Abridores de letras criam mural de 260m² em escola de Belém

Na esquina da Avenida Governador José Malcher com a Visconde de Souza Franco, no bairro de Nazaré, em Belém, rios, barcos e pescadores começaram a ocupar o concreto. A fachada da Escola Estadual (EEEFTI) Pinto Marques se transforma em uma grande paisagem amazônica pintada à mão. São quase 260 metros quadrados de mural assinados por nove mestres abridores de letras da Amazônia, em uma intervenção realizada pelo Instituto Letras Q Flutuam.

O trabalho começou esta semana e deve ser concluído na sexta-feira (27). Reunir nove mestres de diferentes municípios em uma mesma “tela” é algo raro. Nos andaimes, o encontro promove troca de técnicas e saberes de um ofício centenário que atravessa gerações. Participam da criação Idaias Dias de Freitas; Joeldem Conceição dos Santos, o Lili da Vigia; Simão Costa Sarraf, o Ramito; Manuel Correa Pantoja, o Soquete; Vanderson Brito Oliveira, o Vanderson; Alessandro da Silva Abreu, o Alessandro Bala; Donielson da Silva Leal, o Kekel; Antonio Marcos Ribeiro Barata, o Barata; e Rosivaldo Gomes Correa, o Colaça — artistas que carregam no pincel a identidade visual dos rios da Amazônia.

 

A intervenção leva para o ambiente escolar a cultura gráfica que há mais de um século colore embarcações ribeirinhas. “Levar esse debate às escolas públicas é inaugurar a conversa sobre a importância da nossa própria cultura nos espaços de ensino, fortalecendo o trabalho dos professores e a autoestima dos estudantes”, afirma Fernanda Martins, diretora do instituto e responsável pela articulação do projeto.

 

Ao ceder seus muros, a escola pública se transforma em galeria a céu aberto. Para Fernanda, a ação também cumpre papel de preservação cultural. “É uma salvaguarda. Mantém viva uma tradição secular que representa a identidade visual da Amazônia e a criatividade do seu povo, uma contribuição para a cultura, a história e a memória coletiva.”

Criado em 2024, o Instituto Letras Q Flutuam é o primeiro do Brasil dedicado exclusivamente à cultura gráfica ribeirinha. A instituição já mapeou mais de 130 abridores na Amazônia e promove oficinas, capacitações e ações de geração de renda. A intervenção na EEEFTI Pinto Marques conta com incentivo do Governo do Estado do Pará, por meio da Secretaria de Cultura e da Lei Semear, e patrocínio da Riachuelo.

Patrimônio vivo

No mural, as cenas nascem aos poucos. “Os pescadores aqui, as barcas pesqueiras… tem mais aqui o pescador”, descreve Rosivaldo Gomes Correa, o Colaça, de Igarapé-Miri, enquanto aponta para a composição ainda em processo. O trabalho segue o ritmo possível diante da chuva do inverno amazônico. “A chuva faz a gente ter que parar, esperar. É o tempo dela e a gente está acostumado a trabalhar assim. A previsão é pra entregar sexta-feira.”

Com cerca de cinco décadas dedicadas ao ofício, Manuel Correa Pantoja, o Soquete, de Abaetetuba, destaca o significado de participar da intervenção no centro da capital. “Pra mim é uma imensa satisfação. Trabalhando aqui pra mim é uma alegria”, afirma. Segundo ele, iniciativas como essa fortalecem a categoria. “Valoriza muito. Isso aí é o nosso sustento.”

Fonte: G1 e Publicado Por: Jornal Folha do Progresso em 27/02/2026/08:45:51

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