Amazônia no centro da cena: espetáculo indígena de atriz do Pará vence prêmio nacional de arte

As belezas da infância de quem nasce e cresce na floresta amazônica conquistaram um dos prêmios mais relevantes das artes no país. O espetáculo indígena Pa’ra – Rio de Memórias, idealizado e protagonizado pela atriz, diretora e pesquisadora paraense Lenise Oliveira, venceu o Prêmio APCA 2025 na categoria Melhor Monólogo Infantojuvenil. A cerimônia de entrega está prevista para ocorrer entre os meses de junho e julho, em São Paulo, mas o anúncio dos vencedores já foi divulgado pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

Inspirado na cosmovisão do povo Sateré-Mawé, a obra se afasta de representações coloniais dos povos originários. Não há penas nem pinturas corporais em cena. A identidade visual aposta em cores vibrantes e símbolos ligados à cultura amazônica e paraense, enquanto a trilha sonora original mistura musicalidades ancestral com referências do brega e do tecnobrega, criando uma ponte entre ancestralidade e vida urbana contemporânea.

O espetáculo parte das memórias de infância da artista, vividas no bairro do Jurunas, em Belém, para construir uma narrativa voltada às infâncias indígenas em contexto urbano. Em cena, Lenise dá vida a Dalú, uma criança indígena que é obrigada a deixar o território de seu povo e migrar com a mãe para a periferia de uma grande metrópole.

Nesse novo espaço, a personagem enfrenta o preconceito, a violência institucional e o apagamento cultural. Quando a casa onde vive é invadida, Dalú recorre aos ancestrais e embarca em uma travessia simbólica pelo Rio das Memórias, um território onde natureza, encantados e antepassados seguem vivos e oferecem orientação, cuidado e pertencimento.

Lenise Oliveira é atriz, pesquisadora e ativista do movimento indígena. Iniciou sua trajetória artística no Pará, integrando grupos experimentais de teatro e atuando em montagens da cena local como Tieta, As Casas de Nelson e Geni, dirigidas por Tiago de Pinho. Em 2019, passou a cursar Artes Cênicas na Universidade Federal do Pará (UFPA), onde participou de espetáculos como o Auto do Círio, A Morte do Caixeiro Viajante e Zeca de uma cesta só. Em 2021, mudou-se para São Paulo para aprofundar sua formação e pesquisa em teatro de máscaras, além de ampliar sua atuação artística em diferentes projetos e coletivos.

Na capital paulista, integrou produções como o musical Como é que se diz Eu te amo? e o espetáculo O Poço da Mulher Falcão, apresentado no Festival Internacional de Teatro de Rio Preto (FIT) em 2024. Também participou de montagens exibidas em espaços como o Itaú Cultural e o Sesc, além de integrar núcleos de estudo voltados a perspectivas contracoloniais. É idealizadora do projeto Perspectivas Indígenas em Cena, contemplado pelo edital Funarte Retomada 2023 – Teatro, do qual Pa’ra – Rio de Memórias é um desdobramento.

Infância, território e deslocamento

A criação do espetáculo dialoga diretamente com a própria trajetória de Lenise, marcada pelo deslocamento do Norte para o Sudeste e pelo enfrentamento de diferentes formas de discriminação e deslegitimação de saberes indígenas.

“Percebi uma fricção muito grande entre os saberes que trago da minha família, da minha ancestralidade, e a forma como esses saberes são vistos fora do Norte. Muitas vezes, há uma tentativa de nos enquadrar, de apagar o que somos. Eu queria falar sobre isso de um jeito sensível, que alcançasse as crianças, mas também os adultos”, afirma.

A artista conta que o espetáculo se estrutura a partir de três eixos principais — infância, corpo e territorialidade — com foco especial nos direitos das crianças indígenas que vivem fora de seus territórios tradicionais.

“Muitas crianças indígenas precisam sair de suas comunidades para estudar na cidade e acabam enfrentando todo tipo de violência e apagamento cultural. A educação deveria ser intercultural e bilíngue, mas isso nem sempre acontece. O espetáculo nasce dessa urgência de conversa”, diz.

Fonte: g1 PA e Região e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso em 04/02/2026/09:56:54

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