonados e até flores jogadas pelos atletas para a torcida.
Hoje, a vaca dada de presente aos vencedores não é mais abatida. Mas o animal ainda desfila no campo. O time ganhador continua recebendo um jantar. (Juliano Oster/Superinteressante)
Enfim o jogo começou. Em certos momentos, os atores do espetáculo pareciam compor A Liberdade Guiando o Povo, clássico quadro da Revolução Francesa. Em outros, era um Guernica puro, com cabeças aparecendo no meio de pernas e corpos atirados para todo lado.
Havia também instantes de estagnação, uns segurando os outros, estudando movimentos como num jogo de xadrez. Aí de repente tudo acontecia muito rápido, as torcidas se inflamavam e alguém fazia um gol. Nisso, os atletas comemoravam, viravam de campo, e eu mal conseguia reparar o que acontecia antes de eles se engalfinharem de novo.
Em um jogo disputado, os Verdi levaram por 13 a 10. No apito derradeiro, a torcida arrebentou a grade para invadir a arena – eu fui junto, claro. A final foi contra os Rossi, que ganharam de lavada (17 a 4). “Rossi campioni!”, pela terceira vez seguida.
Nos primórdios do calcio storico, colocava–se um touro na arena para provocar ainda mais confusão. Hoje em dia, isso não existe, mas o fato é que a violência no jogo segue praticamente a mesma desde a sua criação. Faz sentido que um esporte assim continue existindo?
Esse é um debate dentro da comunidade florentina. De um lado, existem críticas contundentes à exaltação da violência. Do outro, os que perpetuam a tradição e que a veem como fator fundamental da sua identidade. A julgar pelos relatos dos jogadores e torcedores, talvez ainda tenhamos por muito tempo esse esporte brutal – o mais insano a que eu já assisti.
Fonte: Super Abril e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso 21/03/2026/08:05:28
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